Jornalistas estrangeiras analisam as diferenças de gênero no Brasil
IMPRENSA conversou com mulheres de outros países que trabalham como jornalistas no Brasil. E elas contam o que acham do preconceito no País.
Atualizado em 24/03/2015 às 09:03, por
Lucas Carvalho*.
O preconceito atinge profissionais das mais diversas áreas, pelos mais diversos motivos e nos mais inusitados lugares. No Brasil não é diferente, e o jornalismo também não foge à regra. Mulheres enfrentam uma série de obstáculos para conquistar respeito na imprensa nacional, e a dificuldade é dobrada quando essas profissionais não nasceram em solo tupiniquim.
“Eu vim morar no Brasil há quase 34 anos, com 26. Muita coisa mudou desde então e a verdade é que passei praticamente toda minha vida adulta aqui. Difícil, então, fazer comparações. Posso dizer que sim, as mulheres são tratadas e vistas de maneira diferente”, comenta a norte-americana Julia Michaels. Jornalista formada em Massachusetts, hoje ela acompanha o dia a dia da capital carioca no blog .
Para ela, há uma questão ainda mais pertinente do que o preconceito com mulheres: a discriminação com estrangeiros. “Tenho a sorte de falar português quase sem sotaque e, assim, ‘passar’. Isso me ajuda muito no meu trabalho. Mesmo assim, muita gente tem uma ideia estereotipada de gringo/gringa, o que é irritante às vezes. E tenho amigos e amigas que sofrem bastante preconceito quanto o interlocutor ouve o sotaque. Tipo: ‘se você não gosta, volte para seu país!’”, comenta a jornalista.
Crédito:Divulgação Julia Michaels
Isso não quer dizer, porém, que o machismo não faz parte da realidade brasileira. É o que pensa a peruana Veronica Goyzueta, correspondente no Brasil do jornal espanhol ABC. “Uma coisa que percebo tanto aqui como no meu país, é que mesmo com uma presença importante de mulheres que se destacam na profissão, há muito poucas em cargos de comando nas redações. Tenho a impressão de que no jornalismo estadunidense, por exemplo, há mais casos de mulheres no comando de redações importantes”, pondera.
Esse tipo de preconceito velado nas redações é um dos motivos que fizeram a francesa Marie Naudascher se mudar para o Brasil. A jornalista, que chegou ao País em 2010 para acompanhar as preparações sociais e econômicas para a Copa do Mundo, acabou escrevendo um livro, publicado na França, intitulado “Les Brésiliens” (“Os Brasileiros”, em português). A desigualdade vista em seu país, porém, se deu ao contrário.
Crédito:Divulgação Verônica Goyzueta
“Eu via muitas mulheres nos cargos que vão menos para a rua, como chefes, etc. E na redação, os repórteres eram mais homens. Na apresentação, na TV, eram mais homens e mulheres de 40, 50 anos, mais experientes. Eu sentia mais preconceito por ser mulher e jovem, e sentia que tinha pouco espaço lá”, revela Marie, que hoje vive em São Paulo (SP). Aqui no Brasil, ela vê a situação inversa. “Tem mais mulheres indo a campo.”
Veronica ressalta, porém, que esse preconceito não é exclusividade brasileira. “Já senti algum tipo de discriminação profissional em um dos veículos em que trabalhei, e não foi em um meio brasileiro, mas internacional. Nesse veículo era notório que homens tinham preferência em cargos importantes. Vi isso mais como uma cultura da empresa que como uma questão do país sede da empresa”, diz.
Vantagens Mas casos de preconceito são raros no cotidiano das jornalistas. Julia, por exemplo, vê com bons olhos a receptividade brasileira para com estrangeiros. “Fui fazer um post no novo empreendimento Ilha Pura, que será a Vila dos Atletas para os Jogos Olímpicos, e me levaram para conhecer tudo como se fosse uma brasileira, sem imaginar o olhar crítico que eu tinha”, comenta a americana, explicando como teve livre acesso ao complexo.
Marie diz que jamais sofreu preconceito no Brasil. Pelo contrário, ela imagina que a disponibilidade de fontes para estrangeiros é até maior do que para repórteres locais. “No dia a dia, as pessoas te perguntam de onde você é, reparam no sotaque, mas nunca para te colocar para baixo. Não pensam ‘ah, você é gringa, vou te enganar’. Às vezes pode acontecer, mas não é regra”, diz.
“Quando eu morei no Rio de Janeiro, fui fazer uma matéria em uma comunidade. O fato de eu ser estrangeira abriu um caminho em vez de fechar uma porta. Fui falar com os meninos que estavam jogando bola, e contei a eles que sou francesa, falei sobre o [ex-jogador Zinedine] Zidane, etc. As pessoas abrem as portas porque querem mostrar lá fora como são as coisas aqui – talvez para uma brasileira isso seja mais difícil”, diz Marie, finalizando: “existe mais reconhecimento do que preconceito”.
#Mulheresqueinspiram
Durante todo o mês de março, IMPRENSA alimentará o site especial "Mulheres que Inspiram", com matérias especiais sobre as mulheres nas redações. Para ler este conteúdo, nos contar e homenagear a mulher que inspira você, basta acessar o site, .
*Com supervisão de Thaís Naldoni






