Leão Lobo alfineta: "Eu defendo meu mercado de trabalho. Não sou costureiro e nem quero costurar no lugar de ninguém".

Leão Lobo alfineta: "Eu defendo meu mercado de trabalho. Não sou costureiro e nem quero costurar no lugar de ninguém".

Atualizado em 10/03/2005 às 19:03, por Thaís Naldoni - thaisnaldoni@portalimprensa.com.br.

Por Com mais de 30 anos de carreira, o jornalista Leão Lobo acumula uma coleção de furos e, é claro boas fofocas sobre o mundo das celebridades. Atualmente com programa diário na Band, o "Melhor da Tarde", o polêmico Leão concedeu uma entrevista à reportagem do Portal IMPRENSA, na qual falou sobre o monopólio da Rede Globo sobre seus artistas, a falta de preparo de apresentadores que estão na TV, analisa o Big Brother e o polêmico episódio do casamento de Ronaldo, entre outros assuntos. Confira.

IMPRENSA - Com a proliferação das revistas e programas voltados para o "mundo das celebridades", é possível afirmar que todas estas mídias têm credibilidade?
Leão
- Nem todas. Acho que tem muito título no mercado, mas nem todos eles têm credibilidade. Tem revista, hoje em dia, que só existe porque pertence a uma gráfica. É feita de um jeito barato, chupando material de outras e vai para o mercado. O consumidor que é menos preparado, menos informado, talvez compre desavisadamente.Mas é até legal a gente alertar e falar: tem muita coisa que é bobagem pura, você gasta dinheiro a toa.

IMPRENSA - Neste nicho de mercado, o que é importante para que se tenha esta tão falada credibilidade?
Leão
- Eu acho que é aquela coisa básica de você checar a informação, né? No caso de uma revista, você tem que trabalhar muito com o repórter, ter olheiros, uma estrutura para conseguir fazer uma boa cobertura. Por exemplo, a revista Contigo! hoje foi por um caminho diferente das outras, como tem muitas revistas de informação, de bastidores de televisão, de artistas e celebridades, a Contigo! pegou um caminho de seguir mesmo o artista, do paparazzi.
Para isso, eles têm uma ótima estrutura, a estrutura da Abril (editora), colocando, praticamente, um olheiro para cada artista ou até mais de um. Claro, para cada artista famoso. Eles ficam de plantão, vigiando mesmo, como se fossem detetives, para isso, é necessária uma estrutura, precisa ter dinheiro.
Geralmente, este trabalho de se colocar um olheiro para cada artista, é voltado justamente para aquelas pessoas que são mais polêmicas, que dão mais o que falar ou que estão namorando pessoas polêmicas. Só que isso custa caro.

IMPRENSA - A partir de quando a vida dos famosos passou a ser tão interessante como notícia?
Leão
- Isso vem de muito tempo. Acho que fofoca é que nem prostituição, existe desde que o mundo é mundo.
Com referência ao meu trabalho, eu criei essa coisa das pulguinhas, porque acho que é um caminho também neste sentido. Hoje em dia tem que vigiar um pouco a celebridade mesmo, então a minha estrutura das pulguinhas é para isso também, né? Sem querer, cada um vai por um caminho, eu faço o que a Contigo! faz, mas também faço o que a Tititi faz, o que as outras revistas fazem, isso na televisão, no meu site, na rádio. Meu trabalho é um pouco diferente porque trabalho em diversos veículos.
Voltando à credibilidade, ela vem de você ter o respeito dos artistas, de você confiar em suas fontes e de suas fontes confiarem em você. São várias mãos, se você faz isso tudo direitinho, você consegue.
Por exemplo, há pouco tempo teve uma história com a Marília (Gabriela), ela me ligou e me falou que não tinha nenhum problema com seu marido e etc. Imediatamente, a gente falou e pronto, resolvemos tudo.

IMPRENSA - A experiência conta muito para que as pessoas mantenham essa linha direta com você?
Leão
- Essa coisa do respeito, de você ter o telefone do artista (às vezes eles mudam), de o artista ter seu telefone, ter seu contato... evidente que tem aquela coisa assim: "Você está namorando um cara que é casado?". Lógico que a pessoa vai dizer que não. E mesmo quando é solteiro, não quer falar porque está começando a novela, só vai assumir quando a novela acabar, que foi o caso da Giovana Antonelli com o Murilo Benício, que todo mundo sabia, mas eles só iriam assumir quando a novela acabasse.
E a experiência conta sim. Eu tenho 31 anos de carreira, não exatamente como repórter, e 21 anos como colunista. Com isso, você já conhece as pessoas, já sabe até como elas respiram, como elas vão reagir.
Acabei de dar a notícia de que o Murilo Benício disse que não falaria com a imprensa. Antes dele falar, a gente já sabia que ele diria isso. Porque ele é assim, tímido, fica atrapalhado, não quer falar... só que, se ele está trabalhando, a gente também está.
Nós não vamos entrevistar o Murilo Benício porque a gente o adora, é fã dele, a gente vai porque a gente precisa.


IMPRENSA - Você acredita que seja falta de profissionalismo esta postura do artista ou isso faz parte do direito à privacidade dele?
Leão
- Eu acho uma falta de profissionalismo deles, de respeito. Se eles têm profissionalismo na interpretação, naquela coisa específica, eles não têm de um outro lado, que é respeitar a imprensa. E a gente sabe que a TV Globo deve orientar os seus artistas, com o argumento "nós temos uma imprensa própria", que é a questão do monopólio. O que deveria ser uma vergonha, você assumir que você é um monopólio, a Globo, algumas vezes, se orgulha disso.
Então, ela diz assim: "Nós temos uma imprensa própria, vocês não precisam do restante da imprensa". Então, fica como se a imprensa toda do Brasil fosse o resto e só a Globo fosse importante. Isso é bom para eles e eles fomentam isso nos seus artistas. Só que estes artistas esquecem que um dia acaba o contrato deles com a Globo.

IMPRENSA - Antes, os contratos dos artistas Globais duravam vários anos e, mesmo estando fora do ar, continuavam contratados e com salários. Hoje já não é mais assim...
Leão
- É, hoje já não é mais assim. Quando eles vão para o SBT, Band, Record, aí eles mudam completamente, começam a ligar para você, mandar presente, quer dizer, é muito esquisito. Eu sou de um tempo, da Tupi, da Excelsior, em que o artista, o crítico e o colunista andavam juntos. Sentavam no bar para tomar chope. Porque, na verdade, um complementa o trabalho do outro. O que seria do meu trabalho se não tivessem esses artistas? E o que seria dos artistas se não tivesse o meu trabalho?
Há pouco tempo, quando eu tive um problema de Justiça com o Thiago Lacerda, ele falou assim: "Eu não respeito a sua profissão". Me pediu desculpas, disse que não era nada pessoal (te processou e não era nada pessoal), mas disse que não respeitava meu trabalho.
Aí, eu disse que ele deveria respeitar, porque se não fosse o meu trabalho, o dele não existiria. Ele falou que tinha o trabalho dele. Bom, eu disse que se fossemos pela lógica dele, o Lima Duarte, o Carlos Vereza, o José Wilker seriam as pessoas mais famosas do Brasil e não são. Às vezes, o Thiago é mais famoso que eles, graças ao trabalho da imprensa.

IMPRENSA - Você é muito procurado por pessoas interessadas em plantar as notas?
Leão
- Muito. E é esse que te processa depois. Quando ele fica um pouquinho mais famoso, é esse que te processa, é o que diz minha experiência de vida. Aquele que te pára no aeroporto: "Oi, lembra de mim? Se puder dar um notinha, estou lançando um relógio", é esse cara que acaba entrando com processos.

IMPRENSA - Você já foi processado muitas vezes?
Leão
- Não. Tive alguns. Teve um boom um momento. Acho que foi em 1999, 2000, que foi uma onda americana, aí começou todo mundo no Brasil começou a querer imitar, alguns advogados inclusive. Na verdade, são poucos os advogados, sempre os mesmos, que vivem disso.
Mas foi legal para mim como experiência, acho que completou minha experiência como colunista, de perceber que existe esse outro mercado paralelo dos advogados que vivem disso. Aprendi como funcionam as coisas da Lei. Você pensa que a Justiça é aquela coisa cega, reta e, quando você vai lá, vê que isso tudo é uma piada. É pior que "o amor é lindo" e "seremos felizes para sempre". É muito engraçado isso. Tem mil meandros.
Eu estava no meio de uma audiência no Rio de Janeiro e, de repente, entra um Oficial de Justiça, coisa que é proibido e antiético, me intimando para uma outra. E a Juíza lá olhando.
Eu fui intimado, dizia o nome do advogado que estava intimando e era o mesmo que estava ali na audiência comigo. São coisas que você aprende e que você tem que lidar. Advogado mostrando o braço cheio de ouro para você e dizendo "conte comigo se estiver precisando de alguma coisa aqui no Rio de Janeiro". Coisa que em São Paulo, me parece ser, pelo menos, mais velado. Eu fiquei assustado com isso no Rio.
Como a maioria dos artistas é do Rio, aqueles advogados que aqui em São Paulo seriam de porta de cadeia, como a gente fala, são venerados, inclusive por astros e estrelas. Eu acho isso muito estranho.

IMPRENSA - Você fez críticas recentes em seu site, em relação à Rede TV! Você acha que a programação do canal seja de mau gosto?
Leão
- Muito, né? Eles vivem disso. Tudo bem, você ter um programa ou outro, mas a programação inteira é assim. Você pode ver: a Record investiu em produção, equipamento, em produzir novelas e comprar filmes; a Globo está se esforçando para se manter, comprou o Oscar e tem uma produção invejável.
As outras emissoras estão se esforçando para chegar lá. O SBT querendo chegar lá, fazendo novela mexicana ou não, mas fazendo do seu jeito, é uma linguagem mais popular, alguns não gostam, mas não vamos entrar neste mérito, o fato é que estão produzindo. A Bandeirantes, em parceria, mas está produzindo.
Enquanto isso, a única que não investe é a Rede TV!. O que a Rede TV! está fazendo de produção? Nada. A Rede TV! é só baixaria. Eles investem nisso e acreditam nisso. É "Teste de Fidelidade" que a gente sabe que é falso, é tudo de mentira.

IMPRENSA - O João Kleber, como apresentador, tem parcela de culpa pela má qualidade do programa?
Leão
- Eu acho que ele não é um apresentador, né? Tem culpa quem põe ele lá. Tem culpa quem põe um costureiro que mal sabe falar, sabe? Eu acho que é nosso mercado de trabalho. Quantos anos você estudou? Eu estudei quantos anos? Eu fiz duas faculdades, você deve ter feio uma, pelo menos. Para depois você chegar lá e ter um costureiro que mal sabe falar! Bota uma mocinha que transou com não sei quem, bota o cara que era imitador, o cara que assobiava, sabe? É revoltante.

IMPRENSA - Então, você acha importante o diploma de jornalismo para exercer a profissão?
Leão
- Eu acho. Não no sentido de que vá formar, de que o diploma garante que você é um profissional porque está formado, mas eu acho que o diploma diz o seguinte: "Opa! Tem um freio aqui. Tem pessoas olhando".
Eu acho que a Folha de S. Paulo, com todo o respeito que eu tenho pelos profissionais que estão lá e as pessoas que administram, foi uma das grandes culpadas disso. Ela entrou no mercado com tudo, muito favorecida por coisas que vêm lá da TV Excelsior e entrou com muito dinheiro no mercado, mas, ao mesmo tempo, disse: "Olha, para que precisa desse jornalista? A gente inventa outro. Tira esse cara que tem um super nome, tira a dona Helena Silveira, qualquer pessoa pode fazer isso".
A dona Helena Silveira foi a grande mestra de crítica de televisão, pelo menos a minha, e morreu muito triste porque foi afastada da sua coluna na Folha de S. Paulo meses antes de se aposentar. E, logo depois, ela faleceu. É triste você ver que as pessoas são magoadas e eu acho que foi a Folha que começou com isso no mercado.

IMPRENSA - E isso foi disseminado para outros veículos?
Leão
- Hoje a Globo faz isso, quer dizer, os profissionais têm contrato por trabalho. Não há mais aquele respeito profissional, o estilo da pessoa. Geralmente, os jornalistas tinham que ter o seu estilo, se aprendia isso, se batalhava por isso. Hoje não, qualquer coisa é coisa. Ninguém mais sabe ler direito, tudo virou qualquer coisa. Isso é muito triste.
Como romântico que sou, penso que após todo o caos vem a bonança. Imagino que isso vá cansar de tal forma, que vamos chegar a um caos tão grande, se já não estamos, já que as pessoas estão desejando mal às outras. Um costureiro, recentemente, desejou que um vizinho dele morresse com Aids, um outro dizendo que fulano não o pagou, mas que também já morreu, vai morrer com câncer...

IMPRENSA - É muita bobagem dita em rede nacional?
Leão
- É muita bobagem que se fala na televisão e passa, né? Eu fui processado, se você for parar para pensar, por coisas absurdas, que eu não falei, alguém entendeu coisas nas entrelinhas e, de verdade, não estou falando isso para me defender, porque me defendo é lá. E você escuta coisas absurdas. Há pouco tempo, teve uma pessoa que falou que seria melhor que eu tomasse veneno e morresse de uma vez, isso porque eu dou mais audiência que o programa dele.

IMPRENSA - O que você sente em relação a isso? Fica magoado?
Leão
- Não. Eu só fico pensando: até onde a gente vai com isso? Eu me magoaria de se um Blota Jr., que foi um grande mestre na televisão, se a Hebe Camargo (difícil hoje, né?), o Jô Soares, uma pessoa dessas de televisão, falasse mal de mim.
As outras pessoas pecam por coisas absurdas! Como elas não têm competência para competir com seu trabalho e nem argumentos, então elas fazem críticas a coisas como o porte físico, se você está gordo ou está magro, então isso não magoa, mas eu fico preocupado e pensando onde a gente vai chegar com isso.
Ao mesmo tempo, você percebe de um outro lado, que publicitários (nada contra os publicitários, eu adoro os publicitários), pessoas que sabem vender, cada vez mais estão ocupando o lugar dos apresentadores. Eu não sei vender, sei vender no vídeo, mas não sei criar um comercial, ir vender, nem quero ir. Como eu não sou costureiro e nem quero ir costurar no lugar ninguém.
Então, eu brigo pelo meu mercado, não quero que invadam o meu mercado, mas cada vez mais, tem gente que é publicitário, traz anunciantes e garante um lugar seu na televisão. E isso está tirando lugar de pessoas talentosas e jovens, que estudam, estão batalhando e perdem espaço para uma pessoa que traz patrocinador ou que é amigo do patrocinador. É complicado, né?

IMPRENSA - No caso do casamento de Ronaldo com Cicarelli. Quem agiu errado na sua opinião, a mídia por ter insistido na cobertura, ou os noivos que barraram a imprensa, após anunciarem o casamento em um programa de TV?
Leão
- Isso é que acho. Ela mesma reconheceu isso no programa do Faustão. É aquela história que eu te falei: correm atrás de você no aeroporto para que você dê uma notinha, aí quando você vai atrás para saber mais, e já não interessa mais para ele, ele não quer mais falar. Tem que ser uma coisa de fidelidade, no mínimo, uma relação ética entre as pessoas e na relação de um veículo com as pessoas. Isso é que é complicado.
A vida pessoal fica importante a partir do momento que você a faz importante. A Fernanda Montenegro, por exemplo, todo mundo sabe que ela é casada com o Fernando Torres, mas isso não é o mais importante. O mais importante é o talento. Pegando alguém mais jovem, a mesma coisa é com a Glória Pires. O mais importante é o talento e não a vida pessoal.
O Gianechinni, por exemplo, foi um menino que se impôs pelo trabalho dele, que está melhor trabalho após trabalho. Mas que chegou à mídia pelo lado pessoal, por ser bonito, etc.
A Xuxa sobreviveu até hoje, só pela vida pessoal. Eu me lembro bem quando ela estava grávida, fiz até um conto sobre isso. Eu estava em uma entrevista coletiva dela e tinha mais de 200 jornalistas de braço esticado lá no Projac, para ouvir ela dizer que estava comendo pão. Para mim, isso foi o supra-sumo do ridículo. Mais de 200 jornalistas, o maior esforço, para ela dizer que estava comendo pão.
Voltando ao Ronaldo e à Cicarelli, eles jogaram a vida deles na mídia e depois não querem, fecham o palácio. Para que fazer aquele circo no palácio? Se não queria mídia, casasse no cantinho de casa.

IMPRENSA - Como você avalia o Big Brother, as pessoas que estão na casa e que saem de lá?
Leão
- A idéia do Big Brother me incomoda muito, por princípio. Eu acho tudo uma grande bobagem. Agora, esse Big Brother 5 está diferente. Não por falar de homossexualismo, porque imediatamente as pessoas rotulam: "Ah! Ele está defendendo porque é coisa de veado". Não. É porque lá, mostrou que tem gente interessante. O menino Jean, não porque é homossexual, mas porque tem conteúdo, ele é interessante e isso foi focado. Você percebe que a idéia do programa é focar isso. De repente, uma pessoa por ser interessante e por ter conteúdo, pode ganhar, pode se dar bem.
Acho que é uma trajetória de mostrar para as pessoas, através de um jogo como o Big Brother, que dá para botar um pouco de conteúdo, que há uma luz no fim do túnel. Não que seja profundo, que o prof. Jean vá mudar tudo... mas já é um princípio. Ele se encaixou bem ali. Mais um vez, não porque eu seja homossexual, mas esta é uma forma também de se vencer preconceitos. Esse é um dos preconceitos da sociedade e está sendo lidado dentro da casa.

IMPRENSA - Você se considera vítima do seu trabalho às vezes?
Leão
- Eu também sou vítima. A idéia que se criou na mídia é de que "O Leão Lobo fica sempre preocupado com a sexualidade das pessoas". Em todas as vezes, não fui eu quem falei. Alguém é que me perguntou, daí eu fui responder, mas só focam o que eu disse, então, parece que fui eu quem falei.
Mas que eu acho importante politicamente que as pessoas assumam. Eu assumi. Eu faço a minha luta política. Cada um que faça a sua.