Leonêncio Nossa conta os bastidores de caderno especial que levou o Prêmio Esso
Leonencio Nosso percorre os crimes de motivação política ocorridos no Brasil
Atualizado em 04/12/2014 às 15:12, por
Alana Rodrigues*.
“É preciso analisar dados, viajar pelo país, mergulhar nos temas da vida dos brasileiros”. Foi esta a mensagem que o jornalista Leonêncio Nossa diz ter recebido pelos jurados após conquistar uma das mais importantes distinções conferidas a profissionais de imprensa: o Prêmio Esso de Jornalismo.
Crédito:Divulgação Leonêncio Nossa conta como se dedicou à reportagem ganhadora do Esso
O repórter do jornal O Estado de S.Paulo foi premiado pelo caderno especial , publicado em 13 de outubro do ano passado. Nele, Leonêncio retrata a extensão dos crimes de motivação política ocorridos no Brasil a partir de 28 de agosto de 1979, quando entrou em vigor a Lei de Anistia.
Ao longo de 17 meses, o jornalista vasculhou acervos de entidades de direitos humanos, arquivos de CPIs, delegacias de polícia e cartórios. Passou por 35 cidades de 14 Estados e chegou a registrar 1.133 assassinatos por disputas políticas ao longo de 34 anos.
O caderno também recebeu o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e foi menção honrosa no Prêmio Latino-americano de Periodismo de Investigação. À IMPRENSA, o jornalista relata os bastidores do trabalho e como avalia o cenário das reportagens de fôlego nos jornais.
IMPRENSA: Quando surgiu a ideia de mostrar a violência na base da política brasileira? Leonêncio Nossa: Trata-se de um assunto que há muitos anos me chama a atenção. Por algum tempo, cobri o Palácio do Planalto. Nas viagens presidenciais pelo país afora, observei que o crime político era um problema que ocorria em quase todas as partes. Não era um ataque à democracia isolado ou recente.
Qual foi o maior desafio? É fácil escrever sobre prefeitos e vereadores que fazem parte de grupos de crimes de mando e pistolagem, mais complicado é mostrar que esses homicidas encontram em grandes partidos e nos gabinetes de Brasília algum grau de apoio e sustentação. Daí, avalio que o maior desafio era mostrar as conexões entre os mandantes de assassinatos políticos e as lideranças estaduais e nacionais. Elaborar a lista de assassinatos da entrada em vigor da Lei da Anistia para cá também exigiu muita dedicação.
O que mais o chamou atenção durante a produção das reportagens? Foi estranho perceber, ao longo da apuração, que há de todas as partes uma tentativa de desvincular o assassinato de uma liderança ao conceito de crime político. A família e os aliados da vítima têm receio de crimes de vingança – há casos de uma morte resultar em dezenas de assassinatos, num efeito dominó. O outro lado, do adversário, claro, com culpa ou não, atua para mostrar à sociedade e às autoridades policiais e judiciárias que o homicídio foi mais um caso da criminalidade comum. Há um esforço para ocultar uma cadeia assassina que atua para controlar o poder político de determinado município ou região.
Crédito:Reprodução Caderno destacou crimes políticos ocorridos após a Anistia de 1979
Como foi ganhar o Prêmio Esso? Desde o primeiro momento que recebi a notícia da conquista do prêmio, tive a sensação que, nesse caso, o Esso foi dado a um coletivo de repórteres, a profissionais que trabalham em busca de informação e narrativas com profundidade. Fiquei muito feliz por ter sido escolhido para receber pelos colegas o prêmio. Diante de um quadro em que a opinião ocupa o espaço tradicional ou novo da informação em todas as plataformas, os jurados mandaram uma mensagem para todos nós do mercado jornalístico — é preciso analisar dados, viajar pelo país, mergulhar nos temas da vida dos brasileiros. A lista de reportagens premiadas pelo Esso, neste ano, sugere isso. São trabalhos marcados pela intensidade da apuração.
Você acredita que faltam grandes reportagens nos jornais? Uma análise na trajetória da imprensa mostra que falta grande reportagem desde sempre. Em qualquer tempo, as condições foram desfavoráveis ao trabalho de fôlego. Mas, seja o período que for, o repórter sempre conseguiu emplacar trabalhos obtidos em apurações longas, mesmo sem estrutura e recursos. Falo de uma forma geral, pois o jornal em que trabalho me oferece as condições o espaço necessários para mostrar minhas reportagens. O planejamento editorial e a vontade do profissional podem compensar lacunas e entraves. A atual realidade do mercado mostra que muitas formas de texto ficaram para trás. Avalio, no entanto, que os conceitos da grande reportagem, do trabalho de profundidade, da investigação mais longa, porém, não podem ser abandonados. Esses conceitos são os conceitos, na verdade, do jornalismo.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.
Crédito:Divulgação Leonêncio Nossa conta como se dedicou à reportagem ganhadora do Esso
O repórter do jornal O Estado de S.Paulo foi premiado pelo caderno especial , publicado em 13 de outubro do ano passado. Nele, Leonêncio retrata a extensão dos crimes de motivação política ocorridos no Brasil a partir de 28 de agosto de 1979, quando entrou em vigor a Lei de Anistia.
Ao longo de 17 meses, o jornalista vasculhou acervos de entidades de direitos humanos, arquivos de CPIs, delegacias de polícia e cartórios. Passou por 35 cidades de 14 Estados e chegou a registrar 1.133 assassinatos por disputas políticas ao longo de 34 anos.
O caderno também recebeu o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e foi menção honrosa no Prêmio Latino-americano de Periodismo de Investigação. À IMPRENSA, o jornalista relata os bastidores do trabalho e como avalia o cenário das reportagens de fôlego nos jornais.
IMPRENSA: Quando surgiu a ideia de mostrar a violência na base da política brasileira? Leonêncio Nossa: Trata-se de um assunto que há muitos anos me chama a atenção. Por algum tempo, cobri o Palácio do Planalto. Nas viagens presidenciais pelo país afora, observei que o crime político era um problema que ocorria em quase todas as partes. Não era um ataque à democracia isolado ou recente.
Qual foi o maior desafio? É fácil escrever sobre prefeitos e vereadores que fazem parte de grupos de crimes de mando e pistolagem, mais complicado é mostrar que esses homicidas encontram em grandes partidos e nos gabinetes de Brasília algum grau de apoio e sustentação. Daí, avalio que o maior desafio era mostrar as conexões entre os mandantes de assassinatos políticos e as lideranças estaduais e nacionais. Elaborar a lista de assassinatos da entrada em vigor da Lei da Anistia para cá também exigiu muita dedicação.
O que mais o chamou atenção durante a produção das reportagens? Foi estranho perceber, ao longo da apuração, que há de todas as partes uma tentativa de desvincular o assassinato de uma liderança ao conceito de crime político. A família e os aliados da vítima têm receio de crimes de vingança – há casos de uma morte resultar em dezenas de assassinatos, num efeito dominó. O outro lado, do adversário, claro, com culpa ou não, atua para mostrar à sociedade e às autoridades policiais e judiciárias que o homicídio foi mais um caso da criminalidade comum. Há um esforço para ocultar uma cadeia assassina que atua para controlar o poder político de determinado município ou região.
Crédito:Reprodução Caderno destacou crimes políticos ocorridos após a Anistia de 1979
Como foi ganhar o Prêmio Esso? Desde o primeiro momento que recebi a notícia da conquista do prêmio, tive a sensação que, nesse caso, o Esso foi dado a um coletivo de repórteres, a profissionais que trabalham em busca de informação e narrativas com profundidade. Fiquei muito feliz por ter sido escolhido para receber pelos colegas o prêmio. Diante de um quadro em que a opinião ocupa o espaço tradicional ou novo da informação em todas as plataformas, os jurados mandaram uma mensagem para todos nós do mercado jornalístico — é preciso analisar dados, viajar pelo país, mergulhar nos temas da vida dos brasileiros. A lista de reportagens premiadas pelo Esso, neste ano, sugere isso. São trabalhos marcados pela intensidade da apuração.
Você acredita que faltam grandes reportagens nos jornais? Uma análise na trajetória da imprensa mostra que falta grande reportagem desde sempre. Em qualquer tempo, as condições foram desfavoráveis ao trabalho de fôlego. Mas, seja o período que for, o repórter sempre conseguiu emplacar trabalhos obtidos em apurações longas, mesmo sem estrutura e recursos. Falo de uma forma geral, pois o jornal em que trabalho me oferece as condições o espaço necessários para mostrar minhas reportagens. O planejamento editorial e a vontade do profissional podem compensar lacunas e entraves. A atual realidade do mercado mostra que muitas formas de texto ficaram para trás. Avalio, no entanto, que os conceitos da grande reportagem, do trabalho de profundidade, da investigação mais longa, porém, não podem ser abandonados. Esses conceitos são os conceitos, na verdade, do jornalismo.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.





