Livros: A lupa e a luneta

Livros: A lupa e a luneta

Atualizado em 23/11/2007 às 20:11, por Rodrigo Manzano.

Por

Lupas servem para ver, de perto, objetos supostamente pequenos. Lunetas servem para ver, de longe, objetos supostamente grandes. Além de serem instrumentos ópticos, ambas têm em comum o fato de ajudar a ver. Para fazer uma reportagem, jornalistas podem utilizar lupas, lunetas ou as duas.

O jovem repórter Tomás Chiaverini tinha diante de si, contraditoriamente, um objeto grande e muito, muito próximo: a vida de homens, mulheres e crianças que vivem nas ruas da metrópole paulistana. Eles são numerosos -oscilam por volta de 10 mil, mas já foram estimados em 100 mil pessoas, de acordo com números divulgados no próprio livro - e tão perto do cotidiano que, para fazer a sua apuração, precisou da lupa e da luneta: tanto olhar as menores partes quanto o todo. Chiaverini circulou por onde vivem, perambulou nas ruas, acompanhou os grupos de ajuda e foi aos albergues. Mas também freqüentou os arquivos, leu antigas reportagens, teses e dissertações e pesquisas estatísticas.

Matérias sobre o modo como vivem e sobrevivem os moradores de rua - mendigos, crianças abandonadas, famílias embaixo das pontes, seres errantes, folclóricos ou misteriosos - não são raras. Periodicamente freqüentam o noticiário. Às vezes, por força dos fatos: quando a região central de São Paulo presenciou um massacre deles, em 2004, ou quando o governo municipal construiu o que ficou conhecido como rampa anti-mendigo, em 2005, são alguns exemplos. Em outros momentos, as reportagens surgem um tanto espontaneamente, talvez porque recaia sobre essas vidas uma espécie de fascínio não confessado, uma projeção na liberdade e no descompromisso com que o cotidiano deles é erroneamente associado. Para o leitor médio, o contato com o tema é quase sempre pouco confortável.

Muito se queixa de que falta no jornalismo a vontade de circular, a apuração nas ruas, as pessoas reais. Isso acabou, involuntariamente, gerando uma mitificação da reportagem clássica, daquela que obriga o jornalista ao contato com o real. Nesse sentido, Chiaverini tangenciou o perverso. Dormiu com os moradores de rua, esteve sujeito às violências, física e simbólica, de que são vítimas, comeu o que comem, sentiu o cheiro do abandono. A questão que se deve fazer, no entanto, é como essa experiência colateral resultou em um livro-reportagem melhor ou diferente daquilo que os jornais, revistas e televisão já têm feito. Infelizmente, apesar do esforço, nada, ou muito pouco, apenas. O que não tira o mérito do autor e de seu trabalho. Muitas vezes o que chamamos de "jornalismo de vivência" resulta apenas nisso, vivência. Extrair uma perspectiva poética, estética e ao mesmo tempo informativa de um tema duro, difícil e desafiador como esse enfrentado por Tomás Chiaverini é tarefa ingrata. Falta-nos tanto um Joe Gold quanto um Joseph Mitchell a iluminar essa realidade.

"Cama de Cimento", de Tomás Chiaverini Ediouro, 248 páginas, R$ 34,90