Língua Portuguesa: Eu elogio o Otávio e critico o "Painel do Leitor"
Língua Portuguesa: Eu elogio o Otávio e critico o "Painel do Leitor"
O "Painel do Leitor" está com medo de divulgar a verdade?
Sou um leitor assíduo da Folha de S. Paulo . Eu a considero, juntamente com O Globo , um jornal bonito, muito bem feito. Agora, com a reforma gráfica, ela ficou ainda mais moderna, atraente. Se a Folha fosse mulher, eu até diria que exibe sex appeal , expressão inglesa, designativa do encanto do poder sexual feminino...O responsável pela sua modernização gráfica foi Otávio Frias Filho. Fundada em 1921 por Olívio Costa (1876-1932), a história da Folha pode ser dividida em duas partes: antes do Otávio e depois do Otávio, pois ele mudou de forma revolucionária o seu aspecto, a sua diagramação, a apresentação das seções, dos artigos, dos editoriais, das reportagens. E teve a coragem de renovar o corpo de colaboradores, extraindo do seu corpo o ranço do anacronismo, da velharia.
Admiro o espírito democrático de Otávio Frias Filho. Eu o critiquei por causa de um artigo de sua autoria sobre a Academia Brasileira de Letras, intitulado "Imortais", e enviei-lhe uma cópia do meu texto. Otávio permitiu que o texto fosse publicado na edição de 8 de abril de 2000 da Folha . E na edição de 22 de abril de 2005 desse jornal, apareceu outra crítica de minha lavra ao Otávio. Reproduzo o início da catilinária, publicada na seção "Painel do Leitor":
"Creio que Otávio Frias Filho, diretor editorial da Folha , deveria ser mais enérgico, pois o caderno Mais! está se tornando muito pesado, tedioso, americanófilo. Quem o lê, logo boceja".
Após afirmar isto, prossegui:
"Na sua edição de 1/4, por exemplo, quase tudo é dos Estados Unidos. Na página 2, notícia sobre um DVD duplo lançado no país do Bush. Na página 3, texto sobre um livro do Donald Davidson, publicado nos EUA. Nas páginas 4,5 e 6, uma entrevista palavrosa e chatíssima concedida pela escritora americana Camile Paglia (cuja foto, aliás, ocupa toda a primeira página do Mais! ) Ainda na página 6, um poema anêmico, em inglês, do americano Fredric Jameson. Na página 9, em outro artigo, uma citação do New York Times Magazine . E, além disso, por que dar tanto espaço a uma escritora americana? Espaço que a Folha nunca deu a uma escritora brasileira".
Em resumo, a Folha de S.Paulo sempre publicou todas as minhas críticas, sem as capar, sem as desvirilizar, sem as transformar em eunucos do harém do sultão Harum Al Rachid. Há poucas semanas, entretanto, numa única edição desse jornal, dois petulantes erros gramaticais me impressionaram. Cumprindo o meu dever de zeloso inspetor escolar da Língua Portuguesa, sedutora matrona amada por mim (amor não correspondido, segundo o boquirroto Diogo Mainardi), eu enviei esta crítica à seção "Painel do Leitor":
"Mas o que está acontecendo com a bela Folha de S.Paulo ? Ela quer ficar feia? Agora não sabe mais empregar os verbos pronominais da língua portuguesa? Logo na primeira página da edição de 7/5 encontrei esta frase: '...a Prefeitura de São Paulo começou a digitalização de 8.000 imagens que corriam risco de estragar'. Eu pergunto: estragar o quê? Como estragar é um verbo pronominal, o correto é 'risco de se estragar'. As imagens é que estavam se estragando, elas não estavam produzindo danos em outras coisas...Na página A 10 da mesma edição, li esta manchete: "Sete em dez eleitores não lembram voto". Corrigindo: "não se lembram do voto". Outra pergunta: a Folha está com vergonha de usar, de modo correto, os nossos verbos pronominais?".
Chegou às minhas mãos, em seguida, uma carta de Luiz Antônio Del Tedesco, da seção "Painel do Leitor", agradecendo o envio da crítica e com esta explicação:
"Pedimos desculpas por não tê-la publicado. É que recebemos no período um volume expressivo de correspondências. Esperamos contar com a sua colaboração em outra oportunidade".
Tranqüilo, porém não abúlico, mandei esta resposta acachapante ao senhor Tedesco:
"Recebi a sua carta formal. A desculpa clorótica, fraquinha, de muletas, não me convenceu, pois apontei dois graves erros de português numa só edição da Folha e o seu jornal tem a obrigação moral de os reconhecer, publicando a minha crítica. Em vez disso, de maneira insensata, o colega decidiu optar pelo silêncio, pela omissão. Os leitores da Folha , portanto, foram obrigados a engolir os erros berrantes. Que eles se danem, não é senhor Luiz? E daí também se conclui que este jornal, por culpa da seção 'Painel do Leitor', está fazendo o erro de português passar a ser uma coisa correta.
Não tente justificar-se, senhor Tedesco. O senhor deixou a Folha em má situação, pois a fez endossar dois catinguentos erros de português. Garanto, é inaceitável apresentar tais erros como coisas certas num jornal e depois, no mesmo jornal, não os corrigir. Isto corresponde a ensinar o leitor a escrever de maneira errada. Cícero afirmou nas Fílipicas :
'É próprio do homem errar, mas só do insensato perseverar no erro'
( 'Cuiuscis hominis est errare, nullius nisi insipientis perseverare in errore' ).
Otávio Frias Filho é um grande democrata e não gosta que as críticas justas, procedentes, não sejam publicadas no seu jornal, mormente aquelas que, suprimidas, possam prejudicar a imagem da Folha .
E por último quatro perguntas. O 'Painel do Leitor' agora é fascista? Está com medo de divulgar a verdade? Quer alienar os leitores da Folha ? Quer que esses leitores se tornem ignorantes?"






