Jornalistas superpoderosas IV - Eliane Brum: "É na rua onde o mundo acontece".
Jornalistas superpoderosas IV - Eliane Brum: "É na rua onde o mundo acontece".
O velho ditado "A porta da rua é a serventia da casa" deve soar como música para repórter Eliane Brum, da revista Época . Não que tenha sido demitida das redações por onde passou, mas porque sabe - e afirma - que é na rua onde o mundo acontece. Fora das redações, sai à caça das notícias que os outros jornalistas não vêem. O feeling lhe rendeu mais de 20 prêmios de jornalismo, entre eles os principais do país - Esso, Vladimir Herzog, Ethos e Líbero Badaró.
Na semanal desde 2000, trabalhou na Zero Hora por 11 anos, onde foi repórter especial. Do começo da carreira, lembra de ter que, em meio a uma cobertura de um enchente, procurar, ligando de um orelhão, uma amiga que buscaria sua filha, Maíra, no colégio. Ossos do ofício. De mãe, mulher e jornalista.
IMPRENSA - Você sente que hoje em dia no jornalismo existe equilíbrio entre mulheres e homens nos cargos de chefia?
Eliane - Acho que, nos cargos intermediários, sim. Não tenho nenhuma estatística, mas pelo que eu observo, há tantas mulheres quanto homens como editores em jornais e revistas. Já nos escalões mais altos, acredito que seja diferente. Em geral, só existem mulheres no cargo de diretora de redação em revistas femininas. E certamente não é por falta de jornalistas competentes. Pessoalmente, eu gosto mesmo é de ser repórter. Fiquei quase um ano como editora de Geral, na ÉPOCA, adorei a parte de ficar discutindo pautas com os repórteres e pensando em matérias para fazer, mas senti muita falta da rua e pedi para voltar para a reportagem.
IMPRENSA - Você percebe distorções no tratamento dado a homens e mulheres que exercem a profissão de jornalista? Já foi preferida ou preterida por ser mulher?
Eliane - Em geral, não. O que já me aconteceu algumas poucas vezes foi ser preterida para uma cobertura de risco, fora do país, por ser mulher. Mas foram exceções. Nessas ocasiões, os chefes, homens, estavam sinceramente preocupados com o fato de eu correr mais risco por ser mulher. Ser estuprada, por exemplo. Era uma preocupação por segurança, não uma discriminação por competência. Mesmo assim, uma bobagem. Quem for fazer uma cobertura no Iraque, hoje, pegando um exemplo extremo, não vai correr mais risco por que é homem ou mulher. Na imprensa européia, é corriqueira a presença de mulheres, repórteres e fotógrafas, na linha de frente da cobertura de conflitos mundiais.
IMPRENSA - Você é repórter especial da revista Época. Sendo este um trabalho que toma tanto tempo, você deixa sua vida pessoal de lado? Ou é possível levar tudo numa boa?
Eliane - Acho que a gente vai aprendendo a abrir espaço para tudo. Inclusive para trabalhar melhor. Nos primeiros anos de profissão foi bem mais difícil. Eu comecei como repórter de Geral, aos 22 anos, no Zero Hora, em Porto Alegre. Eu tinha uma filha de sete anos e me lembro de muitas vezes ser mandada para cobrir enchentes em cidades que ficavam a duas, três horas de distância, e não saber se conseguiria voltar a tempo de buscar a Maíra no colégio. Minha família morava no interior e eu não tinha ninguém além de amigos para me socorrer nesses apertos. Lembro de algumas cenas dessas, como eu pendurada num orelhão, naquele tempo não tinha celular, com água até quase a cintura, no meio do dilúvio, tentando achar alguma amiga que buscasse a minha filha no colégio porque eu não sabia que horas conseguiria chegar em casa. Nisso foi mais difícil por ser mulher, porque eu era mãe, era sozinha e ganhava pouco. Tinha de ser repórter, mãe, cozinheira, aquele discurso todo. Meu tempo tinha de servir para muita coisa. Eu e a Maíra acordávamos às 5h todo dia para dar tempo de deixá-la na escola e estar na Redação às 8h em ponto. Eu pegava dois ônibus e mais 15 minutos de caminhada para deixa-la no colégio. Tinha de deixar muito cedo, então muitas vezes a escola ainda estava fechada. Levantava minha filha por cima do muro e a colocava lá dentro. Aí pegava mais três ônibus para chegar ao jornal enquanto ela ficava lá na escola, esperando o porteiro chegar. Ou seja: às 8h da manhã, antes de pegar as três pautas diárias, eu já tinha pegado cinco ônibus. Mas isso não é diferente da vida cotidiana de qualquer trabalhadora, chefe de família, como há milhões no Brasil.
Hoje, a vida é mais fácil e eu fui aprendendo a abrir espaço. Trabalho muito, mas faço muitas outras coisas. E essas várias coisas que eu faço são determinantes para a qualidade do meu trabalho. Não tem nada pior que um jornalista que não sai da Redação ou que só sai da Redação para fazer matéria. Fica burro. Fica achando que o mundo é a Redação e a realidade sai da Redação para o mundo. É a morte. Minhas pautas saem das ruas e não da Redação. É nas ruas que eu percebo o que está acontecendo, o que as pessoas estão sentindo e é onde tenho as melhores idéias. Ouvindo as pessoas, lendo livros, assistindo filmes, viajando ou apenas observando.
De qualquer modo, o trabalho não é um peso pra mim. Eu não gosto de bater ponto, de burocracia, de ter de cumprir X horas para depois ser feliz ou de viver para o fim de semana. A vida pra mim se mistura. Acho que é um privilégio fazer o que a gente gosta num país como esse. E eu adoro ser jornalista. Quando estou em algum fim de mundo, em algum lugar que eu nunca alcançaria de outra forma, ou apenas na casa de alguém onde eu nunca entraria se não fosse jornalista, sou completamente feliz. Me divirto muito trabalhando e sou uma pessoa melhor por conta de tudo que aprendi fazendo reportagem. Quando eu era pequena e avistava uma luzinha acesa numa janela qualquer de um prédio qualquer, ficava imaginando quem estava lá, com o que sonhava, se era feliz. Ser jornalista me deu isso. Eu posso bater naquela porta e entrar. Só isso já é sensacional.
IMPRENSA - A sensibilidade feminina ajuda na apuração de notícias?
Eliane - Não sei se existe uma sensibilidade feminina e uma sensibilidade masculina. Conheço homens extremamente sensíveis. O que tenho certeza é que a sensibilidade, seja masculina ou feminina, faz toda a diferença na apuração. Para mim, uma matéria ou mesmo uma entrevista, metade dela é o que você ouve e a outra metade é o que você percebe. Por isso tento fazer tudo pessoalmente. Gosto de prestar atenção aos detalhes, observar como as pessoas se movem nas diversas situações, como decoram a sua casa ou se vestem (e isso nada tem a ver com ser rico ou pobre), como pegam o cigarro e tratam os filhos, o que faz os seus olhos brilharem. É um mundo de coisas que fala e que é fascinante. Isso faz toda a diferença numa reportagem e isso só se faz com sensibilidade. Eu não faço boas entrevistas porque quero "arrancar" coisas das pessoas, mas porque quero sinceramente ouvi-las, porque não saio da redação com teses preconcebidas nas quais preciso encaixar aspas e pessoas, nem tenho preconceitos. Eu realmente escuto e por isso as pessoas gostam de me contar sua vida. Qualquer entrevista ou matéria é um delicado jogo de sentimentos onde a sensibilidade faz toda a diferença desde o primeiro contato.
IMPRENSA - Em algum momento de sua vida você flertou com o movimento feminista?
Eliana - Não no sentido de uma militância sistemática. Mas as questões de gênero me interessam, tenho algumas fontes excelentes no movimento feminista e meu trabalho tem cruzado muito por elas ao longo dos anos. Faz parte de um contexto mais amplo. Eu sou jornalista porque adoro escrever e sou imensamente curiosa, mas também porque sou idealista. Não acredito em jornalista sem ideal. Sem ideal, as pessoas são corroídas pelo cinismo e os cínicos corroem as redações. São uma praga. Como jornalista me vejo como uma contadora de histórias e, politicamente, escolho as histórias que vou contar. Minha prioridade é sempre ouvir quem não é escutado e dar voz a quem não tem. Se alguém seguir a trilha das minhas matérias, é isso que elas têm em comum. Hoje esse negócio de ter ideal está fora de moda, passa por bobo, mas se alguém me perguntar porque eu sou jornalista, eu vou dar a prosaica resposta de que sou jornalista porque quero mudar o mundo. Nesse sentido, seguidamente minhas matérias passam pelas questões de gênero e cruzam com o movimento feminista. No ano passado, por exemplo, a grande questão de gênero, embora não apenas de gênero, foi a liberação da interrupção da gravidez em casos de fetos anencéfalos (sem cérebro). Em março, fiz a primeira matéria contando sobre o primeiro caso levado ao Supremo e a cruzada religiosa contra o aborto. Esse debate atravessou 2004 e esse início de 2005. É uma questão crucial para o movimento feminista, mas também é uma questão de direitos humanos, da Justiça, de toda a sociedade, na medida em que o que está em discussão é o direito de escolha das mulheres numa situação de extremo sofrimento, que é um feto inviável. E de quais mulheres? Das mulheres pobres, que dependem do sistema de saúde pública para abortar. Nesse sentido, obrigar uma mulher a levar uma gestação inviável até o fim é tão cruel como seria obrigá-la a interromper.
IMPRENSA- Quais mulheres você admira no jornalismo, nos mais diversos setores?
Eliane - Dorrit Harazim, Marília Gabriela, Mara Régia di Perna, Denise Paraná e Rosina Duarte.






