Língua Portuguesa: Devagar com o andor que o clichê é de barro
Língua Portuguesa: Devagar com o andor que o clichê é de barro
Preguiça mental, falta de cultura ou solução estilística? O clichê nasce como uma idéia criativa mas, quando usado à exaustão, se transforma em um cacoete que tira o brilho do texto. Apesar das divergências, especialistas em língua portuguesa são unânimes em pelo menos um ponto: se for utilizar o chavão, use com moderação.
A matéria está apurada, as aspas estão no bloquinho, todos os dados já foram checados. Basta sentar e escrever. Falta pouco tempo para o fechamento e nada. O lead da matéria simplesmente não sai. Linha fina, então, nem pensar. São em momentos como esse que bate aquela tentação irresistível de apelar para um clichê. "O futebol é uma caixinha de surpresas", "esse papel foi um presente do autor para mim"; "São Paulo afunda no caos provocado pelas chuvas"; "uma mulher fria e calculista".
Não há como fugir do clichê. Ele está em todo lugar, nos jornais, TV, rádio, outdoors, Internet. São frases ou expressões repetidas, requentadas e reaproveitadas à exaustão.
Ao procurar a definição da palavra nas páginas do Dicionário Houaiss, constata-se que ela possui várias acepções. O clichê é, na verdade, uma matriz para a prensa tipográfica e, por isso, ainda hoje se usa, nas redações, os jargões primeiro e segundo o clichê para se referir à primeira e à segunda edições de um determinado periódico. A outra definição é relativa à estilística, ou seja, aquelas frases rebuscadas e banalizadas pelo uso freqüente.
Muita gente considera que, em termos de estilo, o clichê é desprezível. Acontece que nem sempre é possível evitá-lo. Seguem alguns exemplos reais:
"Karina Bacchi está de volta à TV. Mas, desta vez, não será na pele de uma ninfomaníaca (...). De casa nova, a atriz também quer dar novo rumo à carreira ." (Agora São Paulo, edição de 10 de julho de 2006, pág. C-3)
Ou ainda:
"A Terra é azul! Em uma Copa em que faltou técnica e futebol, teria de vencer mesmo quem tem mais coração." (Jornal da Tarde, idem, pág. 7B)
O primeiro exemplo encadeia quatro clichês do mundo das celebridades. Preferem "estar de casa nova", em vez de "estar de emprego novo". A palavra ninfomaníaca, por sua vez, virou um chavão para se referir a toda mulher bem resolvida sexualmente.
Já o segundo trecho representa um campo pródigo em chavões, que é a cobertura esportiva. "Vence quem tem mais coração". Dez entre dez mesas redondas já utilizaram pelo menos uma vez essa expressão. Na Copa do Mundo, por exemplo, a "falta de coração" (que, além de ser um clichê, é uma frase completamente desprovida de sentido) e de "amor à camisa" foram duas das expressões mais empregadas para explicar o fiasco da Seleção "Canarinho" em 2006.
Os clichês partem da falta de informação e da estereotipia. "Falta cultura e personalidade aos jornalistas. Como grande parte deles passa o dia inteiro na redação e só se informa sobre a vida por meio de jornais e revistas, reproduzem visões equivocadas da realidade por meio de clichês", afirma o escritor Fernando Jorge. Ele acredita que o clichê é usado por comodismo associado à extenuante carga laboral a que os jornalistas são submetidos. "Há um esgotamento mental. Não é culpa do jornalista, que muitas vezes não tem tempo de ler, ir ao teatro, ao cinema, enfim, enriquecer sua cultura. O mercado passou a disseminar a idéia de que, para ser jornalista, basta diploma."
Cláudio Júlio Tognolli é professor da USP e sempre se incomodou com o uso dos clichês, tanto que escreveu uma tese de mestrado sobre o assunto, que originou o livro A Sociedade dos Chavões - Presença e função do lugar-comum na comunicação . Ele comenta: "O chavão surge, em um primeiro momento, como uma coisa criativa. Por que vira chavão? Justamente por ser algo criativo. Minha preocupação com o chavão não veio, contudo, apenas pelo aspecto estético da coisa, mas pela questão comportamental. Você tem chavões que fazem com que as pessoas adquiram reflexos involuntários de comportamento. Eles estão na origem de uma série de repetições que acabam só servindo ao mercado, à distribuição de culpa, à não-criatividade ou à manutenção de modelos e padrões."
Polêmico, Tognolli chega a afirmar que, hoje em dia, o jornalista que sabe construir uma reportagem a partir do clichê, chega a ser "desejável". "Geralmente, o bom repórter de televisão bola um quadro mental seguinte: o cara pensa em 'água rolando'. Aí ele manda o cinegrafista fazer uma tomada do jogador derramando água no rosto durante o treino. Então sai a frase: 'Ele promete que as águas vão rolar nesse jogo'... A narrativa parte do chavão. Chegamos ao ponto em que o bom repórter de televisão é o cara que sabe conectar um quadro pronto à imagem. A situação está tão ruim que, o cara que parte do chavão, para o editor, está ótimo."
A afirmação tem algum sentido, já que, ainda de acordo com o Houaiss, o clichê é definido como "[frase] de fácil emprego pelo emissor e fácil compreensão pelo receptor." Cleide Floresta, editora do caderno "Show!" do jornal Agora São Paulo discorda sobre a suposta "necessidade editorial do chavão". "A gente briga para que o uso [do clichê] não seja indiscriminado. Claro que o jornal popular tende a utilizar frases feitas para se aproximar de seu público-leitor. No entanto, é possível combinar linguagem simples e objetiva com criatividade." Para a editora, há alguns aspectos que proporcionam o uso mais freqüente dos clichês nas redações. "O modelo de lead americano facilita. Muitas vezes o jornalista quis apenas fazer uma graça. Isso, às vezes, enriquece o texto. Outras vezes a pessoa usa sem nem perceber, já que o chavão é um tipo de 'fórmula confortável'. Mas acredito que o grande problema é que os jornalistas chegam muito jovens às redações. À medida que eles amadurecem, a tendência ao clichê diminui."
Prof. Fernando Jorge: "Há um esgotamento mental. Não é culpa do jornalista, que muitas vezes não tem tempo de enriquecer sua cultura"
O professor e colunista da Folha de S.Paulo, Pasquale Cipro Neto, não endossa o clichê, mas destaca a impossibilidade de ser original o tempo todo
CACOETES DE LINGUAGEM
Fontes: Manual de Redação da Folha de S.Paulo; livro A Sociedade dos Chavões e entrevistados
- Abrir com chave de ouro
- A ferro e fogo
- A festa não tem hora para acabar
- Alto e bom som
- Antes de mais nada
- A olhos vistos
- Aparar as arestas
- Ataque fulminante
- Atirar/lançar farpas
- A todo vapor
- A toque de caixa
- Atuação impecável (irrepreensível, irretocável)
- Avançada tecnologia
- A voz rouca das ruas
- Bater de frente com alguém
- Borracha no passado
- Caixinha de surpresas
- Calorosa recepção
- Caloroso abraço
- Calorosos aplausos
- Caminho já trilhado
- Cardápio da reunião
- Carreira brilhante
- Carreira meteórica
- Catapultar
- Caos (quando se referir ao qualquer problema urbanístico de São Paulo)
- Causar espécie
- Chegar a um denominador comum
- Clima de festa
- Com direito a
- Com a boca na botija
- Confortável mansão
- Congestionamento monstro
- Conseqüências imprevisíveis
- Consternar-se profundamente
- Corações e mentes
- Coroar-se de êxito
- Correr por fora
- Crista da onda
- Debelar as chamas
- Desabafar (como sinônimo de dizer)
- Detonar um processo
- Digno de nota
- Disparar (como sinônimo de dizer)
- Dispensar apresentação
- Do Oiapoque ao Chuí
- Dose cavalar
- Duras (pesadas) críticas
- Elo perdido
- Em nível de
- Enquanto (quando significar na condição de)
- Erro gritante
- Escoriações generalizadas
- Estourar os miolos
- Estrondoso (fulgurante, retumbante) sucesso
- Extrapolar
- Faca de dois gumes
- Familiares inconsoláveis
- Fazer cortina de fumaça
- Fazer por merecer
- Fazer uma colocação
- Fonte inesgotável
- Fortuna incalculável
- Fustigar as feras
- Ganhar nuances
- Gerar polêmica
- Gol de placa
- Golpe de misericórdia
- Guerra de nervos
- Hora da verdade
- Importância vital
- Inflação galopante
- Inserido no contexto
- Inundar (quando não se referir a enchente)
- Jóia da coroa
- Líder carismático
- Literalmente tomado
- Luz no fim do túnel
- Mar de gente
- Mão de ferro
- Meias-verdades
- Meias-palavras
- Na vida real
- No fundo do poço
- Óbvio ululante
- Os quatro cantos do mundo
- Página virada
- Passaporte carimbado
- Pavoroso incêndio
- Perda irreparável
- Pergunta que não quer calar
- Pisar em brasas
- Ponto alto
- Por um fio
- Preencher uma lacuna
- Prejuízos incalculáveis
- Prova de fogo
- Quebrar o protocolo
- Ranger os dentes
- Renovar esperanças
- Requintes de crueldade
- Respirar aliviado
- Reta final
- Rota de colisão
- Ruído ensurdecedor
- Saco de pancadas
- Sacudir a poeira
- Sal da terra
- Ser o azarão
- Sonora (estrepitosa) vaia
- Suar a camisa
- Tábua de salvação
- Tirar uma resolução
- Tiro e queda
- Trair-se pela emoção
- Trazer na bagagem
- Trocar figurinhas
- Tudo são flores
- Usina de idéias
- Verdadeiro tesouro
- Via de regra
- Visivelmente emocionado (nervoso)
- Vítimas fatais
- Vitória esmagadora
Leia matéria completa na edição 215 de IMPRENSA






