Jornalistas superpoderosas - Lillian Witte Fibe: "Ou a gente faz notícia ou faz propaganda"

Jornalistas superpoderosas - Lillian Witte Fibe: "Ou a gente faz notícia ou faz propaganda"

Atualizado em 02/03/2005 às 17:03, por Renata Toledo Piza.

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Formada pela ECA/USP, Lillian Witte Fibe era aluna de Vladimir Herzog quando ele foi morto no DOI-Codi, em 1975. Ainda nos anos de chumbo, com Geisel no comando do país, a jornalista enveredou pelo caminho da Economia na sucursal de Brasília da Gazeta Mercantil e do Jornal do Brasil. Lillian começou aos 19 anos na Folha de S. Paulo. Em televisão, trabalhou no SBT e na Globo. Adepta às novidades, deixou a TV e estreou na internet em 2000, como apresentadora do Jornal da Lillian no Terra. Desde setembro, é âncora do UOL News. Diante da polêmica sobre jornalistas que fazem propaganda, Lillian é categórica: "Não dá para fazer notícia e propaganda, mesmo que seja propaganda de sabonete".

IMPRENSA: A saída da TV para a internet foi uma opção?
LILLIAN: Não, foi coincidência. Na Globo eu não queria mais ficar de madrugada. Foram dez anos de jornal de fim de noite e eu não queria mais. Aquele era um momento bom para eu pensar na minha qualidade de vida. Eu já estava com tudo mais ou menos acomodado, resolvido e resolvi sair da Globo. Por coincidência estava surgindo a história da banda larga na internet. Fui procurada pelo Terra, fui para lá, onde fiquei dois anos e aí vim para o UOL.

IMPRENSA: Deu receio sair da TV para uma empreitada desconhecida pela internet?
LILLIAN: Em matéria de mudar de emprego, mudar de atividade, eu sempre me pautei por outra coisa. A minha pergunta é: "eu vou aprender ou vou morrer de tédio?". Se for só para fazer o feijão com arroz que eu já sei fazer eu até vou, porque tenho conta para pagar, mas serei muito mais motivada a ir, por exemplo, para uma banda larga. Meu olho brilha se eu vejo um monte de novidade que eu não conheço. Eu gosto mesmo de fazer coisas para aprender, e foi o que aconteceu.

IMPRENSA: O que é mais atrativo no trabalho em internet? A espontaneidade que o veículo permite, a interatividade...
LILLIAN: Na minha opinião, o grande barato da internet é a interatividade. É uma aula que o internauta me dá diariamente. Todo mundo está tentando tatear essa interatividade: o rádio, com perguntas ao vivo via e-mail, até a televisão faz um pouco isso de vez em quando, mas não é a mesma coisa. O que a gente ainda não sabe como vai ficar é esse produto que viabiliza alguma coisa televisiva, com imagem, via computador. A gente vai ter uma clareza melhor disso quando vier a digitalização dos meios de comunicação. Por enquanto nós estamos tateando, tentando acertar e aparentemente está dando muito retorno. Eu fiquei espantada quando cheguei aqui no UOL, vinda do Terra, como cresceu a interatividade num site desses, a participação das pessoas, suas opiniões. Cheguei aqui e falei "gente, estou me sentindo numa TV aberta!". O público brasileiro é técnico de futebol, mas também é técnico de televisão, então ele entende de luz, de áudio, de roupa, de maquiagem. Comentam a caneta que eu estou no ar! A espontaneidade de que todo mundo fala eu atribuo mais ao lado quase laboratorial do produto. A internet é um outro veículo. Se, como âncora ou apresentadora, a gente não tratar esse veículo de um modo diferente, não tem graça. A proposta é outra. Ainda não sei se está certa, mas a gente está tentando, estamos tateando a reação do público.

IMPRENSA: A velha questão de diferença entre homens e mulheres, tanto salarial quanto de tratamento. Você sentiu isso no início da carreira, ou sente ainda?
LILLIAN: Eu acho que sou sempre politicamente incorreta quando me perguntam isso, porque eu nunca senti. Muito pelo contrário, sempre fui tratada com muito cavalheirismo pelos meus chefes homens. Ou eu tive muita sorte, mesmo em relação aos salários. Tem um ou outro episódio, mas foram exceções. Em linhas gerais eu não tive essa experiência objetivamente. E hoje, aliás, minha chefe é mulher aqui no UOL.

IMPRENSA: Como foi que você enveredou pela área da Economia?
LILLIAN: Foi por acaso. Eu estava há dois anos na editoria de educação da Folha de S. Paulo, onde foi meu primeiro emprego. Mas queria muito cobrir política. Eu lia muito política, achava gostoso fazer política, era a editoria pela qual eu mais me interessava. Não apareceu a oportunidade de política na Folha, mas apareceu de economia na Gazeta Mercantil que, naquela época, funcionava no prédio da Folha, na Barão de Limeira. Fiquei um ano em São Paulo na Gazeta. Era o auge da ditadura, eu vi que tudo acontecia em Brasília, tudo dependia muito de Brasília. Fiquei curiosa para ver como funcionava, pedi transferência e fui trabalhar na sucursal de Brasília. Basicamente fui ser setorista do Ministério da Fazenda, Banco Central, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Peguei logo o lado mais hard da economia, mais financeiro, mais complicado. Fiquei alguns meses em Brasília e o Jornal do Brasil me chamou para fazer a mesma coisa que eu fazia para a Gazeta Mercantil lá [em Brasília]. Fiquei no Jornal do Brasil e nunca mais saí da economia. Acho que a demanda por jornalistas de economia era grande. A crise estava estourando, ia ter hiperinflação, planos [econômicos], calotes etc. Nessa época, o presidente era o Geisel e o Ministro da Fazenda era o Simonsen.

IMPRENSA: Economia ainda é um tema mais estudado por homens?
LILLIAN: Acho que [tem] cada vez mais mulheres. Tanto nas redações quanto nas fontes. Por exemplo, meu filho está fazendo mestrado em economia e ele tem colegas mulheres, para minha surpresa. As mulheres estão se expandindo mesmo, é impressionante.

IMPRENSA: Muita gente insiste na tese de que o governo Lula é uma continuação do de FHC. Isso faz sentido?
LILLIAN: Outro dia numa entrevista o Armínio Fraga falou, com boa parte de razão, sobre as pessoas que dizem isso. Ele disse que o FHC não inventou a roda ao fazer aquela política econômica que fez, porque era a política que precisava ser feita naquele momento, e o Lula está fazendo a política que está precisando fazer. Esperávamos tanto do FHC e ele fez pouco pela educação, fez bastante pela saúde, mas não fez muito pela área social, principalmente a segurança. Eu acho que ele tem essa dívida com o Brasil de não ter mexido nada em matéria de segurança. Ele pôs o Íris Rezende no Ministério da Justiça. O que o Íris Rezende entende de violência urbana, pelo amor de Deus? O Lula prometeu um monte de coisas de emprego, Fome Zero etc. que de fato também não está cumprindo. A favor dele tem o fato de estar apenas na metade do primeiro mandato. Se ele tiver o segundo mandato - e hoje é o candidato mais forte à reeleição, pelo o que dizem as pesquisas - ele ainda tem mais seis anos pela frente. O FHC a gente pode julgar por oito anos.

IMPRENSA: O Lula é muito criticado pela imprensa. Você acredita que o governo não consegue estabelecer um canal de comunicação claro com a mídia, ou a imprensa tem um "pé atrás" com ele?
LILLIAN: Eu não acho que o Lula é muito criticado. Não tenho dados para afirmar isso, mas tenho dúvidas de que ele seja mais criticado ou mais elogiado.

IMPRENSA: Enquanto você esteve cobrindo economia, qual foi o mais acessível dos presidentes?
LILLIAN: Ah, eu fiquei só no governo Geisel. Quando o Figueiredo estava assumindo eu já estava voltando para São Paulo. Mas naquela época era outro mundo, era ditadura brava. Caiu o Silvio Frota. O Vladimir Herzog era meu professor na ECA quando morreu. Eu peguei uma parte brava da ditadura, por isso que na hora de criticar Lula, Fernando Henrique, digo "sim, têm defeitos, mas não tasquem minha democracia!". Eu falo minha democracia, nossa democracia muito importante, eu sei porque eu estive lá, estive em Brasília. Era um hor-ror trabalhar em Brasília. Um dia o assessor do Banco Central cismou que eu estava escutando conversa atrás da porta. Eu estava na ante-sala do diretor de mercado de capitais esperando para falar com ele, sentada na frente da secretária. No dia seguinte, ele [assessor do BC] estava pedindo minha cabeça para alguém do alto escalão da Gazeta Mercantil alegando que eu estava escutando atrás da porta. Era uma coisa maluca, um horror trabalhar na ditadura. Santa democracia! A gente fez um impeachment sem tanque na rua. Ponto para o brasileiro, para o eleitor.

IMPRENSA: O que você acha de jornalistas fazerem propaganda?
LILLIAN: Acho um horror. Lamento muito. Não tem nada a ver, compromete. Eu não faria. Aliás, não é por falta de convite. Não pode, isso até dispensa explicações, não dá para misturar abacaxi com banana. Ou a gente vai fazer notícia ou vai fazer propaganda. Não dá para fazer notícia e propaganda, mesmo que seja propaganda de sabonete. Não dá para fazer propaganda de sabonete e ao mesmo tempo cobrir o Palácio do Planalto ou economia, cultura, etc. É absolutamente incompatível.