Língua Portuguesa: Estou sofrendo de blindarite, de alergia crônica pelo verbo "blindar"
Língua Portuguesa: Estou sofrendo de blindarite, de alergia crônica pelo verbo "blindar"
R ecebi deze nas de cartas e e-mails de estudantes e professores de Jornalismo, devido ao meu comentário "O verbo 'blindar' tornou-se uma praga em nossos jornais e nossas revistas", publicado no número 205 de IMPRENSA. Agradeço o apoio desses leitores. E satisfeito vejo o jornalista Eduardo Martins, autor do excelente Manual de redação e estilo , de O Estado de S. Paulo , compartilhar da minha opinião, pois dele são estas palavras do texto "Blindar, blindado, blindagem? Menos, menos...", do número de outubro da revista Livraria Cultura News :
"...a crise política atual do país colocou uma lupa nesse conceito (o de palavra-ônibus) e favoreceu o aparecimento da família-ônibus , formada por blindar e seus derivados, entre os quais blindagem e blindado . Nada contra o uso fi gurado do verbo e de seus rebentos, já registrados nos livros de referência. O problema é que tudo agora se blinda ."
Logo em seguida, com muita lucidez, Eduardo Martins salientou:
"Primeiro, procurou-se dar a condição de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, blindando-o contra as ameaças de convocação para depoimentos feitas pela oposição. Daí em diante foi um festival: o governo blindou o ministro Antonio Palocci para tranqüilizar o mercado, a economia busca blindagem contra as turbulências, o país está blindado , contra a especulação e até o técnico Leão, segundo um jornal, 'vai blindar a molecada', isto é, vigiar os jovens jogadores para que não se percam nas baladas da vida."
A Folha de S.Paulo publicou na íntegra, em sua edição do dia 3 de setembro do presente ano, um texto onde eu critico o jornal de Otávio Frias Filho, por causa do uso excessivo do verbo blindar e dos seus derivados. Reproduzo um trecho da minha crítica:
"...li esta manchete na Primeira Página : 'Planalto se arma para blindar Palocci'. Em outra página, li este título: 'Governo quer blindar Palocci para tranqüilizar o mercado'. A reportagem é de Kennedy Alencar, da sucursal de Brasília. E, na página A 18, mais este título: 'Relator blindou PT e governo em 7 casos'. Reportagem de Rubens Valente e Marta Solomon, ambos também da sucursal de Brasília. Portanto, numa só edição da Folha , três manchetes com o verbo que se tornou um cacoete de vários repórteres pouco inventivos: o verbo 'blindar'. Chega, é ridículo, cansativo e irritante."
Ao publicar minha crítica na edição do dia 3 de setembro, e ao dizer que sou colunista da seção "Língua Portuguesa" da revista IMPRENSA, a Folha de S.Paulo provou que é democrática. Mas em pouco tempo fi quei decepcionado, pois na edição do dia 4 do referido mês, um dia após a publicação da minha crítica, o mesmo jornal exibiu esta manchete na página A2:
"Blindagem por Delúbio"
Transcorridos quatorze dias, na edição de 18 de setembro, um domingo, o leitor da Folha viu esta outra manchete na página B1:
"Estrangeiro garante blindagem da economia."
A matéria de Sheila D'Amorim, da sucursal de Brasília, começa com as seguintes palavras: "Por trás da blindagem da economia brasileira à crise política, há, pelo menos, US$ 5 bilhões de recursos externos..."
Ainda nesse mês de setembro, na edição do dia 25, a Folha de S.Paulo apresentou esta manchete num texto de Elio Gaspari:
"Querem blindar a pizzaria"
E a Folha , apesar de ter publicado, sem contestá- la, a minha crítica ao seu uso exagerado do verbo blindar , a Folha continuou com o mesmo hábito, ou melhor, com a mesma enjoativa mania. Olhem esta sua manchete de uma notícia do colunista Daniel Castro, na página E12 da edição de 13 de outubro de 2005:
"Globo se mobiliza para blindar 'Fantástico'".
E vejam também esta manchete de um texto de Ernane Guimarães Neto, da redação da Folha , na edição do dia 16 de outubro, três dias depois da notícia de Daniel Castro:
"Colombiano cria alta-costura blindada"
Juro, não agüento mais! Eu e milhares de leitores estamos sofrendo de blindarite , de alergia crônica pelo verbo blindar . Por favor, Folha de S.Paulo , imploro, pare de usar a torto e a direito esse verbo antipático, oriundo do alemão blende , através do francês blinder , (o sentido primitivo foi cegar ). Quem nos ensina isto é o professor Francisco Silveira Bueno, na página 524 do segundo volume do seu Grande dicionário etimológicoprosódico da língua portuguesa (Editora Brasília, Santos, São Paulo, 1974). Mestre Bueno era catedrático de fi lologia portuguesa da USP.
Embora a Folha de S.Paulo continue a meter em suas páginas bem impressas o enfadonho verbo blindar , eu de certa maneira me sinto consolado, porque os jornalistas Joaquim Ferreira dos Santos, de O Globo , e Eduardo Martins, de O Estado de S. Paulo , também o repudiam, como provaram, o primeiro, no artigo "Você está blindado?", e o segundo, na crônica "Blindar, blindado, blindagem? Menos, menos..."
Proponho isto, outra vez, aos nossos jornais e às nossas revistas: que tal aposentarmos e pernóstico verbo blindar e o substituirmos pelo bom, plebeu e corriqueiro verbo proteger ? Afastemos também, sumariamente, os dois derivados deste verbo, blindado e blindagem . Eles podem ser substituídos, sem nenhum empecilho, por duas palavras bem simples, protegido e proteção .
"Que tal aposentarmos o pernóstico verbo blindar e o substituirmos pelo bom, plebeu e corriqueiro verbo proteger?"






