José Marques de Melo: Os jornais do interior estão mais receptivos às demandas comunitárias

José Marques de Melo: Os jornais do interior estão mais receptivos às demandas comunitárias

Atualizado em 08/12/2004 às 12:12, por José Marques de Melo (marquesmelo@uol.com.br).

Por Nova pagina 1


A imprensa das cidades do interior constitui um território pouco explorado na bibliografia brasileira do Jornalismo, embora represente uma alternativa para a assimilação dos novos profissionais que as nossas universidades formam no campo noticioso.

Esta contradição cognitiva motivou a professora Beatriz DORNELLES (PUCRS) a dedicar a este tema sua tese de doutorado. Ela trabalhou, sob a orientação do saudoso Jair BORIN (USP), contando com a colaboração de estudantes de jornalismo de diferentes universidades gaúchas. Participaram da pesquisa de campo concluintes dos cursos de jornalismo de três universidades: PUCRS, UFRGS e Luterana.

O resultado dessas incursões investigativas foi consubstanciado sob a forma de livro, sob o título Jornalismo "comunitário" em cidades do interior, que a Editora Sagra-Luzzato lançou na recente Feira do Livro de Porto Alegre.

A autora pesquisou 14 jornais editados em municípios representativos do que ela denomina as mega-regiões do Estado do Rio Grande do Sul, focalizando sua natureza jornalística (gêneros, temáticas e morfologia) e sua estrutura empresarial (administração, comercialização e edição), além de ter recolhido depoimentos do público leitor a respeito da ação comunitária de tais publicações.

Trata-se de contribuição relevante para ampliar o conhecimento público sobre o desempenho da imprensa interiorana no contexto de uma sociedade que valoriza historicamente os pólos de desenvolvimento regional. |Ancorados em matrizes sócio-culturais caracterizadas pelo cultivo dos laços comunitários, eles estimulam processos políticos capazes de fortalecer a cidadania.

Talvez, por isso mesmo, Beatriz Dornelles vislumbre traços de jornalismo comunitário na prática informativa daquela imprensa municipal. Embora a literatura acadêmica trabalhe com a hipótese da inexistência de imprensa comunitária no Brasil, ela procura demonstrar que o jornalismo interiorano gaúcho possui especificidades suficientes para ensejar uma espécie de revisão conceitual sobre essa questão.

Considero-me responsável pelo lançamento da tese de que a imprensa do interior, em nosso país, distancia-se editorialmente das aspirações comunitárias. Esbocei a hipótese de que ela funciona organicamente como correia de transmissão dos projetos políticos ungidos pelos donos do poder local. Eis a formulação esboçada em 1978, durante a IX Semana de Estudos de Jornalismo, promovida pela Universidade de São Paulo: "uma imprensa só pode ser considerada comunitária quando se estrutura e funciona como meio de comunicação autêntico de uma comunidade. Isto significa dizer: produzido pela e para a comunidade".

Tal assertiva alicerçava-se na minha própria experiência como jornalista do interior, em Alagoas, no começo dos anos 60, bem como nas reflexões alinhavadas como participante do Seminário sobre Jornalismo de Comunidade, promovido pelo Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina (Costa Rica, 1971). Ela foi sendo reforçada, posteriormente, por observações daqueles pesquisadores que se aventuraram pelo universo da imprensa municipal.

Wilson BUENO, em sua dissertação de mestrado - Caracterização de um objeto-modelo conceitual para a análise da dicotomia imprensas artesanal / imprensa industrial no Brasil, São Paulo, ECA-USP (1977) -, observou que os jornais do interior paulista, representavam empreendimentos personalistas. Seus proprietários mantinha relações com os leitores que se limitavam mecanicamente à circulação, aceitando eventuais pressões que potencialmente viessem a criar perigos para a sua estabilidade mercadológica.

Gastão Thomaz de ALMEIDA, analisando o mesmo universo, no livro Imprensa do interior – um estudo preliminar, São Paulo, IMESP, 1983, concluía que as empresas do interior paulista conservavam "mentalidade artesanal". Ele focalizava especialmente a profissionalização do setor, considerada precária. Concluia que esses jornais eram fortificados basicamente pela "publicidade governamental", gravitando em torno do poder e minimizando as demandas da comunidade.

Um decênio depois, resalizamos estudo destinado a compreender a fisionomia da imprensa regional paulista. Pesquisamos os jornais emblemáticos daquelas cidades do interior que lideram os novos pólos de desenvolvimento estadual. Os resultados dessa pesquisa estão contidos no livro Identidade da imprensa brasileira no final do século, organizadores: MARQUES DE MELO, José & QUEIROZ, Adolpho, São Bernardo do Campo, Editora UMESP, 1998.

O panorama era completamente distinto daquele diagnosticado por BUENO e ALMEIDA, nas décadas de 70 e 80. As empresas haviam se modernizado e profissionalizado, capitalizando os benefícios econômicos advindos do Plano Real da era FHC. A amostra analisada era constituída por "jornais industriais", embora persistissem "jornais artesanais" em cidades localizadas na periferia de cada micro-região.

Do ponto de vista comunitário, os dados coletados permitiam concluir que a imprensa do interior paulista distanciava-se paulatinamente das fontes do poder. Nutria-se de anúncios classificados (63 %), veiculados pelos cidadãos comuns. Dependendo menos dos subsídios governamentais e dos anúncios avulsos das grandes empresas, esses jornais podiam ousar editorialmente, agendando temáticas mais sintonizadas com as aspirações comunitárias. Seu perfil contemporâneo é o de uma imprensa feita para a comunidade, comprometida com o fortalecimento das identidades locais.

Tendência semelhante é observada por Beatriz DORNELLES em seu novo livro. Ao indagar aos proprietários dos jornais pesquisados se eles reconheciam suas publicações como comunitárias, eles responderam positivamente, alicerçando-se no conceito de jornalismo comunitário como atividade noticiosa voltada para a comunidade.

Embora o compromisso comunitário esteja presente na "filosofia editorial" da imprensa interiorana do Rio Grande do Sul, a autora sugere implicitamente que ele na verdade toma corpo através da militância profissional dos jovens jornalistas, a maioria deles egressos das universidades regionais. "Para se sentirem realmente integrados à comunidade (...) buscam levantar, com regularidade, as condições peculiares e a evolução de suas comunidades. (...) Os jornalistas do interior, não apenas observam os acontecimentos, mas participam e tomam decisões em praticamente todas as áreas que movimentam uma comunidade. (...) Esse tipo de jornalismo do interior (...) estabelece-se de acordo com a política de vizinhança, a solidariedade, o coletivismo, os valores, a moral, a fé religiosa, o respeito humano e a cultura de pequenas populações..."

A grande contribuição oferecida por Beatriz DORNELLES para os estudos brasileiros do jornalismo configura-se através do roteiro empírico esboçado naquele livro e nas evidências preliminares que ela estocou, com a ajuda dos seus alunos. Se esse estudo for replicado em outras regiões do país, certamente iremos compondo, pouco a pouco, um mosaico da nossa imprensa do interior, avaliando seus avanços e retrocessos.

Estamos vivenciando novos tempos, marcados pela emergência de um forte sentimento de cidadania, que tem revitalizado a nossa vida comunitária. É plausível que a imprensa dos grotões brasileiros (ou daquelas cidades situadas nos espaços metropolitanos construídos pelo agro-negócio), desafiada pela vigilância comunitária, acerte o passo com o interesse público. E, desta maneira, desate o cordão umbilical que a atrelava economicamente ao poder local, passando a orientar sua política editorial em consonância com as legítimas aspirações dos respectivos leitores.

Esse processo só poderá ser nutrido e viabilizado se contar com profissionais competentes. Daí a responsabilidade dos cursos de jornalismo mantidos pelas universidades, principalmente daquelas que possuem perfil comunitário. Através do ensino, da pesquisa e da experimentação é possível construir um jornalismo comunitário que, sendo fiel às demandas coletivas, tenha capacidade de manter-se de acordo com os princípios da livre iniciativa e do pluralismo ideológico.