Língua Portuguesa: Heliana Frazão e Carolina Brígido, de O Globo, não erraram
Língua Portuguesa: Heliana Frazão e Carolina Brígido, de O Globo, não erraram
A palavra cassável existe. Já está dicionarinazada.
E sempre aparece na grande imprensa
O professor Silveira Bueno, catedrático de Filologia Portuguesa da USP, autor de um monumental dicionário etimológico - prosódico do nosso idioma, sempre me dizia que o melhor método de aprender o português é o de corrigir as frases erradas da língua de Machado de Assis. Ele explicava:
- Se mostrar num texto os erros de português de qualquer autor, de maneira irrefutável, você ensinará as regras gramaticais com muito mais eficiência, pois as críticas dessa natureza se gravam mais facilmente na memória de quem as lê.
Tenho adotado até hoje o seu método. Certa vez esse mestre me aconselhou:
- Fernando, não queira agradar a ninguém. Seja absolutamente sincero. Aponte o erro, mas evite a crítica de natureza pessoal.
Eu adorava a franqueza do professor Silveira Bueno, de quem fui aluno e amigo íntimo. Certa vez ele concedeu uma entrevista ao Caderno 2, de O Estado de S. Paulo . E assim comentou os numerosos erros gramaticais de um ilustre e conhecidíssimo membro da Academia Brasileira de Letras:
"Este senhor precisa voltar à escola".
Silveira Bueno gostava de citar uma frase do padre Antônio Vieira, extraída do famoso Sermão de Santa Catarina , pregado aos catedráticos da Universidade de Coimbra:
"Costume é dos néscios serem incorrigíveis, porque só o néscio é que não admite que o corrijam".
* * *
A equipe de redatores de O Globo é excelente, uma das melhores do nosso país. Sou um leitor assíduo desse matutino, que para mim é o mais bem feito do Brasil, por ser eclético, moderno, bonito sob todos os aspectos.
Pelo fato de seguir o conselho do meu mestre Silveira Bueno, e ainda devido a minha repulsa pelas críticas injustas, aplicadas por Luiz Garcia, ombudsman de O Globo , a duas de suas colegas, eu passo agora a defendê-las, a provar como elas não erraram. Mas enfatizo, a nossa crítica não tem nenhum caráter pessoal. Só o amor à verdade me impele. O mesmo amor que levou São Bernardo (1091-1153), um dos maiores vultos do Cristianismo, fundador da Abadia de Clairvaux, a afirmar o seguinte na obra Saper Matthaeum :
"Não é só traidor da verdade quem diz o falso em vez do verdadeiro, mas também quem não diz independentemente a verdade que deve ser proclamada, ou não defende independentemente a verdade que necessita de defesa".
("Non solum proditor est veritatis, qui mendacium pro veritate loquitur, sed qui non libere pronuntiat veritatem, quam pronuntiare oportet: aut libere defendit veritatem, quam defendere oportet")
Apoiando-me, portanto, no mestre Silveira Bueno, em São Bernardo e no meu amor à verdade, declaro que o ombudsman Luiz Garcia errou de modo feio ao criticar a sua colega Heliana Frazão, da sucursal de Salvador, por ela ter empregado a palavra cassável na reportagem "Wagner lança obra com cassável", publicada na edição do dia 11 de janeiro de 2006 de O Globo . Garante o Luiz Garcia:
"Esta palavra não existe" ( O Globo , 12-01-2006, página 2).
Você se precipitou, Luiz, a palavra cassável existe, e já está dicionarizada. Leia este verbete da página 294 do ótimo Dicionário de usos do português do Brasil , cujo autor é o professor Francisco S. Borba, obra lançada pela Editora Ática em 2002:
" cassável adj [Qualificador de nome humano ou abstrato] 1. passível de ser demitido de suas funções; que pode ser cassado: Moreira está na lista dos deputados cassáveis de Brasília (VEJ). Na pessoa passível de ser demitida de suas funções: presidentes da Câmara e do Senado enviam os nomes dos cassáveis às suas respectivas comissões (VEJ); Cassável já teve defesa suficiente, diz Aristides (FSP)".
Luiz Garcia, você jamais devia ter garantido que a palavra cassável não existe. Se não existe, o dicionário do professor Borba não colocaria, no verbete, as três frases em itálico, nas quais ela aparece: são duas da revista Veja e uma da Folha de S.Paulo .
Além disso, Luiz, a repórter Carolina Brígido, da sucursal de Brasília, não errou quando escreveu estas palavras:
"Pertence defendeu-se..."
Tais palavras se acham na matéria "Lula escolherá mais três ministros para o STF até abril", publicada na edição do dia 2 de janeiro de 2006 de O Globo . Você acha que o certo é assim:
"Pertence se defendeu..."
Luiz, eu repito, a Carolina Brígido não errou. Você é que errou. O pronome se pode vir depois do nome próprio. Não me venha com essa história de que ele, o nome próprio, é obrigado a atrair o se . Não, não é. Quer uma prova? Abra o romance O crime do padre Amaro , de Eça de Queiroz, e leia esta frase do capítulo XIV:
"O Carlos sentara-se descontente".
Mais um exemplo? Pegue o livro Eurico, o presbítero , de Alexandre Herculano, outro grande escritor português, e leia isto no capítulo X:
"Juliano tinha se aproximado..."
Antes de criticar as suas colegas de O Globo , senhor Luiz Garcia, não se afobe, tome mais cuidado, e memorize este provérbio:
"Quem quer chegar muito depressa, arrisca-se a ficar manco".






