José Roberto Burnier, direto de Buenos Aires:

José Roberto Burnier, direto de Buenos Aires:

Atualizado em 19/10/2004 às 21:10, por Pedro Venceslau.


De Buenos Aires, Argentina

Depois de 21 anos trabalhando nos corredores da Rede Globo, onde foi repórter, editor -chefe, mediador de debates e âncora de telejornal, o jornalista Roberto Burnier subiu um dos últimos e mais cobiçados degraus na hierarquia da emissora: ser correspondente internacional. Não foi uma decisão fácil. Quando deixou São Paulo com destino a Buenos Aires, em fevereiro deste ano e sem prazo para voltar, Burnier abriu mão de seu bem mais precioso: o convívio com a família. Apesar da distância, o correspondente da Globo na Argentina não passa um dia sem conversar longamente com a esposa Rúbia, com quem é casado há mais de 20 anos, e com as duas filhas - Olívia, de 9 anos, e Júlia, de 13.

Saudades à parte, em terras portenhas o desafio de Burnier vai muito além de enviar reportagens para o Jornal Nacional. Coube a ele, em conjunto com o seleto time de correspondentes globais espalhados pelo mundo, a tarefa de colocar em prática um projeto que é a "menina dos olhos" da Rede Globo. Trata-se de um programa que permite o envio de reportagens pela internet, sem a necessidade de aluguel de satélite. Uma verdadeira revolução que coloca a Globo ao lado da CNN e BBC no topo do jornalismo mundial.

Em entrevista exclusiva ao PORTAL IMPRENSA, concedida em seu pequeno mas aconchegante apartamento no elegante bairro da Recoleta, que também funciona como escritório da Globo em Buenos Aires, Burnier falou sobre as férias da fama, novos desafios e saudades de casa:

PORTAL IMPRENSA: Eu achava que existia um escritório enorme da Globo em Buenos Aires...

Burnier: O escritório sou eu e funciona aqui em casa mesmo. Isso baixa radicalmente o custo da produção, já que todo material é enviado pela Internet, por um programa que chama "Clip Net Client'. Agora não precisamos mais do satélite que, dependendo do lugar que você está, pode custar até US$ 1000 por dez minutos. Aqui em Buenos Aires duas horas de ilha de edição custam US$ 400. Agora eu faço uma pré -edição aqui em casa, mando o material pela Internet e eles montam no Rio. Uma equipe completa aqui, com equipamento e tudo, custa outros US$ 400 por dia. Faz a conta e vê quanto custaria fazer uma matéria...Hoje funciona assim: contrato um cinegrafista freelancer quando preciso e pago 110 pesos por mês de Internet banda larga. E pronto, colocamos no ar. Tudo o que você tem visto meu na TV desde fevereiro foi feito assim. Olha lá...(aponta para a tela). Em três minutos e meio essas imagens que estavam aqui, estarão na Globo. É tudo digital. No Rio eles passam para uma fita beta, editam e jogam no ar. Teve um dia que nós geramos uma chamada ás 19:50. Ás 20:00 estava no ar, no jornal nacional. O cinegrafista que estava comigo, quase caiu de costas.

PORTAL IMPRENSA: Esse programa deve Ter reduzido muito o gasto com o escritório de Londres, onde a Globo mantém uma grande estrutura montada.

Burnier: Evidente que a preocupação de todas as empresas do mundo é baixar custo. Mas, mesmo dentro desta perspectiva, a Globo nunca descuidou-se de um negócio chamado qualidade.

PORTAL IMPRENSA: Qual foi o primeiro correspondente da Globo a utilizar este sistema?

Burnier: Se eu não me engano foi a Ilze (Scanparini), em Roma.

PORTAL IMPRENSA: Você nem sempre precisa de cinegrafista?

Burnier: Quando faço só a passagem, vou sozinho: coloco o tripé, faço a imagem em frente a um determinado lugar e pronto. As outras imagens a Globo compra de agência.

PORTAL IMPRENSA: Então você é um verdadeiro vídeo - repórter...

Burnier: Mais ou menos. Eu não faço outras imagens, porque essa não é a proposta. É lógico que se a Casa Rosada desmoronar na minha frente eu vou filmar. Mas no dia a dia não. Nós fomos orientado e treinados para fazer só a passagem. Nós - eu, Caco Barcelos, Ilze, Losekan - somos os pioneiros nisso.


PORTAL IMPRENSA: Além dos correspondentes, outros também já utilizam essa tecnologia? O Zeca Camargo, nessa viagem pelo mundo, por exemplo...

Burnier: O Zeca Camargo mandou tudo pela Internet para o Fantástico. Quase todas as viagens internacionais estão sendo enviadas assim. Isso dá uma mobilidade extraordinária. Quando eu viajo para qualquer lugar, a primeira coisa que faço quando entro no hotel é instalar o modem e ligar a Internet. Se está funcionando a Internet, estamos transmitindo.

Na Venezuela, por exemplo, no plebiscito do Chávez, eu gravava, fazia chamada, ia para meu quarto e mandava.

PORTAL IMPRENSA: Mudando de assunto. Aqui em Buenos Aires, você é um ilustre desconhecido...

Burnier: Isso é extraordinário. Não tenho a menor saudade do assédio. Tirei férias da fama.

PORTAL IMPRENSA: E a solidão, como conviver com ela?

Burnier: A solidão é terrível, principalmente nos fins de semana, quando não tem nada para fazer. Eu sou de carne osso...sinto falta da família. A Globo nunca me deixou na mão, mas vendi um carro para fazer um fundo e ir visitar minha família mais vezes. Eu cheguei aqui e tive que me virar, arrumar fiador, apartamento, construir novas fontes. Tudo sozinho. Tive cinco grandes desafios quando vim para cá: ser correspondente, implantar um novo modelo, viver em outro país e deixar a família em São Paulo. Em 1994 me sondaram para uma vaga um Nova York, mas não deu certo. Minha filha estava pequena e não quis deixa-lá aqui.