Livro lançado por Imprensa Oficial e Edusp revisa história da escravidão em SP e MG

Livro lançado por Imprensa Oficial e Edusp revisa história da escravidão em SP e MG

Atualizado em 29/06/2009 às 15:06, por Redação Portal IMPRENSA.

Esqueça a velha imagem do Brasil de dois séculos atrás, dividido em grandes porções de terra concentradas nas mãos de poucos proprietários, donos de um exército de escravos. Registros da época mostram que cerca de 80% das propriedades pertenciam a pequenos produtores e que oito em cada dez domicílios não utilizavam trabalho escravo. Desconstrua também o estereótipo do negro daquele tempo, completamente à margem da cultura cristã: metade dos que chegavam aos 40 anos eram casados sob a bênção da Igreja Católica.

Artigos com esses e outros dados, que contribuíram para revisar a história do Brasil, estão reunidos no livro "Escravismo em São Paulo e Minas Gerais", a ser lançado na próxima terça-feira, dia 30 de junho, às 19h, no Museu Afro Brasil, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp).

De autoria dos pesquisadores Francisco Vidal Luna, doutor em Economia pela USP, Iraci del Nero da Costa, livre-docente em Economia pela mesma instituição, e Herbert S. Klein, diretor do Center for Latin America Studies, da universidade americana de Stanford, a obra é resultado de mais de 30 anos de trabalho e retoma origem, relações sociais e econômicas e estrutura demográfica dos negros que viveram em regime escravo nas duas províncias.

As pesquisas dos três autores se concentram principalmente na história de São Paulo e Minas Gerais, por isso as duas unidades geográficas como foco do livro. Os artigos presentes na obra foram publicados a partir da década de 70 e tomam por base documentos da Igreja e do Estado, datados entre o início do século 18 e o final do século 19. Entre eles estão registros de batismos, casamentos e óbitos, testamentos e listas nominativas - uma espécie de censo populacional.

Esses registros trazem dados preciosos sobre a população daquela época. É o caso das listas normativas, que especificam não só o número de pessoas em cada domicílio, mas também as relações entre elas. "Conseguimos descobrir a complexidade da família e, em muitos casos, da família escrava", afirmou o pesquisador.

Os autores mostram na publicação, por exemplo, que em 85% das residências viviam somente famílias nucleares (pai, mãe e filhos), em contradição a relatos sobre moradias habitadas por muitos familiares. Esse era o retrato predominante apenas nos domicílios em grandes propriedades, habitados pela minoria da população, ou em casos de famílias pobres.

Muitas das informações compiladas pelos pesquisadores contradizem também o consenso da história sobre a economia da época. É o caso das relações de consumo. Sabia-se, por exemplo, que a produção se voltava exclusivamente para a exportação. "Mas há evidências de que os proprietários produziam bens de consumo para o mercado interno, inclusive para os escravos", explicou Iraci del Nero da Costa. Em Minas Gerais, outra descoberta interessante: escravos alforriados chegavam a comprar negros.

Segundo os pesquisadores, o livro é um dos diversos trabalhos de revisão historiográfica realizados nas últimas décadas no país, o que consideram um grande avanço e uma importante contribuição para o conhecimento da formação econômica e populacional do Brasil. "A visão da história foi construída, em grande parte, com base em relatos de viajantes europeus, com o ponto de vista deles. Mas, por via de regra, os europeus chegavam aqui e visitavam apenas os grandes proprietários, ou seja, relatavam a realidade de forma reduzida", ressaltou Costa.

Com 624 páginas, o livro custa R$ 60,00.