Livro de Belisa Ribeiro conta a história do "JB" através de relatos dos 'jotabenianos'

Aos 125 anos, o Jornal do Brasil é lembrado pela academia e pela própria imprensa como um dos mais importantes veículos de comunicação da história do país.

Atualizado em 23/02/2016 às 16:02, por Vanessa Gonçalves.

lembrado pela academia e pela própria imprensa como um dos mais importantes veículos de comunicação da história do país. Porém, as dificuldades econômicas levaram o diário ao declínio.

Crédito:Divulgação Belisa Ribeiro no lançamento do livro
No próximo dia 8 de março, a marca do jornal vai a leilão no Rio de Janeiro para quitar dívidas trabalhistas. Em contrapartida a este destino frágil, chegou às livrarias o livro “Jornal do Brasil – Memória e história”, de Belisa Ribeiro. São 400 páginas de histórias e da história de um dos veículos mais prestigiados do país.

Antiga repórter do JB , a escritora conta a trajetória do veículo pela voz de importantes profissionais da imprensa que fizeram história na redação deste jornal.

À IMPRENSA, Belisa conta como foi passar um ano colhendo relatos de antigos colegas para o livro e o documentário sobre o veículo e o prazer de reviver histórias incríveis sobre jornalismo.

IMPRENSA - Com surgiu a ideia de falar sobre a história do Jornal do Brasil? BELISA RIBEIRO - Surgiu durante um almoço anual do pessoal do JB , também conhecidos como 'jotabenianos', no restaurante Fiorentina, no Leme. Nesse encontro as pessoas estavam contando as histórias com o jornal com tanto amor e carinho, que percebi que elas não podiam se perder. As pessoas mostram o amor com que faziam o jornal. A ideia não foi só contar a história do jornal, mas das pessoas que escreviam ele. Decidi levar essa ideia ao Elio Gaspari, que não é otimista. Ele não só apoiou, como me lembrou do meu livro sobre a bomba no Riocentro. Ele disse para eu me inspirar naquele modelo, com histórias não lineares. Ela acabou me dando o mote do livro.
Como é a estrutura da obra?
Não é um livro linear, mas de temas. Escolhi dez temas/situações que mostram a história do JB até o fim da edição impressa, mostrando como ele saiu do apogeu para o declínio no online. Tanto que o primeiro capítulo fala dos dois quadradinhos que deram um drible nos censores no dia do AI-5 — o quadradinho do clima, onde colocaram a brincadeira: "Tempo negro. Temperatura sufocante...". E no outro que falava: “Ontem foi o Dia dos Cegos”. Isso mostrava a crítica do jornal à censura. Aquilo foi passado para o leitor de uma forma clara.

Em outro capítulo conto a história do repórter que era foca e fez a cobertura da morte do Getúlio em Porto Alegre. Também parece que no livro falei com Nascimento Brito, o que não poderia ter acontecido já que ele morreu, mas peguei um depoimento no Museu da Imagem e do som e isso ficou muito legal. Outro ponto importante é o capítulo sobre o "Caderno B", que surgiu no jornal e fez com que o resto dos veículos no Brasil se espelhassem nele e criassem seus cadernos de cultura.
Crédito:Reprodução Livro conta a trajetória do jornal através de histórias de ex-funcionários
Quanto tempo se dedicou para produzir o livro? Você ouviu muita gente, né? Foi uma maneira muito trabalhosa de produzir. Falei de grandes reportagens e fui procurar por todas elas na hemeroteca. Tive ajuda da minha assistente para procurar as páginas e muitas vezes fiquei semanas para achar determinada matéria. Durante um ano, foram mais de 35 entrevistas, sendo que vinte delas eu filmei para o documentário sobre o Jornal do Brasil , que será lançado em março, na Estação Botafogo. O lançamento do documentário acontecerá próximo à data do leilão do nome do jornal motivado por causas trabalhistas.

Você fez parte do Jornal do Brasil . É como se contasse sua história também? Comecei minha carreira no JB , quando nem pensava em ser jornalista. Eu pensava em ser psiquiatra e fui fazer técnico de secretariado. Uma amiga achou que eu poderia ser modelo e me apresentou o fotógrafo Evandro Teixeira. Passei no teste e comecei a ir muito à redação. Na época, não existia a fotografia digital, fazia-se o contato, que eram diversas fotinhos numa tripinha para os editores escolherem qual iria entrar. Eles marcavam com lápis vermelho as que iriam para as páginas. Curiosa, comecei a ir à redação, bater papo, falar com os jornalistas. Um dia, estava em um almoço e chamaram uma repórter para cobrir um deslizamento e pedi para ir junto. Achei uma aventura e decidi queria ser repórter. Fui pra faculdade e com 21 anos entrei como estagiária no JB . Foi primeiro. Mas, naquela época, eu não queria ser apenas jornalista, queria era ser repórter do Jornal do Brasil.

Fiquei como repórter lá por pouco tempo e depois me transferi para O Globo . Foi algo muito especial. Primeiro porque eu admirava o jornal, os repórteres especiais, tanto que me casei com um deles. Mas eles me ensinaram a ver a política e o mundo com outros olhos. Só fui entender o mundo ao fazer jornalismo. Cheguei a voltar quando ele foi comprado pelo Tanure, levada pelo Ricardo Boechat, pois existia uma esperança de que o JB seria resgatado, mas no final foi definhando e deu no que deu.
Na sua opinião, qual o papel do JB na imprensa brasileira? Acho que papel dele na imprensa foi o de enfrentar a censura com muita ousadia e coragem. Além disso, teve papel importante em fazer a reforma de formato, de lançar o "Caderno B" e de mostrar a importância do jornalismo investigativo, como um fiscal da sociedade.
Esse livro é apenas para jornalistas ou para leitores em geral? Acho que o público em geral vai gostar, pois tem histórias muito boas. Como a ousadia da Norma Cury que foi à casa do Carlos Drummond de Andrade para fazer uma entrevista com ele se passando por estudante, pois ele odiava dar entrevista. Ou da vez em que a Malu Fernandes denunciou a máfia dos ferros velhos. Aliás, tem uma tão incrível: começou com a cobertura de uma reunião de neonazistas feita pela Emília Silveira. A matéria ganhou o Esso, pois essa cobertura rendeu a prisão de uns nazistas mais procurados. E como o governo brasileiro se negou a extraditá-lo, o cara se suicidou e, em contrapartida, gerou a mudança sobre as leis sobre crimes de guerra na Alemanha.
Como vê a derrocada de um veículo tão forte e que agora terá até a própria marca leiloada? Não sou boa analista de administração, os antigos chefes acham que foi uma parte da má administração da família Brito. Quando Tanure comprou o jornal, já estava numa situação muito ruim e, por ele não ser do ramo, em vez de salvar, afundou ainda mais.