Jornalistas revelam os bastidores das redações na cobertura da tragédia com vôo 3054
Jornalistas revelam os bastidores das redações na cobertura da tragédia com vôo 3054
No último dia 17, a notícia de que um Airbus da TAM com passageiros a bordo teria derrapado quando pousava no aeroporto de Congonhas e, ao bater contra um depósito da empresa, provocado um incêndio de grandes proporções, movimentou as redações dos principais jornais do país.
Desde o final da tarde daquela terça-feira, a população pôde acompanhar pelos meios de comunicação brasileiros todas as providências tomadas pelos órgãos oficiais, o sofrimento dos parentes, a divulgação dos laudos técnicos e até a vida pessoal das vítimas.
O que quase ninguém soube foi a intensa rotina de plantões e trabalho duro que repórteres, editores, fotógrafos, ilustradores e diagramadores tiveram que se submeter para que todos os ângulos da tragédia pudessem ser abordados.
Dificuldades de acesso aos dados e fontes oficiais e estresse pela grande carga emocional foram alguns dos pontos destacados por alguns repórteres que estiveram à frente da cobertura da tragédia com o vôo 3054 da TAM.
Para o jornalista Alencar Isidoro, repórter do jornal Folha de S.Paulo responsável pela cobertura do lado técnico do desastre, o acesso restrito a dados foi o ponto de maior dificuldade em sua apuração. Segundo ele, até mesmo documentos que, em tese, são públicos tiveram seu acesso negado aos repórteres.
"Tem certas coisas que eles não podem divulgar com antecipação mesmo, como o laudo da caixa-preta do avião. Porém, senti dificuldade de acesso a documentos que são públicos. A ANAC não divulga normas técnicas. A Infraero não é transparente. Todos os órgãos do governo são deficientes", disse.
Alencar, que também cobriu o acidente com o avião da GOL no ano passado, disse que esta mesma dificuldade se repetiu nas duas ocasiões. "Nos dois casos foi muito difícil o acesso à informações técnicas. No meio militar é fácil dizer que ocultar informações é postura estratégica", explicou.
Já para o jornalista Bruno Tavares, repórter do jornal O Estado de S.Paulo e também responsável pela cobertura da parte técnica do acidente, houve mudança no acesso às fontes oficiais quando comparados os acidentes da GOL e da TAM. "Acho que as pessoas têm dado mais as caras do que no acidente da GOL. A Aeronáutica, por exemplo, mesmo que não tenha dados precisos, pelo menos fala conosco", defende.
Apesar dos pontos de vista diferentes, os repórteres são uníssonos quando o assunto é a quantidade de matérias e ângulos abordados. Para eles, não há uma saturação de pautas devido às proporções do acidente. "Talvez o assunto se esgote esta semana, mas, por enquanto, não houve uma saturação e, por isso, não é difícil encontrar novas pautas, porque não foi só o acidente. Houve muita repercussão, fechamento da pista e etc", explica o jornalista da Folha .
Mesmo com tanto espaço na mídia, os repórteres contam que muitas histórias ficaram para trás, por falta de tempo ou porque faziam parte apenas dos bastidores das redações. Entre os fatos que não puderam ser estampados nas páginas do Estado , mas que Tavares contou ao Portal IMPRENSA, está o relato do que ocorreu no salão de autoridades na noite em que ocorreu o acidente. "No dia do acidente eu entrei no salão de autoridades. Era um salãozinho contíguo ao auditório em que estavam os parentes das vítimas. Em um dado momento, ouvi um parente falando: 'A gente está aqui vivendo uma angústia e eles se comportando como se estivessem em um encontro'. E era verdade, tinha policiais, vereadores, políticos se abraçando, contanto piada, dando gargalhada", revela o repórter.
O contato com os parentes é um capítulo à parte na cobertura do acidente. Apesar de não estarem envolvidos diretamente nas entrevistas com parentes das vítimas, os repórteres dos dois maiores jornais do país contam que a carga emocional era muito grande na redação e que não foram raros os jornalistas que choraram. "Nunca senti tanta angústia quanto desta vez. Não conversei com nenhum parente, mas a repórter responsável por esta parte aqui na Folha , a cada ligação que fazia, na segunda pergunta ela começava a chorar. E todos os dias ela entrevistava de 10 a 15 pessoas, imagine".






