Lance! e Olé expressam as diferenças na cobertura esportiva de Brasil e Argentina

Apesar de o futebol da seleção brasileira estar decepcionando os apaixonados pelo esporte com a queda vertiginosa do país no ranking da Fifa

Atualizado em 07/03/2013 às 14:03, por Luiz Gustavo Pacete e  em São Paulo e Buenos Aires.

, a bola rolando continua, indiscutivelmente, sendo paixão nacional. A chegada do mundial, em 2014, pode ajudar a melhorar a autoestima do país. Mas, mesmo em tempo de fases difíceis, uma pesquisa da Kantar Worldpanel aponta que, entre os latino-americanos, o brasileiro ainda é o que mais aprecia o futebol. O esporte foi indicado como o predileto de 61 entre 100 brasileiros.

Essa paixão pelos gramados, somada ao jeito alegre de ser do brasileiro, faz da torcida canarinho referência no quesito entusiasmo. Mas paramos por aqui. Toda essa paixão originada no futebol não é transferida para a cobertura esportiva. Mesmo com mesas-redondas acaloradas e, com frequência, algum repórter ou comentarista sendo alvo da torcida, o jornalismo esportivo nacional é “quadrado, formal e extremamente conservador”. A constatação não é de IMPRENSA, mas de Antônio Serpa, secretário de redação do argentino Olé.
O jornalista argentino, que, em 2010, morou no Rio de Janeiro para observar como o brasileiro vivia o clima de Copa do Mundo, critica o jeito “apagado” do jornalismo esportivo verde e amarelo. “É impressionante como vocês não conseguem levar essa alegria conhecida no mundo todo para o jornalismo. Aqui, pelo contrário, nós temos um estilo mais contido e durão, mas nossa cobertura é bem mais viva que a de vocês.” O jornalista do país vizinho se arrisca até mesmo a dizer o tipo de apresentador de que o Brasil precisa: “Falta para vocês mais Tiago Leifert e menos Galvão Bueno”.
Na constatação de Serpa, se o brasileiro é contido no jeito de fazer jornalismo televisivo, nas páginas impressas a situação é pior. Tomando o Olé como exemplo, com frequência leem-se títulos como “Boca Caralho” ou “A puta que o pariu”. Ele explica que a utilização de palavrões não gera polêmica. Lá o problema é fazer outros tipos de ironia que podem ferir a honra de um ou outro torcedor ou jogador. Aqui no Brasil, um título do Lance! que fazia trocadilhos como “PQPaulinho” foi motivo de grande polêmica no ano passado.
Provocações

Em tom provocativo, Serpa explica à IMPRENSA que o Lance! até tenta ousar e ter a irreverência do Olé, mas não consegue. “Sem nenhuma soberba, o Lance! tenta ser como nós, um veículo popular e que fale com as grandes massas de torcedores, mas eles não conseguem chegar a esse ponto”, destaca. De forma política e sem provocações, o editor-chefe do Lance!, Luiz Fernando Gomes, explica que não vê uma tentativa de um jornal copiar o outro, mas, sim, diferenças culturais que fazem com que cada um tenha seu estilo próprio. “A cultura argentina é menos moralista. Aqui, se cobra muita coisa e gera-se bastante polêmica.”


Gomes admite que o jornal do país vizinho tem um estilo mais picante do que o Lance!. “Eles publicam capas mais provocativas, mas vivem realidades distintas. Possuem apenas dois clubes. Nós temos oito entre São Paulo e Rio. Com isso, aumentam as reações.” Serpa não concorda na diferença no número de equipes. Para ele, o que acontece é fruto de uma questão cultural que permite aos argentinos serem mais ousados.
Time do coração

Outro ponto caro aos jornalistas brasileiros, mas que na Argentina é tratado com normalidade, é tornar público para qual time se torce. “Aqui, declaramos nossos times e não existe nenhum problema nisso. Somos humanos, também torcemos, não podemos ficar omitindo isso do torcedor”, diz Serpa. O simples fato de assumir o time é algo comum no ambiente jornalístico do país. Nada que leve jornalista a ser perseguido por torcidas.
Pelo menos em dois pontos existe concordância entre o estilo das duas redações: não gerar violência. Gomes explica que este assunto é levado às últimas consequências na redação do Lance!. “A gente tem um código interno. São regras de atuação que dão o limite das coisas que podemos fazer. Devemos ser criativos, podemos gerar polêmica, mas o que não pode é passar dos limites e agredir um clube ou fomentar a rivalidade exacerbada.” Para Serpa, este ponto também deve ser levado em consideração. Na Argentina, ainda são comuns tumultos e arrastões realizados por torcidas. O último aconteceu em dezembro do ano passado e teve como consequência a destruição de vários estabelecimentos nas ruas de Buenos Aires. Outro ponto que une os dois diários são as polêmicas.
Gomes explica que, atualmente, com as redes sociais, não existe maior número de polêmicas, o que acontece é que elas estão mais expostas. “Elas são o que são. O que sempre foram. Isso faz parte do mundo em que vivemos, temos de nos acostumar.” Gomes admite que nunca pediu desculpas por alguma capa que tenha gerado polêmica. O jornalista reconhece que as polêmicas fazem parte do jogo, mas que a confiança e a tradição conquistadas não podem ser manchadas.
Longa data

A relação entre Olé e Lance! vai além das diferenças de sempre entre Brasil e Argentina. Eles são os principais diários esportivos das duas nações mais representativas na região quando o assunto é futebol. O Olé foi criado em 1996. Muitos dizem que o irmão argentino serviu como inspiração para a criação do Lance!, em 1997. São muitas as controvérsias sobre este tema, mas a realidade é que desde então eles se comunicam, seja em um texto mais provocativo ou mencionando um ao outro.
Gomes nega que existam provocações, para ele a relação é amistosa. Ele explica que a alma do Lance! é produzir conteúdo para torcedores. “Não lidamos com leitores ou internautas, estamos nos relacionando com torcedores, e isso faz toda a diferença.” O Olé se considera também o jornal das torcidas, e seu principal foco é lidar com paixões. “Isso não muda, nosso foco é o torcedor, falar para ele em uma linguagem popular e que desperte a paixão que ele tem pelo esporte”, conclui Serpa.