"Liberdade editorial para mim é princípio; por isso, retornei", diz Maria Lydia Flandoli
Maria Lydia Flandoli pertence a um time de jornalistas que presenciou e relatou importantes fatos na história política brasileira, transmitida pela TV nas últimas três décadas.
De volta à TV Gazeta, após oito meses fora do ar, Lydia se diz satisfeita por entender que o respeito entre ela e o canal não morreram; por isso, aceitou o convite para voltar e conduzir o bloco de entrevistas diárias do "Jornal da Gazeta", além dos debates eleitorais de 2012. Sua reestreia foi na noite de quinta-feira (1).
Para Lydia, diferente de outras mulheres, aparentar os anos de vida não é um problema. "Eu acredito que para nós, jornalistas, quanto mais conhecimento e tempo de trabalho, melhor".
Apesar de não se preocupar com a idade, Lydia tem algo de que não abre mão: sua privacidade.
Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, ela falou sobre o retorno e descreveu sua maneira de enxergar o papel do jornalismo no atual contexto político do País. E alerta logo no começo da entrevista, que nenhuma linha sobre sua vida pessoal será discutida.
QUAL SUA EXPECTATIVA EM RELAÇÃO À NOVA FASE?
É a primeira vez que acontece isso comigo. É tudo muito novo, a decisão para o retorno, o convite... É algo muito interessante que me fez pensar muito no significado de tudo isso. Quando você fica muito tempo no trabalho ou em uma relação duradoura de qualquer tipo e acontece uma ruptura, o significado é relevante. E eu cheguei à conclusão, depois de pensar sobre o significado desse retorno, que ele representa o respeito entre mim e a emissora. Se eles me buscaram novamente e se eu aceitei é por que existem confiança e respeito que sempre existiram nesses 20 anos que fiquei aqui. E também tem um lado emocional, por que, da mesma forma que foi impactante quando a emissora me demitiu, gerou emoções... O retorno também traz uma sucessão de sentimentos.
DESDE MAIO, QUANDO VOCÊ FOI DEMITIDA, RECEBEU CONVITES DE OUTRAS EMISSORAS?
De imediato. No dia seguinte, surgiram propostas para eu ir para outros canais. Eu ainda estava impactada com a notícia, mas avaliei as propostas. Só que também foi um período de reflexão sobre a imagem que eu tinha. Eu acompanhei a repercussão da minha saída na internet e vi muitas manifestações favoráveis para que eu ficasse. Essa foi uma oportunidade que eu nunca tive de refletir e saber o que as pessoas acham do meu trabalho.
O QUE VOCÊ ESPERA DESSA NOVA ATUAÇÃO E DAS SUAS NOVAS FUNÇÕES?
No tempo em que fiquei na TV Gazeta tive uma posição de destaque e responsabilidade, que era ser a âncora do principal telejornal da casa. Mas a emissora decidiu mudar o formato do jornal. Um jornal que não tem mais a figura do âncora e sim a de apresentadores e, claro, um corpo de comentaristas. Agora, ficar encarregada das entrevistas neste novo formato é muito animador. Eu gosto muito dessa interlocução, com as personalidades nas diferentes áreas de atuação. Eu entendo que tenho uma oportunidade muito boa de oferecer, ao telespectador, um ponto de vista de quem tem poder de decisão. Além disso, tem também os debates eleitorais, que eu terei o papel de mediar.
VOCÊ ACREDITA QUE OS FORMATOS DOS DEBATES SÃO EFICIENTES PARA A EXPOSIÇÃO DE IDEIAS DOS CANDIDATOS?
Esse formato que temos engessa. E eu acho que o próprio telespectador já tem uma expectativa mais baixa em relação ao debate. Os próprios candidatos, as assessorias, já sabem que um debate é precedido de regras. E nós estamos ali para garantir que todos tenham o mesmo espaço, conforme a lei determina. Para essas regras, não existe maleabilidade. Já na entrevista, dá para tirar algo mais do candidato, por que o interlocutor é um jornalista e não seu adversário.
O QUE REPRESENTA O JORNALISMO DA TV GAZETA PARA VOCÊ?
Dos 20 anos que fiquei na emissora, acredito que o diferencial é a segurança que eu tenho e isso não vai mudar. Vai prosseguir, mesmo porque a casa me garantiu liberdade editorial absoluta. É um diferencial expresso na experiência vivida em todos esses anos de experiência, em que nunca ninguém me perguntou quem eu ia convidar ou o tema que eu ia falar.
UMA MARCA DA SUA CARREIRA É O JORNALISMO OPINATIVO. AINDA EXISTE ESPAÇO PARA ESTE TIPO DE JORNALISMO?
Não tem muito. São poucos os jornais que têm âncoras que opinam. Nas grandes redes, já não existe tanto espaço para este tipo de jornalismo. O que existem são os comentaristas pontuais, pessoas especialistas, estudiosas em determinadas áreas que fazem o comentário. Eu acho isso interessante também, mas entendo que o jornalismo tem um lado generalista e eu me vejo desta maneira.
A OPINIÃO SEMPRE FOI RESTRITA OU PASSOU A SER RESTRITA?
Sempre foi. Acho que isso acontece por decisão das emissoras, que muitas vezes não querem abrir por várias razões, ou políticas, ou ideológicas. Mas eu tenho certeza que o jornalismo que eu faço é generalista. Tanto que, nesta nova função de entrevistadora, vou entrevistar pessoas que representam diferentes áreas da sociedade.
VOCÊ APRESENTOU, EM MEADOS DE 1980, NA TV RECORD, O PROGRAMA "DEFENDA-SE", QUE DAVA VOZ ÀS CAUSAS DOS CIDADÃOS. HOJE, A SOCIEDADE SE VÊ MAIS REPRESENTADA PELA IMPRENSA?
Hoje, existe, de forma mais intensa, a noção desse direito, não só em relação à imprensa, mas na sociedade como um todo. As pessoas não aceitam mais o desrespeito. E o meio de comunicação também se colocou como um mediador, não necessariamente como um programa como o "Defenda-se", que inicialmente era de defesa do consumidor, mas, depois, entendemos que um dos grandes desrespeitadores de direito do cidadão é o próprio Estado. Então, neste sentido, era um programa de defesa de direitos dos cidadãos, passamos a falar de aluguel, família, guardas e fomos abrindo o leque.
O ANO DE 2011 TEM SIDO MARCADO PELA ATUAÇÃO DA IMPRENSA EM RELAÇÃO À QUEDA DE ALGUNS MINISTROS. VOCÊ ACREDITA QUE OS MEIOS ESTÃO CONSEGUINDO PAUTAR O GOVERNO?
Eu acho que a imprensa está cumprindo um papel. O papel do jornalismo investigativo, de ir atrás, de fazer a denúncia fundamentada nos princípios da ética e não por um cunho político partidário. Eu gosto de ver que a imprensa está atuante neste sentido e está fazendo direito.
VOCÊ VÊ MUITAS DIFERENÇAS NO TRATAMENTO DA PRESIDENTE DILMA COM A IMPRENSA EM COMPARAÇÃO AO GOVERNO LULA?
São perfis diferentes. Acho que o Lula não tinha tanta preocupação em ser cuidadoso com as palavras. Ele tem um raro talento de comunicação, adora falar. Então, ele era muito mais aberto a falar e gostava de criar fatos políticos. Ele mandava recado por meio de entrevistas. Isso é um traço da personalidade dele: o talento como comunicador. E a presidente Dilma é diferente, ela é mais técnica, mais burocrata, toma mais cuidado nessa exposição com a imprensa.
UMA LEI QUE VENHA PARA REGULAR A IMPRENSA TE INCOMODA?
Acho que ficamos muito vulneráveis. É preciso que fiquemos muito atentos para o que está se entendendo de fato quando se usa a palavra "regulação". É necessária a atenção para que isso não comprometa a base do nosso trabalho, que é a liberdade de expressão, um preceito constitucional, que haja um olhar atento da sociedade para isso e que a imprensa colabore para que a sociedade possa acompanhar tudo o que acontece.
EU VI QUE VOCÊ TEM UM PERFIL NO FACEBOOK. ELE É VERDADEIRO?
Tenho? Eu não! Alguém pode ter me colocado. Eu lembro que me colocaram antes, mas eu não estou. Eu não tenho noção de quem possa ter criado um perfil com meu nome. Eu não estou no Facebook, não interajo. Está dentro do meu critério de privacidade. Eu não me exponho... Se alguém faz isso por mim, acho que é uma espécie de risco de uma pessoa pública como eu. Mas o Twitter eu uso para observar, mas não para postar algo. É algo por opção. Aliás, eu uso todas as ferramentas, mas não fico presa a elas.
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