“Leitores devem ser céticos”, diz, no Brasil, ex-diretor do "The New York Times"

Em uma das apresentações realizadas na manhã desta segunda-feira (20/8) no 9º Congresso Brasileiro de Jornais, Bill Kovach, jornalista, coautor do livro “Os Elementos do Jornalismo” e ex-diretor da sucursal do The New York Times , falou sobre os fundamentos do jornalismo aplicados às novas realidades digitais.

Atualizado em 20/08/2012 às 15:08, por Luiz Gustavo Pacete.



Bill Kovach Kovach destacou em sua fala que o leitor deve cada vez mais desenvolver um olhar cético quanto tudo aquilo que é publicado nos jornais. “É o jornalismo da verificação. Um modelo de negócios que mantém em mente que o centro do negócio é o jornalismo que transforma informação em fato e fato em conhecimento. Jornalismo que deve embutir dentro de seu pensamento o ceticismo da verificação com a pergunta ‘Como você sabe isso?’. O jornalista reforçou que existe muita informação boa nas mãos de pessoas médias. Ele destacou que os novos modelos de negócios dos jornais podem se aproveitar das parcerias emergentes para criar informação por meio de Twitter e outras redes sociais. “Um tipo de modelo que pode se aproveitar de informações contidas na internet para apurações mais profundas”.
Kovach citou exemplos de projetos desenvolvidos por emissoras como BBC e Al Jazeera que vão exigir ajustes em padrões mais flexíveis a respeito de como coletar notícias na rede. “Abordagem que exigem transparência e seleção de fontes de informações. Sempre avisando os leitores com clareza do que os jornais sabem ou não sabem e apontando o grau de confiabilidade das fontes, dando atenção àqueles que fazem volume”.
Antigo e moderno
Questionado se é possível disseminar os conceitos do bom jornalismo às pessoas que usam as redes sociais, o jornalista reforça que ainda é superficial o trabalho feito por muitos veículos. "Eu acredito que todos nós somos desinformados em relação a um conjunto de fatos, mas não somos idiotas, e não há muitas pessoas que não estejam interessadas em saber a verdade em relação ao mundo em que vivem".
Ele ressalta também que muitas vezes os jornais falham em não contextualizar as informações coletadas. "Muitos de nós permitimos que as fontes façam declarações e não embasamos como essa afirmativa é baseada em fatos. De fato, quando escrevemos uma matéria, estamos ajudando as pessoas a compreender como contextualizar a informação, mas nunca fizemos isso de maneira aberta e agressiva, dentro da nossa realidade".
Interação Sobre a interação feita entre jornais e leitores, Kovach aponta que na medida em que o veículo conhece melhor os leitores interagindo com eles, o jornal pode reeducar os leitores de como se tornarem mais sofisticados e como utilizarem bem uma informação em determinada matéria. “Podemos fazer isso porque os leitores são não apenas nossa audiência, mas porque o público é parte de nós".
Negócios
Kovach citou também o estudo do Pew Research que aponta que mais de 70% dos adultos americanos visitam sites sociais. Deste número, 40% fornecem notícias para sites. Essa pulverização resultou na divisão do dólar publicitário para cobrir vários tipos de mercados. Segundo o próprio Pew, de US$11 de receita do jornal impresso, o digital atrai menos de US$1. Muito embora a publicidade digital tenha crescido, não chegou nem perto de compensar a perda de 7 para 1 dos impressos.
Segundo Kovach, “a inércia cultural na indústria jornalística é um grande fator em que a maioria dos jornais não está investindo devido à forte resistência na área comercial que foca somente vendas impressas. Muito embora anúncios digitais inteligentes sejam cada vez mais necessários”. Ele citou que “o estado da indústria brasileira parece estar melhor do que suas contrapartes americanas, onde o New York Times luta para se manter após a queda de suas ações”.