Jornalistas superpoderosas - Soninha Francine: entre as câmeras e a Câmara
Jornalistas superpoderosas - Soninha Francine: entre as câmeras e a Câmara
A simplicidade com que Soninha Francine se expressa na TV transparece em sua figura. Sem maquiagem, de camiseta branca, calça jeans e tênis, a comentarista de futebol da ESPN recebeu IMPRENSA na Câmara Municipal de São Paulo, seu local de trabalho desde o dia 1º de janeiro. A carreira de Soninha começou em 1990, na MTV. Lá ela foi redatora, produtora, diretora e VJ. Em seu currículo ainda destacam-se passagens pela Folha de S. Paulo, TV Cultura, rádio Globo e CBN. Em outubro passado, foi eleita vereadora pelo PT-SP. Nesta entrevista ela fala sobre política, futebol, feminismo e afirma que o aumento no número de mulheres vereadoras faria diferença para os cidadãos.
IMPRENSA: Uma mulher comentarista de futebol. Isso causa estranhamento?
SONINHA: Eu acho até natural que as pessoas estranhem, porque realmente é incomum. Você tem alguns casos de uma personagem feminina numa mesa redonda, mas não com o papel de participar da discussão, de entender de futebol. Tem a mulher que desempenha o papel de torcedora, que tem lá seu clube do coração, mas ela está ali mais um atrativo para o público masculino. Eu acho super natural que as pessoas se perguntem ´ué, mas que invenção é essa agora? De onde veio essa daí para falar de futebol?´, acho compreensível. O que não é legal é quando a pessoa se prende a esse estranhamento e o mantém. Aí, não importa o que você diga, tem sempre algum problema. Se a pessoa discorda, pronto: ´só podia ser mulher para falar uma bobagem dessas´. Se concorda com o que você está dizendo - e isso eu já vi acontecer diversas vezes -, fala ´tá na cara que alguém escreveu isso para ela´, ou ´ela só repete o que os outros dizem´. Ou um espanto assim: ´nossa, ela é mulher mas entende de futebol´, como se fosse uma aberração. Para me elogiar as pessoas dizem isso às vezes (risos). Mas é pouco. Eu até esperava uma resistência maior.
IMPRENSA: Na hora de subir ao plenário, ser mulher faz diferença?
SONINHA: Ser mulher pode ajudar. Os homens ainda podem ser gentis com uma mulher, coisa que entre eles já não acontece. E as mulheres podem tentar se firmar de várias maneiras. Algumas usam a gentileza feminina. Outras, a truculência masculina, o que às vezes é ótimo porque marca posição, mas às vezes faz um barulho danado e não resolve nada. Se a Câmara fosse meio a meio mulheres e homens, a Casa teria um outro modo de agir, menos "soco na mesa".
IMPRENSA: Você se sentiu desconfortável na eleição do Tripoli?
SONINHA: Me senti tensa, muito pouco confortável, muito pouco à vontade. Foi uma coisa muito complexa de lidar sem poder pedir um tempo para pensar. Eu queria pedir meia hora para pensar, para falar com alguém e não tinha. Foi muito complicado.
IMPRENSA: Se houvesse um racha entre PT municipal e nacional, com qual deles você fica.
SONINHA: Com o que eu achar que tem razão na hora. Não existe nenhum compromisso a priori com o PT de modo geral, ou com uma tendência do PT ou com um grupo. Eu vou sempre tentar descobrir quem é que tem razão.
IMPRENSA: Você pretende seguir na política?
SONINHA: Eu estou pensando só no agora. Vejo quatro anos nos quais eu tenho que me matar para conseguir tudo o que for possível. Dos mil planos que tenho, sei que 500 não vão acontecer.
IMPRENSA: Que planos são esses?
SONINHA: Tenho planos de todos os tipos. Na área de esporte, por exemplo, a gente quer fazer um levantamento do que já existe na cidade de estrutura sub utilizada, ou porque não está em condições, ou porque simplesmente as pessoas nem sabem que aquilo é público e que elas têm o direito de usar. Quero criar um programa para aumentar o uso do que já existe de equipamento esportivo, cultural, das bibliotecas, dos centros culturais. Pode-se criar um programa em que o aluno da escola pública municipal, o funcionário, a faxineira da escola, vá uma vez por semana fazer natação na piscina do Pacaembu. E é claro que, se você puder envolver a rede pública estadual também, por que não? Criando esses programas você melhora a condição da pessoa na escola. Tenho vontade também de transformar não só as instalações da escola, o que é importante, mas o próprio currículo escolar. Mesmo o que a gente chama de escola boa hoje em dia, tem uma grade curricular muito ruim. É anacrônico você forçar um adolescente a saber de cor a tabela periódica enquanto ele não faz idéia de qual é a diferença entre vereador, deputado, prefeito e governador. Tem alguma coisa errada nessa educação. Você tem que enriquecer o currículo. Eu não vou conseguir tirar a coisa enciclopédica, isso é esfera Federal, mas posso acrescentar. Música e cultura têm que fazer parte da formação. A crítica de mídia também. A mídia faz parte da vida de uma maneira super forte, por isso a pessoa tem que ser capaz de decifrar um noticiário: o que é dito, porque é dito daquele jeito, porque aquele enquadramento, aquela edição, aquela legenda. A mídia tem de ser levada para dentro da escola como conteúdo. Como pode uma pessoa saber balancear uma equação química e não saber decifrar a linguagem de um veículo de comunicação? Outro projeto: hoje existe nas empresas a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). Quero criar a CIMA: Comissão Interna de Meio Ambiente. Ter um grupo de funcionários que ouvem sugestões e se reúnem para que a empresa use melhor seus recursos, reduza o gasto de água, de energia elétrica, invista numa fonte alternativa de energia. Não só separe seu lixo, mas consiga produzir menos lixo, descubra onde tem desperdício, como pode fazer para usar menos papel...tenho um milhão e meio de idéias!
IMPRENSA: E como fica a carreira de comentarista agora que você é vereadora? Uma função pode comprometer a outra?
SONINHA: Não, de jeito nenhum. Nunca penso no que as coisas podem fazer pela minha imagem. Se eu tenho convicção do que estou fazendo e se não estou causando mal a ninguém, se não estou ofendendo, é o que importa.
IMPRENSA: As diferenças entre os sexos já foram extintas?
SONINHA: A gente sabe que não. Ainda estranhamos ver mulheres em determinadas funções. Motorista de ônibus, por exemplo. Quando você vê uma mulher, fica surpreso. Mas em outras situações, até por ser novidade, por ser minoria, as pessoas preferem a mulher. Isso aconteceu comigo. Teve gente que votou em mim porque pensava "é bom ter umas mulheres lá [na Câmara] para variar um pouco". As pessoas sentem na mulher um sopro de renovação, uma brisa de mudança.
IMPRENSA: Você já militou em alguma causa feminista?
SONINHA: Já, mas em coisas pontuais, não num movimento, numa organização.
IMPRENSA: Passados três anos da sua entrevista à revista Época, que lhe rendeu a demissão da TV Cultura, o que ficou do episódio?
SONINHA: Para mim fez bem e mal. Fez mal porque eu perdi um emprego, deixei de fazer um programa que eu gostava e, para muita gente, até hoje eu sou uma maconheira. Esse é um carimbo indelével. Mas foi bom para a causa que eu defendo, que é a da descriminalização. Tem gente que defende a pena de morte e tem gente que defende mudanças na Constituição, eu defendo essa. Acho que seria muito menos maléfico para a sociedade o comércio permitido. E muitas pessoas se identificam com essa idéia em si, ou com minha postura de não ter arregado na discussão. Era muito mais cômodo para mim desmentir tudo, falar "imagina, foi um mal-entendido, eu fumei um dia num descuido". Mas eu não arreguei. Muita gente me deu valor por isso.






