Livros: A lupa e a luneta
Livros: A lupa e a luneta
Lupas servem para ver, de perto, objetos supostamente pequenos. Lunetas servem para ver, de longe, objetos supostamente grandes. Além de serem instrumentos ópticos, ambas têm em comum o fato de ajudar a ver. Para fazer uma reportagem, jornalistas podem utilizar lupas, lunetas ou as duas.
O jovem repórter Tomás Chiaverini tinha diante de si, contraditoriamente, um objeto grande e muito, muito próximo: a vida de homens, mulheres e crianças que vivem nas ruas da metrópole paulistana. Eles são numerosos -oscilam por volta de 10 mil, mas já foram estimados em 100 mil pessoas, de acordo com números divulgados no próprio livro - e tão perto do cotidiano que, para fazer a sua apuração, precisou da lupa e da luneta: tanto olhar as menores partes quanto o todo. Chiaverini circulou por onde vivem, perambulou nas ruas, acompanhou os grupos de ajuda e foi aos albergues. Mas também freqüentou os arquivos, leu antigas reportagens, teses e dissertações e pesquisas estatísticas.
Matérias sobre o modo como vivem e sobrevivem os moradores de rua - mendigos, crianças abandonadas, famílias embaixo das pontes, seres errantes, folclóricos ou misteriosos - não são raras. Periodicamente freqüentam o noticiário. Às vezes, por força dos fatos: quando a região central de São Paulo presenciou um massacre deles, em 2004, ou quando o governo municipal construiu o que ficou conhecido como rampa anti-mendigo, em 2005, são alguns exemplos. Em outros momentos, as reportagens surgem um tanto espontaneamente, talvez porque recaia sobre essas vidas uma espécie de fascínio não confessado, uma projeção na liberdade e no descompromisso com que o cotidiano deles é erroneamente associado. Para o leitor médio, o contato com o tema é quase sempre pouco confortável.
Muito se queixa de que falta no jornalismo a vontade de circular, a apuração nas ruas, as pessoas reais. Isso acabou, involuntariamente, gerando uma mitificação da reportagem clássica, daquela que obriga o jornalista ao contato com o real. Nesse sentido, Chiaverini tangenciou o perverso. Dormiu com os moradores de rua, esteve sujeito às violências, física e simbólica, de que são vítimas, comeu o que comem, sentiu o cheiro do abandono. A questão que se deve fazer, no entanto, é como essa experiência colateral resultou em um livro-reportagem melhor ou diferente daquilo que os jornais, revistas e televisão já têm feito. Infelizmente, apesar do esforço, nada, ou muito pouco, apenas. O que não tira o mérito do autor e de seu trabalho. Muitas vezes o que chamamos de "jornalismo de vivência" resulta apenas nisso, vivência. Extrair uma perspectiva poética, estética e ao mesmo tempo informativa de um tema duro, difícil e desafiador como esse enfrentado por Tomás Chiaverini é tarefa ingrata. Falta-nos tanto um Joe Gold quanto um Joseph Mitchell a iluminar essa realidade.
"Cama de Cimento", de Tomás Chiaverini Ediouro, 248 páginas, R$ 34,90






