Livro "Veja Sob Censura" traz à tona período de repressão sofrida pela revista de maior circulação do país

Livro "Veja Sob Censura" traz à tona período de repressão sofrida pela revista de maior circulação do país

Atualizado em 29/01/2009 às 14:01, por Thiago Rosa/Redação Portal IMPRENSA.

Livro "Veja Sob Censura" traz à tona período de repressão sofrida pela revista de maior circulação do país

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A autora no lançamento da obra
"A gente fazia um tremendo esforço para uma matéria grande e, depois, vinha toda cortada e vetada. Perdemos o reflexo e o pique de fazer jornalismo". A frase do jornalista Carmo Chagas expressa o objetivo da historiadora Maria Fernanda Lopes Almeida, autora de "Veja Sob Censura: 1968-1976". Baseado em depoimentos de profissionais do veículo na época, o livro relata os oitos anos de repressão sofridos pela revista. Na obra, Maria, que também é jornalista, aborda desde o nascimento do semanário até o embate com o governo em meio ao AI-5, período em que, para a Veja, "liberdade de imprensa" guardava sentido denotativo apenas nos dicionários de língua portuguesa.

Dividida em três partes, a obra expõe fatos que vão desde o nascimento da revista até o final do AI-5. O livro relata o clima "familiar" existente entre os jornalistas, a atuação de Mino Carta à frente da redação e os esforços do semanário para burlar a censura vigente. Matérias censuradas e 138 reportagens que nunca foram publicadas também fazem parte da obra.

Ao Portal IMPRENSA, a autora fala sobre os objetivos da realização do livro e seus resultados.

IMPRENSA - Você, além de historiadora, é jornalista formada. Como foi, na visão de profissional da imprensa, estudar e relembrar os momentos da censura no livro?
Maria Fernanda -
O livro teve duas visões diferentes e complementares. Na primeira etapa, prevaleceu o olhar de historiador. Entender os motivos da censura, os porquês das medidas do governo. Em um segundo momento, deu-se a percepção de jornalista. Como se dava o processo de imprensa, como publicar matérias e burlar a censura. O que mais me chamou atenção foi a forma como os jornalistas da Veja lidavam com o problema. A censura não os desanimava, não impedia que realizassem um bom trabalho de apuração. Isto deve servir como exemplo para as futuras gerações.

IMPRENSA - "Veja Sob Censura" além do bloqueio à liberdade de imprensa da revista, traz à tona parte da história de jornalistas hoje conhecidos pelo público brasileiro, como Hermano Henning e José Roberto Guzzo. Como foi a escolha da linha de raciocínio do livro?
M.F-
Minha preocupação foi a de mostrar a censura vigente na época em seus diferentes níveis. Como ela atingia desde a secretária da redação até os repórteres. Cada profissional sofreu a censura de uma forma. O livro é voltado não só para jornalistas e historiadores, mas também ao público que tem interesse pela história da época, em conhecer fatos até então desconhecidos pela maioria das pessoas. Muitos diziam: "Ah, o Herzog morreu!". Mas não saíram matérias nesse período. É importante que se conheça a história de quem participou de todo o processo, quem vivenciou e lutou contra a censura

Em todos os depoimentos inseridos no livro pude constatar um ponto: os repórteres não sentiram na pele o bloqueio à imprensa. Iam para as ruas e conseguiam fontes, era possível apurar os fatos. O problema ficava por conta dos editores, que tinham que escolher quais informações publicar, para não causar problemas com o governo.

IMPRENSA - Depoimentos de personagens na obra falam sobre um clima de "família" existente na redação de Veja no início de sua publicação. Bilhetes, piadas e "trotes" entre funcionários são relatos contados no livro. Até que ponto a censura influenciou esse clima de cordialidade no veículo?
M.F -
Percebi nos relatos que Veja nasceu em conjunto com a trajetória de muitos profissionais na época. Muitos funcionários foram escolhidos no Curso de Jornalismo da Abril. Eram jovens, recém saídos da faculdade. Formaram uma família lá dentro. O que percebi é que a censura fez com que a amizade deles se fortalecesse. Um ajudava o outro.

IMPRENSA - Como Veja conseguia burlar a censura vigente? Qual artifício mais criativo usado pelo veículo?
M.F -
Se para O Estado de S. Paulo , a publicação de versos de Camões e as receitas culinárias geraram grande repercussão. Na Veja , o destaque ficou no uso dos anjinhos e diabinhos no lugar das matérias vetadas. Algumas edições optaram por essa estratégia. Outro artifício bem interessante foi o emprego do símbolo da Abril (árvores) no lugar da reportagem sobre a morte de Zuzu Angel. Muitos leitores perceberam, na ocasião, que o conteúdo da matéria havia sido censurado.

IMPRENSA - No livro você menciona que a figura do até então diretor de Veja , Edgard Farias, não era muito bem vista pelos profissionais de redação. Por ser ele o responsável pelo contato com os militares e os agentes da censura, até que ponto essa aproximação influenciou nas diretrizes da revista?
M.F-
O Edgard tinha um objetivo claro de defender a revista e não deixar que matérias passíveis de censura fossem publicadas. Na época o cargo dele não era muito compreendido, mas ele teve uma função muito importante. Se não fosse sua atuação, a Veja poderia ter sido fechada na época.

IMPRENSA - No livro você detalha reportagens censuradas pelo governo, como a da morte da estilista Zuzu Angel e do golpe militar contra o então presidente chileno, Salvador Allende. Dentre todas as matérias, qual delas causaria maior comoção nacional, caso fosse publicada?
M.F-
As mais polêmicas, de maior curiosidade, foram as do Vladimir Hergoz e da estilista Zuzu Angel. A publicação de reportagem sobre a morte do Herzog era uma forma de reforçar a ditadura. Sobre a Zuzu Angel, o interessante é que pairavam diversas teorias sobre sua morte. Muitas pessoas diziam que a Veja tinha um dossiê sobre o caso, o que não era verdade.

IMPRENSA - Ao final do livro o jornalista Mino Carta, na época diretor de redação de Veja , afirma que o tema "censura" nunca foi contado da forma como realmente aconteceu. Houve diferentes graus de cerceamento à imprensa na ditadura?
M.F-
A censura teve patamares diferentes. Na imprensa alternativa, por exemplo, diversos jornais, como o Opinião , tiveram que fechar as portas. Outros passaram a publicar páginas em branco. A Folha pouco sofreu com a censura. No Estadão , o veto foi considerável. Em alguns veículos, a censura causou elevados prejuízos, já que os editores tinham que mandar as matérias para análise dos censores em Brasília (DF).