Justiça libera lançamento de biografia “plagiada” de Guimarães Rosa

Herdeira do escritor alegava que trechos de seu livro estavam presentes na biografia. No entanto, justiça contesta argumentos e libera obra.

Atualizado em 15/10/2014 às 18:10, por Redação Portal IMPRENSA.

Uma biografia que retrata o escritor Guimarães Rosa foi liberada na justiça depois de mais de seis anos fora das prateleiras. Retirado das livrarias em 2008, o livro “Sinfonia Minas Gerais - A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa”, de autoria do crítico literário Alaor Barbosa, abordava a história de um dos maiores nomes da literatura brasileira. No entanto, a obra foi contestada pela filha do escritor. Vilma alega que a publicação conta com trechos plagiados de seu próprio livro sobre o pai.
Crédito:Divulgação Autor não pretende republicar o livro liberado pela justiça
Segundo Estadão Conteúdo, o acordão que libera judicialmente a biografia foi assinado pela desembargada Elisabete Filizzola. Em 38 páginas, a magistrada rebate ponto a ponto as acusações mencionadas na representação, que citava um suposto plágio ao livro “Relembramentos: João Guimarães, Meu Pai”. Para a filha do escritor, o autor teria mostrado na obra um Rosa antipatriótico.
"Veem imputação de antipatriotismo ao renomado escritor, por dizer o biógrafo: 'Nunca me deparei, nos textos de Guimarães Rosa, com alguma preocupação com o presente e o futuro do Brasil'. Ocorre que as próprias recorrentes assinalam que João Guimarães Rosa sempre optou pela discrição, tendo preferido evitar entrevistas sobre sua vida privada e posições políticas”, diz a desembargadora.
Ao justificar a sua decisão, a relatora prossegue defendendo não só a liberdade de expressão garantida pela constituição, como também a opinião do biógrafo. "Não colhe a assertiva de que as conjecturas do biógrafo seriam opinativas, inconsistentes, desprovidas de fundamento, e, acima de tudo, ofensivas, causando evidente dano moral ao escritor e à sua família (como diz a acusação)”.
“Aliás, opinativas elas até podem ser, e mal algum há nisso, mormente por estar claríssimo nas passagens citadas de quem são as opiniões”, completa. De acordo com o advogado de Alaor Barbosa, Daniel Campello Queiroz, a decisão pode abrir um precedente favorável às biografias não autorizadas. "Isso tudo oferece caminhos interessantes por onde os tribunais devem caminhar”, diz.
O crítico literário já saiu vitorioso em outro confronto nos tribunais contra Vilma. Depois de considerar as declarações da herdeira consideradas caluniosas contra a sua conduta, o biógrafo entrou na Justiça por danos morais contra a herdeira. A sentença favorável ao escritor determinou que Vilma pague, conforme conta Barbosa, R$ 30 mil. "Ela poderia recorrer, mas perdeu o prazo da apelação. E eu pedi que a indenização seja aumentada para 120 000 reais", ressalta Alaor Barbosa.
"Este é um livro que ela chama de biografia, mas que traz documentos, cartas, discursos de Guimarães", completa. Barbosa afirma ainda que o conteúdo citado pela filha do biografado no livro, mas em quantidade menor do que foi acusado. "Além do mais, são trechos que não são da autoria dela”, diz. Procurado, os advogados de Vilma não se pronunciaram até o presente momento.
Embora tenha conquistado o direito de publicar a obra, o crítico literário revela que não pensa em recolocá-lo nas livrarias. "Eu teria que retirar partes do livro por questões pessoais, por minha decisão. São as citações que faço ao livro dela (de Vilma) -- que na verdade são de terceiros -- mas que eu retiraria por um motivo moral. Não sei se quero mais mexer com isso", declarou o autor.
De acordo com o escritor, a disputa judicial teve um outro objetivo. "Toda essa minha luta foi pelo princípio da liberdade da criação intelectual, que é um princípio universal”, disse Alaor Barbosa.