Jornalistas discutem o papel da imprensa na crise [e nas mudanças] do futebol brasileiro

"O que vem acontecendo nos últimos 20 anos teve apoio de grande parte da imprensa", diz o ex-jogador Tostão.

Atualizado em 29/07/2014 às 16:07, por Lucas Carvalho*.

Meio de campo habilidoso, toque de bola envolvente, uma geração de craques em todas as posições. A receita para um time campeão, ditada pela história da Seleção Brasileira, hoje é seguida por equipes da Europa. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo, por mais dolorida que tenha sido para fãs do esporte, serviu para levantar a questão: o que está acontecendo com o futebol brasileiro?
Crédito:Agência Brasil Jornalistas e comentaristas debatem papel da imprensa nas mudanças do futebol brasileiro
Há tempos, diversos jornalistas esportivos chamam a atenção para o assunto. Mas foi somente depois do Mundial de 2014 no Brasil – após o fim do clima de festa e patriotismo na cobertura da grande imprensa – que os veículos especializados passaram a dar destaque para o debate. Esse envolvimento chama ainda outra questão: como a imprensa pode influenciar nas mudanças que o futebol precisa?
O jornal Lance! decidiu se posicionar publicamente. No dia 16 de julho — três dias após o fim da Copa —, o diário deu início à campanha “#MudaFutBr”, apresentando uma série de propostas destinadas a dirigentes de futebol no Brasil com o objetivo de trazer mudanças para a organização do esporte.
Entre as estão um novo modelo administrativo para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o incentivo à formação de jogadores seguindo uma filosofia de jogo, mudanças no calendário de competições, mais segurança em estádios, entre outras.
“A imprensa não pode ser conivente com algumas coisas. O dever da imprensa, não só a esportiva, é apontar caminhos quando está vendo coisas erradas. E isso é o que o Lance! sempre fez com o esporte”, diz à IMPRENSA Daniel Bortoletto, editor executivo do diário. O jornalista ainda acrescenta que “esse é o momento em que a gente tem que discutir o futuro. O 7 a 1 não foi de graça”.
Resultados
Se a Seleção tivesse vencido a Copa, ou ao menos mostrado um desempenho menos humilhante, o debate teria sido trazido à tona da mesma maneira? Para Vladir Lemos, apresentador do “Cartão Verde”, da TV Cultura, essa é uma boa questão.

Segundo o jornalista, de uma forma genérica, a imprensa esportiva no Brasil ainda é muito pautada por resultados. “A imprensa, de modo geral – ou, pelo menos, os mais reflexivos – sempre disseram que esse não era o caminho, que a volta do Felipão foi feita num momento errado. Mas, por mais que ele não fosse uma unanimidade, depois de ter vencido a Copa das Confederações, a crítica ficou mais branda. E eu também me incluo nisso! Eu acho que a crítica deveria ter sido tão contundente quanto era antes de a Seleção ganhar a Copa das Confederações”, destaca.
Já para o jornalista Anderson Gurgel, professor de comunicação e colunista de IMPRENSA, até mesmo a derrota na Copa pode ter, entre suas causas, a cobertura da imprensa. “No oba-oba de chamar audiência, a gente colocou a Seleção em um patamar que era irreal. Era um time muito frágil, sem peças de reposição para os craques. Deu no que deu. De certa maneira, o jornalismo contribuiu um pouco para o fracasso vendendo um produto aquém da realidade daquele grupo”, afirma.
Dentro de campo
Eduardo Gonçalves de Andrade, o “Tostão”, ex-craque do Cruzeiro, Vasco e da Seleção Brasileira, hoje acompanha o futebol de fora das quatro linhas como colunista da Folha de S.Paulo . Para ele, a imprensa tem tanta culpa na atual crise do futebol quanto dirigentes, técnicos e atletas.
“O que vem acontecendo nos últimos 20 anos, a supervalorização dos técnicos, a maneira de jogar dos times etc. teve apoio de grande parte da imprensa. Muitos aplaudiram tudo o que estava sendo feito no futebol brasileiro. Tem uma turma grande aí que agora está criticando, mas que sempre elogiou. Isso contribuiu para que as pessoas achassem que estava tudo bem”, reflete o ex-atleta.
Para Tostão, é muito difícil que as cobranças da imprensa esportiva reflitam em mudanças reais dentro de campo. Porém, não é impossível. “Os que têm que decidir – técnicos, dirigentes, jogadores –, alguns deles são mais influenciados pela imprensa do que outros. Mas a influência é pequena. Na maioria das vezes, eles têm o hábito de desprezar as críticas, as acham injustas. Mas quando alguém elogia, acham aquilo espetacular”, diz.
Para o futuro
Durante a Copa, a lguns atletas brasileiros criticaram o discurso da imprensa dizendo que os jornalistas “não apoiam” a Seleção como em outros países. Para Ubiratan Leal, editor-chefe do portal Trivela, não é papel dos veículos esportivos “levantar a bola” dos futebolistas. Pelo contrário: “o papel da imprensa, em qualquer área, é criticar”.
“O Dunga [novo técnico da Seleção], falou na coletiva de apresentação que a federação alemã pedia para a imprensa agir ‘assim, assado’ e a ela respeitava. Foi meio que dizendo: ‘ó, joguem junto com a gente’. Mas não acho que seja assim. Acho que a imprensa não pode atrapalhar, não pode tentar invadir treino secreto, esse tipo de coisa. Mas tem de ser crítica. Se o time jogar mal, tem que criticar”, ressalta.
Imediatamente após a Copa, as cobranças não têm surtido efeito. Para Vladir Lemos, a escolha do novo treinador reflete apenas o interesse da CBF em “levar o futebol brasileiro para águas mais calmas” e não em iniciar mudanças reais.
“Fica muito claro para mim que a escolha do Dunga nesse momento é porque eles precisavam de alguém para ficar na linha de frente enquanto eles [CBF] estão sendo alvejados pela imprensa. E o Dunga se prestou a esse papel”, comenta.
Anderson Gurgel finaliza dizendo que, antes de cobrar mudanças no futebol, a imprensa deve olhar para si e fazer uma autocrítica. “O que falta ao jornalismo esportivo brasileiro é um propósito que vá além do espetáculo. Emissoras como a Globo, que possuem direitos de transmissão e querem fazer um ‘show’, tudo bem. Mas e as empresas que deveriam fazer jornalismo, por que elas não fazem?”, questiona.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves