Livro de jornalista mostra que eventos esportivos promoverão pornoturismo no país

Por trás dos famosos pontos turísticos do Brasil, assim como nas regiões mais distantes ao longo das fronteiras, existe um mundo obscuro quealimenta o tráfico de pessoas para a prostituição, principalmente com crianças e adolescentes.

Atualizado em 17/10/2013 às 16:10, por Gabriela Ferigato.

Resultado de quatro grandes reportagens ao decorrer de vários anos, o repórter especial da Gazeta do Povo , Mauri König, lança o livro “O Brasil Oculto – Crimes das fronteiras obscuras aos paraísos à beira-mar”, editado pela ComPactos. Crédito:Divulgação Obra é resultado de quatro grandes reportagens ao decorrer de vários anos

Depois de uma imersão em 99 locais de prostituição e exploração sexual e após ouvir 219 fontes oficiais e extraoficiais (entre elas, policiais, conselheiros tutelares, as próprias vítimas e pessoas direta ou indiretamente envolvidas), o jornalista, um dos mais premiados do país, traça um panorama teórico ao analisar as possíveis causas desse cenário. Além disso, busca mostrar “como o corpo virou um objeto dentro do modelo capitalista” e, em um making off , conta como foi o trabalho até a publicação final da obra.

Durante o processo, König observou a ausência do Estado, principalmente nas regiões mais afastadas. Outro ponto preocupante é que essa situação deve se acentuar com a chegada dos próximos eventos esportivos — Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 no país. “As redes de prostituição já recrutam mulheres e adolescentes para uma demanda que crescerá com a vinda de meio milhão de turistas – os 'pornoturistas' entre eles”.

IMPRENSA: Quantas regiões vocês visitaram?

Mauri König: Viajamos por toda a extensa fronteira com nove países e o litoral que se espraia do Ceará ao Rio Grande do Sul. Nos três primeiros meses, junto com o fotógrafo Albari Rosa, percorremos 28 mil quilômetros pelas fronteiras que se estendem do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS). Também, junto com o fotógrafo Jonathan Campos, visitamos os maiores portos, entre eles Santos (SP), Paranaguá (PR), Itajaí (SC) e Rio Grande (RS). Além de cinco das doze cidades-sedes da Copa de 2014.

Na parte teórica e analítica do livro você contextualiza possíveis causas para esse cenário. Quais são elas?

Principalmente nas fronteiras, a causa principal é a pobreza e exclusão social. Crianças e adolescentes desprotegidos que não estão inseridos em programas do Estado e que pertencem a famílias desestruturadas são mais vulneráveis à rede de exploração, que se sente mais confortável para recrutar jovens com esse perfil.

Identificamos também, em lugares do Rio de Janeiro e do Nordeste do Brasil, que existem adolescentes de classe média que acabam se envolvendo na prostituição porque veem isso como uma forma de ascensão social e para melhorar seu padrão de consumo.

Existe um grupo que incentiva e contribui para a existência desse quadro?

No caso dos caminhoneiros é uma questão cultural. Eles não enxergam isso como crime, até acham que estão ajudando. Outro fator é a corrupção policial. As boates, por exemplo, acabam fazendo isso para ter segurança. Corrupção policial é um elemento fundamental para esse tipo de crime.

Para você, o Estado está ausente no combate a esse tipo de crime?

Quanto mais distante dos centros políticos e econômicos, mais o Estado está ausente. Um exemplo claro disso é Tabatinga, no Amazonas. [A região apresenta uma conurbação com a cidade colombiana de Letícia]. Ela e Letícia são separadas por uma avenida e as duas estão isoladas no meio da Floresta. De Manaus (AM) até Tabatinga, seja de avião ou navio, são quatro dias de viagem pelo rio Amazonas. A cidade não tem nenhum posto de gasolina, e tudo o que anda sobre rodas lá é movido por gasolina contrabandeada. É um dos exemplos, entre outros, que caracterizam a ausência do Estado. Onde ele não está presente, o crime organizado se instala.

Você e os fotógrafos sofreram muitas ameaças durante toda a trajetória?

Como tínhamos experiências anteriores com as matérias, criamos mecanismos de proteção. Definimos quais os limites e os riscos que aceitaríamos nos submeter. Não aconteceu nada muito grave. Em Santa Vitória do Palmar (RS) fomos expulsos aos empurrões de dentro de uma boate porque o fotógrafo estava fazendo imagens e depois disso ficaram nos seguindo pelas ruas da cidade.

Vocês se depararam com dilemas éticos durante o processo?

Sim, tiveram dois que foram motivo de reflexão. Em 2004, encontramos uma menina de 12 anos que estava sendo explorada por outra de 14 anos, que, por sua vez, estava sendo abusada pelos pais. A mais nova se encontrava em uma situação bastante degradante e ficamos muito sensibilizados. Isso aconteceu às três horas da manhã de uma quarta-feira. Naquela noite, não conseguimos dormir e na manhã seguinte procuramos a autoridade de infância e adolescência da região. Durante a noite eles foram junto com a polícia resgatar a menina e nós acompanhamos tudo isso. Depois refletimos que esse não era nosso papel. Estávamos lá como jornalistas que se dispuseram ir a campo para expor um crime e não para resgatar. E, através do nosso trabalho, íamos cobrar as autoridades.


Teve mais algum caso?

Outro caso aconteceu em Ponta Porã (MS). Estávamos no saguão de um hotel esperando para falar com um jornalista paraguaio, que não apareceu. Nesse ínterim, chegou uma menina que foi até a recepção e perguntou pelo nome de um hóspede. O funcionário avisou que ele já tinha ido embora e ela lamentou, pois ele tinha prometido um celular. Achamos isso suspeito. A menina foi para a porta e eu notei que era o momento de confirmar o que estávamos tentando mostrar: a conivência da rede hoteleira com a exploração sexual. Conversei com a menina e simulei um programa:combinei R$ 50. Perguntei para o recepcionista se teria algum problema subir com ela no quarto e ele falou que não, desde que eu pagasse a diária dela. Insisti se não tinha problema por ela ser menor de idade, ele disse que não, contanto que pagasse a diária. Subi, conversamos por cinco minutos, descemos, paguei os R$ 50 e ficou confirmada a conivência de funcionários.

Os conflitos éticos foram dois: se eu desse azar e houvesse uma blitz no hotel eu seria preso. Isso me levou a pensar sobre o risco. O outro foi porque paguei os R$ 50 — achei justo porque eu havia prometido. Se não fosse pelo dinheiro, ela não teria subido e eu não teria confirmado. Foi algo espontâneo. O que gerou a reflexão é que eu não pago para ter informação, inclusive já perdi algumas quando informantes queriam receber por elas.

Dentre as cinco das doze cidades-sede da Copa do Mundo que vocês visitaram, onde a situação é mais preocupante?

Acho que em Fortaleza (CE). As cinco cidades têm um histórico largo de turismo sexual, mas em Fortaleza pareceu mais grave. Lá encontramos um fenômeno, que eu sabia da existência, mas não tinha me deparado ainda, que são os michês meninos adolescentes que fazem programa com turistas. Entrevistamos dois, um que começou aos 13 anos e outro aos 14. Ambos começaram com turistas estrangeiros.

Acho que isso irá piorar ainda mais na Copa e nas Olimpíadas. Serão 500/600 mil turistas estrangeiros, fora os três milhões internos. Entre eles há os 'pornoturistas', que se sentem mais confortáveis ao fazer sexo com menores de idade em outros países que não os de origem. Os eventos devem fomentar a exploração sexual e as redes vão se preparar para atender essa demanda.

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