Laranjas muito podres
Laranjas muito podres
Atualizado em 07/03/2011 às 17:03, por
Igor Ribeiro.
Dia desses fui ver "Trabalho Interno" ("Inside Job") e é daqueles filmes de mensagem enfática, que dá vontade de indicar para todo mundo, mesmo sabendo que não é muita gente que vai ver. Afinal, é um documentário, não é do agrado geral. Além disso, é sobre a crise financeira que arrasou o mundo em 2008. Ou seja, o tema é, basicamente, macroeconomia, cheio de gráficos e com um punhado de economistas, acadêmicos, executivos, jornalistas e políticos como fontes. Nada muito atraente para convencer a ir ao cinema, certo? Mas... Ganhou o Oscar de melhor documentário merecidamente.
Nada contra os outros indicados, todos bastante qualificados. Olhando o filme sob certo viés - como transformar lixo em ouro com sentido social questionável -, fica até parecido com o filme sobre Vik Muniz. Mas "Trabalho Interno" parece acrescentar uma reflexão comportamental muito mais desconfortável e, por isso mesmo, circunstancial: Nós, enquanto raça humana, temos jeito?
Ambição descomedida é tema antigo e central de diversos cineastas, artistas, escritores, pensadores. Faz parte da cultura de massa, da produção industrial, da globalização e de todas vissiscitudes que se embaralham e se entremeiam na construção de nossa história. Na época da tragédia financeira, li um ensaio do economista e filósofo Jadir Antunes em que afirmava, a grosso modo, que só o pensamento capitalista era capaz de gerar crises econômicas, pelo fato de objetivar o lucro e somente ele. Talvez, mas ganância não é medida só por dinheiro. A busca por estatus e poder em todas as suas formas já havia apresentado à história personagens e ideias tenebrosas muito antes da ascenção da burguesia ou da revolução industrial.
A crise internacional de 2008 é mais produto dessa mesquinhez do que da sedução capitalista. O filme prova de forma bem direta (e didática, para os preocupados com o economês) como um punhado de executivos mal intencionados e inescrupulosos de Wall Street se aproveitaram da crendice de milhões de pessoas para erguer as próprias fortunas. Mostra, também, como permaneceram impunes, apesar de todo o material coletado contra eles. Alguns continuam a fazer negócios duvidosos, outros preenchem quadros de confiança do governo Obama - aquele mesmo, o presidente da "mudança", que soube capitalizar a crise, ocorrida sob o governo Bush, a favor de votos.
Não é privilégio estadunidense. Esse mal existe em todo o lugar, Brasil incluso. Tampouco ocorre só entre gente rica. Ganância exagerada afeta a todas as classes e não faz distinção de raça, gênero, religião. Dependendo de onde e como atua, faz estragos maiores ou menores. "O homem é o lobo do homem", cravou Hobbes, séculos atrás. A origem do problema é, portanto, muito parecida, sempre.
A solução parece simples. Educar mais, ler mais, debater mais: aumentar a massa cultural individual e não a cultura de massa coletiva. É uma pena, porém, que aqueles que acreditam e trabalham por um mundo melhor tenham de lidar diuturnalmente com gente que despreza essa preocupação.
Quantos de nós está realmente predisposto a fazer isto? E mesmo que sejamos muitos, talvez a maioria, somos fortes o bastante para reter e reverter o dano que um punhado de gente perversa insiste em perpetrar? Torço, sinceramente, para que reflitamos sobre o tipo de sociedade que temos construído e para que consigamos mudar as coisas. Mas nessas horas, admito, aquela máxima do Saramago martela a minha cabeça: "Não sou pessimista. A realidade é que é péssima."

Nada contra os outros indicados, todos bastante qualificados. Olhando o filme sob certo viés - como transformar lixo em ouro com sentido social questionável -, fica até parecido com o filme sobre Vik Muniz. Mas "Trabalho Interno" parece acrescentar uma reflexão comportamental muito mais desconfortável e, por isso mesmo, circunstancial: Nós, enquanto raça humana, temos jeito?
Ambição descomedida é tema antigo e central de diversos cineastas, artistas, escritores, pensadores. Faz parte da cultura de massa, da produção industrial, da globalização e de todas vissiscitudes que se embaralham e se entremeiam na construção de nossa história. Na época da tragédia financeira, li um ensaio do economista e filósofo Jadir Antunes em que afirmava, a grosso modo, que só o pensamento capitalista era capaz de gerar crises econômicas, pelo fato de objetivar o lucro e somente ele. Talvez, mas ganância não é medida só por dinheiro. A busca por estatus e poder em todas as suas formas já havia apresentado à história personagens e ideias tenebrosas muito antes da ascenção da burguesia ou da revolução industrial.
A crise internacional de 2008 é mais produto dessa mesquinhez do que da sedução capitalista. O filme prova de forma bem direta (e didática, para os preocupados com o economês) como um punhado de executivos mal intencionados e inescrupulosos de Wall Street se aproveitaram da crendice de milhões de pessoas para erguer as próprias fortunas. Mostra, também, como permaneceram impunes, apesar de todo o material coletado contra eles. Alguns continuam a fazer negócios duvidosos, outros preenchem quadros de confiança do governo Obama - aquele mesmo, o presidente da "mudança", que soube capitalizar a crise, ocorrida sob o governo Bush, a favor de votos.
Não é privilégio estadunidense. Esse mal existe em todo o lugar, Brasil incluso. Tampouco ocorre só entre gente rica. Ganância exagerada afeta a todas as classes e não faz distinção de raça, gênero, religião. Dependendo de onde e como atua, faz estragos maiores ou menores. "O homem é o lobo do homem", cravou Hobbes, séculos atrás. A origem do problema é, portanto, muito parecida, sempre.
A solução parece simples. Educar mais, ler mais, debater mais: aumentar a massa cultural individual e não a cultura de massa coletiva. É uma pena, porém, que aqueles que acreditam e trabalham por um mundo melhor tenham de lidar diuturnalmente com gente que despreza essa preocupação.
Quantos de nós está realmente predisposto a fazer isto? E mesmo que sejamos muitos, talvez a maioria, somos fortes o bastante para reter e reverter o dano que um punhado de gente perversa insiste em perpetrar? Torço, sinceramente, para que reflitamos sobre o tipo de sociedade que temos construído e para que consigamos mudar as coisas. Mas nessas horas, admito, aquela máxima do Saramago martela a minha cabeça: "Não sou pessimista. A realidade é que é péssima."






