Jornalistas Superpoderosas IX - Marilú Cabañas: "Num país de analfabetos, [o rádio] é o meio de comunicação que chega a todos"
Jornalistas Superpoderosas IX - Marilú Cabañas: "Num país de analfabetos, [o rádio] é o meio de comunicação que chega a todos"
A santista Marilú Cabañas começou a carreira aos 17 anos na rádio Guarujá Paulista (litoral de SP). Em meados da década de 1980, foi para São Paulo trabalhar na Bandeirantes. Passou pela TV, no SBT, mas sua paixão declarada é o radiojornalismo. Há dez anos é repórter especial da Cultura de SP. Crianças em situação de risco e a população dos sem-teto são como pauteiros para a jornalista que reafirma, a cada matéria, a função social do rádio. Os primórdios dessa aproximação, principalmente com as mulheres mais pobres e seus problemas, veio com a mãe – uma imigrante do Paraguai que chegou ao Brasil para trabalhar como doméstica, perdeu o marido, criou os filhos sozinha e se transformou na inspiração de Marilú Cabañas. Uma espécie de santa de casa. Que fez milagres.
IMPRENSA: Nesses anos de prática em reportagens de cunho social, o que as mulheres sem teto, sem terra, sem estudo te revelam sobre a figura feminina?
Marilú: É emocionante ver como a mulher é forte. Na zona leste [de São Paulo], por exemplo, o movimento de saúde fez história e foram elas que lutaram. É impressionante a inteligência dessas mulheres, a garra. Na minha vida profissional inteirinha, desde o Guarujá, isso é uma coisa muito presente. Sinto a força das mulheres o tempo inteiro. Fora o exemplo da minha mãe, uma mulher que saiu do Paraguai aos 18 anos e veio para o Brasil ser babá e empregada doméstica. Ficou viúva quando eu tinha 8 anos e criou todos os filhos. Por isso eu acabei indo para esse lado de matérias sociais, porque é minha história, porque eu vivi isso em casa. E, se o jornalismo que faço – e fiz durante todos esses anos – tem essa vertente social forte, é por conta das mulheres que conheci. Aprendi muito com cada uma das entrevistadas que passaram pela minha vida, com cada uma das fontes.
IMPRENSA: Na hora de lidar com chefes homens, é mais difícil se fazer ouvir e respeitar por ser mulher?
Marilú: É tão delicada essa relação...a gente nunca sabe se tem alguma coisa do aspecto masculino ou se é um aspecto de caráter. Não fica muito claro se é má índole ou se é temperamento. Já tive problema com chefe em que eu tive que falar alto, com toda a minha força feminina. Mas não sei se isso aconteceu por ser mulher ou pela pessoa ter alguma coisa contra mim. Mas até agora, todos os meus diretores sempre me respeitaram muito. Tanto que o José Paulo de Andrade (seu chefe na época da rádio Bandeirantes) é meu padrinho de casamento. É difícil dizer se os problemas que eu tive aconteceram por eu ser mulher.
IMPRENSA: Homens ainda ganham mais que mulheres ou o salário já independe do gênero?
Marilú: Os homens acabam tendo cargos de chefia, portanto ganhando mais. Não me lembro de homens ganhando mais que mulheres no mesmo cargo. O que marca é a diferença do meio de comunicação. Como sempre trabalhei em rádios que tinham sua emissora de TV, minha comparação imediata é com TV. Rádio paga menos. Tem gente que não sabe valorizar o rádio. Num país de analfabetos, é o meio de comunicação que chega a todos.
IMPRENSA: E qual é a vocação das rádios públicas?
Marilú: A rádio pública tem o papel de transformar a realidade. Quem paga a rádio pública? É você, sou eu, é o povo. Defendo o jornalismo em rádio para transformar. A gente deve ter essa pretensão mesmo. Pode até não conseguir transformar a realidade com todas as matérias, mas você tem que tentar. Acredito nisso porque já aconteceu. E ainda tem a função de colocar essas pessoas pobres, que não tem onde falar, no ar. Sem teto, sem terra, você não ouve esses caras. Às vezes a TV dá uma notícia, mas passa rapidinho, não aprofundam a questão para o público entender e tirar a própria conclusão. Uma rádio pública tem que ser democrática, ouvir todas as camadas da sociedade. Além de ser importantíssima na área cultural, para o cinema, o teatro, a música, a literatura que não tem espaço nas rádios comerciais.
IMPRENSA: E quanto às rádios comunitárias?
Marilú: Também têm um papel muito importante. Se essas pessoas não conseguem falar nas rádios comerciais e não tem acesso às públicas, onde elas vão falar? Tem um juiz mineiro que diz que as rádios comunitárias é que podem fazer a revolução da informação no país. Porque elas é que estão perto da população. Para que elas tenham acesso à informação também, para que elas se conheçam. Tem muita coisa interessante acontecendo na periferia, e eles não têm onde veicular, não tem um meio para se expressar, para se valorizar. Vamos dar valor a essa cultura.
IMPRENSA: A rádio comunitária tem o poder de mudar o meio...
Marilú: Eu nunca trabalhei em rádio comunitária, mas elas têm um caráter mais próximo da população. Alguma coisa que aconteça muito próxima, do tipo “vai ter uma palestra de um médico no posto de saúde”, em meio nenhum seria veiculado. Na rádio comunitária é possível. Heliópolis é um exemplo. Lá existe uma integração com a comunidade incrível. Pelo que eu andei vendo, transforma. Pode não transformar tudo, não é 100% maravilha, mas a gente pode tentar. Muitos tentaram e está dando certo. Essa briga para regularizar essas rádios é um problema no Brasil. Precisaria haver um carinho especial voltado para as rádios comunitárias. Tem tanta rádio que enche o bolso do dono de dinheiro e não presta serviço nenhum. E essas pessoas, que estão prestando um serviço à comunidade, não podem nem ser legalizadas? Tem muita gente que não precisaria ser dona de rádio e é. Vamos encarar o rádio com seriedade...
IMPRENSA: Você tem muitos trabalhos premiados. Como se sente quando recebe um prêmio?
Marilú: Eu fico, primeiramente, agradecida por outros profissionais terem entendido o que eu quis dizer naquela matéria. Quando você ganha um prêmio, te fortalece no próprio meio em que você está. E o meio é reconhecido também, não só eu e a equipe. Então você passa a ter força para sugerir outras matérias. Você tem o respaldo dos colegas, da sociedade. Alguns prêmios, como o Ayrton Senna, tem como júri pessoas que não jornalistas, o que mostra o quanto a sociedade aprova o seu trabalho. Aqui em São Paulo, o primeiro prêmio que eu ganhei foi o Herzog. A partir desse Herzog o Zé Paulo (José Paulo de Andrade) começou “opa, vamos fazer outra, e outra e outra”. Esses prêmios me ajudam a ter força interna no local de trabalho, isso é importante. Agora, quem fica muito feliz com eles é minha mãe (risos).






