"Jornalistas foram cúmplices na morte de seus colegas", diz jornalista na abertura do Fórum Liberdade de Imprensa

"Jornalistas foram cúmplices na morte de seus colegas", diz jornalista na abertura do Fórum Liberdade de Imprensa

Atualizado em 06/05/2008 às 16:05, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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O painel "Liberdade de Imprensa e Utopia na América Latina e Brasil", abertura do Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia - realizado nesta terça-feira (06), por conta do Dia Internacional da Liberdade de Imprensa (3 de maio) - contou com a presença de Geraldinho Vieira, da fundação Avina, e da jornalista chilena Monica Gonzalez, idealizadora do Ciper (Centro de Investigación e Información Periodística).

Geraldinho abriu a conferência fazendo referências às ditaduras vividas na América latina, e, para apresentar Monica Gonzalez, declarou que ela era uma das pessoas que tiravam o sono dos ditadores: "por duas ou três vezes ela foi presa e perdeu o direito de exercer a profissão. Mas Monica não é uma militante social, nem uma militante dos direitos da mulher ou dos direitos da infância. Ela é militante do bom jornalismo".

Antes de passar a palavra à jornalista, Geraldinho fez uma provocação: "Na ditadura éramos intimidados politicamente, e, agora que estamos livres disso, a liberdade existe para quê? Estamos respeitando essa liberdade e usufruindo dela como deveríamos?"

Monica começou sua fala dizendo que o jornalismo é a paixão de sua vida. Ela, que sobreviveu ao Pinochet e foi uma das porta-vozes do movimento contra a repressão, se mostrou surpresa com o fato de a América Latina ter passado, nos últimos 30 anos, de um continente dominado pela ditadura para um continente dominado pela democracia.

A jornalista insistiu no fator econômico: "se analisamos o motor da economia durante a ditadura, sabemos que ela apoiou a repressão, e não passou incólume. A primeira remessa de dinheiro para o Pinochet, no dia 13 de setembto, dois dias após o golpe, quando muitos morriam no cárcere, chegou do Brasil. Logo que esse período acabou, o motor da economia se tornou muito mais complexo e sofisticado". E quaetionou: "como o quarto poder, podemos fiscalizar o funcionamento da economia sem conhecimento especializado?"

Para ela, a resposta é não. Monica acredita que o jornalismo deve servir para explicar aos cidadãos como a economia é complexa. "Trabalhamos muito e acreditamos que para sermos felizes precisamos consumir. E o jornalismo deve ajudar o cidadão a entender a economia. Estou cada vez mais convencida que esse cidadão que só trabalha não tem tempo para fazer amor, que na ditadura era um meio contra a repressão", explicou.

"O Brasil nunca ganhou o dinheiro que ganha hoje. O jornalismo deve entender de onde vem essa ganância e explicar ao leitor", disse Monica, que acredita que a profissão requer vontade de trabalhar, estudo e ética. "Fazer jornalismo não requer só valentia. Requer conhecimento e gana para entender que ser jornalista hoje é dez vezes mais importante que ontem, e quem fala isso a vocês é uma sobrevivente".

Outra pergunta de Monica é se os profissionais de mídia fazem um mal jornalismo. Para ela, a resposta é sim, "porque participamos e somos cúmplices de um povo perigoso, os corruptos. Ontem os jornalistas foram cúmplices de assassinatos. Não mataram, mas guardaram o segredo. Com empresas corruptas, cometemos o mesmo ato de cumplicidade", declarou a chilena. Ela também afirmou que é dez vezes mais perigoso fazer jornalismo hoje, por exemplo investigando o narcotráfico, que na época da ditadura.

E qual é o caminho? "É tempo de atuar, estudar, colaborar, tomar a vida e a profissão em suas mãos. Porque o que acontece todos os dias é que o jornalismo parece ser o primeiro poder, e não o quarto. Devemos ter espírito de equipe; o bom jornalismo é a mescla entre a experiêcia e a juventude ansiosa. Estou convencida que fazer jornalismo é um privilégio e uma experiência única, e podemos ajudar a fazer dessa profissão uma das mais dignas", respondeu Monica.

O fórum Liberdade de Imprensa e Democracia é realizado pela revista Imprensa, e tem o apoio institucional da Unesco, ABI, Fenaj, fundação Avina e Faculdade Cásper Líbero.