Lipovetsky e Giannetti constatam que o consumo causa a ilusão de que a vida é mais leve

O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o brasileiro Eduardo Giannetti, que é economista liberal e cientista social, participaram no último dia 5 do Fronteiras do Pensamento, projeto que propõe uma análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro.

Atualizado em 18/06/2017 às 22:06, por Redação Portal IMPRENSA.

Os convidados discutiram sobre a impressão de “leveza” da vida atualmente. Crédito:Divulgação Lipovetsky e Giannetti

No início da conferência, Lipovetsky questionou se, de fato, “vivemos numa época de leveza?” e lembrou o escape constante das civilizações ao imaginário de Ícaro, que, tomado pelo desejo de voar próximo ao Sol, acabou despencando e caindo no mar Egeu. “Nós, nessa sociedade da leveza, temos o mesmo destino de Ícaro e acabaremos no sofrimento? Espero que não seja esse o nosso destino. No entanto, prevalece a vontade universal de alívio, de atenuar a existência”, completou o pensador, especialista em estudos de fenômenos cotidianos


O pensador francês comentou que, de 20 a 30 anos para cá, a sociedade de hiperconsumo. “Por toda parte somos invadidos pela publicidade, a comunicação, que pregam uma vida leve regida pelos prazeres, pela felicidade. Um hino cotidiano à distração, estampado na mídia e na vida cotidiana”, afirmou.


Lipovetsky cita o smatphone como ícone: “Com 150 gramas no bolso, você faz tudo”. De acordo com o filósofo, essa ferramenta faz com que o ato de consumir se torne mais leve, pela sua disponibilidade a qualquer hora, fazendo com o espaço seja “curto circuitado”.


Porém, estabelece-se um paradoxo, porque, à medida que este novo mundo se encontra reestruturado pela leveza, ele parece mais pesado, já que “a ansiedade e o stress se tornaram moeda corrente”, considerando especialmente que a sociedade não cessa de difundir informações. “Hoje o consumo se tornou um novo trabalho, que exige dedicação e gera ansiedade. As pessoas têm cada vez mais problemas para consumir, porque passam muito tempo pesquisando para consumir”, esclarece o filósofo.


Lipovetsky lembra que os homens não se definem pelo consumo. “O consumo não é um ideal de vida, é o meio. É preciso dar aos homens e às crianças (bem cedo) outros objetivos na vida, além do consumo. E isso passa pela formação, pela escola, e o gosto pela criação artística”, reforça.

Crédito:Divulgação

Aspiração de leveza x Vida pesada


O economista e filósofo acredita que a aspiração de leveza é uma realidade, que esconde outra, porque, de acordo com ele, a vida é pesada nesse início do século XXI. “O movimento de ascensão não pode continuar indefinidamente. O problema da tecnologia moderna é o domínio do homem sobre o mundo natural, provocando sua degradação, e essa ameaça de descontrole da natureza escapa ao nosso controle”.


Giannetti lembra que as pessoas prestam atenção na sua posição e nos seus bens e que o marketing e a propaganda apresentam como você consegue conquistar um lugar na mente dos seus semelhantes, gerando uma corrida armamentista de consumo. E esse “lugar de honra na mente dos semelhantes” é conquistado por meio de bens posicionais, que excluem o acesso aos demais.


O economista esclarece que as pessoas estão divididas internamente, pois gostariam que suas vidas fossem pautadas por outros valores, que não sejam o materialismo e o apego ao dinheiro. “Só que nós nos enredamos nos valores econômicos. Que tipo de fuga é essa para o consumo?”, questiona.


Giannetti reforça a necessidade de voltarmos nossa existência para a criação, sem sermos atormentados pela insegurança econômica. “O problema é quando o consumo se torna o fim. Com o avanço dos meios de comunicação e a democratização da informação, o grupo de referência passou a ser a indústria cultural dos americanos”. E provoca a reflexão: “será que nós precisamos pautar nossa ideia do que é bom por uma sociedade que exarcerbou a cobiça? O que é o Brasil dar certo?”.


Sobre o projeto

Crédito:Divulgação

O Fronteiras do Pensamento propõe uma profunda análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro. Comprometido com a liberdade de expressão, a diversidade de ideias e a educação de alta qualidade, o projeto promove conferências internacionais e desenvolve conteúdos múltiplos com pensadores, artistas, cientistas e líderes em seus campos de atuação. Saiba mais no .


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