Livro: Resenha de "O Sapo e o Príncipe", de Paulo Markun
Livro: Resenha de "O Sapo e o Príncipe", de Paulo Markun
fabiolapaes@uol.com.br
Nunca o país assistira a um momento tão simbólico. Um sociólogo transferindo a faixa presidencial a um homem que fora operário. Em 1º de janeiro de 2003, Luís Inácio Lula da Silva tornava-se o primeiro presidente brasileiro de origem social humilde, recebendo a faixa de Fernando Henrique Cardoso, responsável por aquele momento ocorrer dentro da mais completa democracia. Uma cena registrada na retina e no coração de 200 mil pessoas, na maior festa popular ocorrida em Brasília.
O livro "O Sapo e o Príncipe", do jornalista e apresentador do programa "Roda Viva", Paulo Markun, mostra a vida desses dois homens, que apesar de trajetórias tão diferentes, ajudaram a construir a história brasileira dos últimos quarenta anos. O apelido "sapo barbudo" foi dado por Leonel Brizola a Lula depois da derrota no primeiro turno das eleições presidenciais em 1989. O "eterno caudilho" defendeu o voto no candidato em um discurso no Riocentro com fina ironia: "Cá para nós: um político de antigamente, o senador Pinheiro Machado disse que a política é a arte de engolir sapos. Não seria fascinante fazer esta elite engolir o Lula, esse sapo barbudo? Vamos no menos pior, pelo menos..." Lula, por sua vez, chamou Fernando Henrique Cardoso de "príncipe" muitas vezes, sempre com sentido pejorativo. O título do livro, além de se referir aos protagonistas, é baseado em uma fábula dos irmãos Grimm, "O Sapo Príncipe" ou "Henrique de Ferro", que fala de uma linda princesinha que perde sua bola de ouro em um lago e é socorrida por um sapo, que pede em troca passar um tempo com a jovem no castelo. Na hora de cumprir o acordo, ela se revolta e joga o sapo contra a parede. Miraculosamente ele se transforma em príncipe encantado e os dois são felizes para sempre. Mudança radical que também ocorre na política de tempos em tempos e na vida dos dois protagonistas do livro.
Um nasceu em família pobre de Caetés, o outro era filho de família carioca militar influente, com incursões na política. Com 15 anos, um usava terno e gravata nas férias, no quente verão carioca. O outro, mais novo, carregava ternos passados e engomados por uma tinturaria, mas pedia paletó emprestado quando ia no cinema. Um queria ser militar ou cardeal e recebeu o primeiro salário como professor de História Econômica da Europa. O outro, pensou em ser motorista de caminhão-tanque e bombeiro, foi vendedor e office-boy antes de se tornar com muito orgulho um operário.
Na época em que os estudantes gritavam nas ruas "Abaixo à Ditadura!", enquanto um estava exilado no Chile com a perseguição política aos "subversivos elementos de esquerda", o outro só pensava em futebol: "Frei Chico (seu irmão, que o iniciaria na política sindical) já era politizado, já era militante do Sindicato de São Paulo, já falava de golpe militar. E a gente não, na fábrica, a gente ouvia o pessoal falar bem do Exército. Mas nesse tempo eu não queria saber de política. Meu negócio era ler o Diário da Noite porque tinha a coluna que falava de futebol e eu queria ler tudo que falava do Corinthians, era isso. Não tinha cabeça para outra coisa."
Um iniciou na política como suplente de senador, recebendo apoio do outro, que se destacava como líder sindicalista das grandes greves que agitaram o ABC no final dos anos 1970 e como criador do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Juntos, em 1984 apóiam as Diretas Já! e se reencontram 10 anos depois como candidatos à Presidência da República, sendo que Fernando Henrique ganha em 1994 e em 1998. Pouco antes da eleição de 2002, Lula teria uma conversa com o presidente Fernando Henrique Cardoso quando foi ao Palácio do Planalto para saber do acordo do governo com o FMI. "Quando o Lula chegou lá, estávamos só eu e ele e falei: Ô Lula, por que você foi se meter nesse negócio de ser candidato a presidente outra vez? Você pode ganhar essa eleição, Lula, e vai ter de sentar naquela cadeira e agüentar essa chatice aqui. Você não gosta disso, isso daqui é muito trabalhoso, é muito chato, cai fora enquanto é tempo....", aconselhou Fernando Henrique em tom de brincadeira. Lula pergunta então o que ele acha que ocorreria nessa eleição e FHC responde que estava "pintando que ele iria ganhar a eleição". "E aí, o que você faz?", pergunta Lula "Se você ganhar, eu ajudo", respondeu o presidente. E ele ganhou. Dois mil e dois foi o ano de "Lula-lá, brilha uma estrela".
Nessa fábula moderna escrita em estilo de reportagem, Markun não impõe uma moral à história, nem apresenta um final definitivo, que ao contrário, está em aberto. Apenas mostra um país que passou por profundas mudanças com o auxílio de dois personagens que aos olhos de sua população se alternam nos papéis de sapo e príncipe.
"O Sapo e o Príncipe- Personagens, fatos e fábulas do Brasil contemporâneo"
Paulo Markun
374 páginas
Editora Objetiva
Preço: R$48,90





