"Jornalistas devem pensar sobre suas fontes", alerta presidente da Fenaj sobre espionagem
O ano de 2013 teve como um dos eventos de maior repercussão no noticiário as denúncias – inclusive por vazamentos ilegais – de espionagem en
Atualizado em 27/12/2013 às 14:12, por
Maurício Kanno.
"Jornalistas devem pensar sobre suas fontes", alerta presidente da Fenaj sobre espionagem
tre governos e sobre cidadãos. Neste contexto de forte uso das tecnologias digitais, Celso Schröder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e vice da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), concedeu entrevista à IMPRENSA para analisar como o cenário impacta os profissionais do setor.Crédito:Sindjorce Celso Schröder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e vice da Federação Internacional de Jornalistas
Para ele, uma das principais conclusões é de que se quebrou a ingenuidade de que o mundo digital, utilizado amplamente para busca de dados por governos, seria “de esquerda”.
*** IMPRENSA - O que muda para o jornalista nestes tempos de espionagem digital e suas conexões com grandes empresas como Google e Facebook? No que isso impacta o jornalista, com riscos e pautas obtidas?
Celso Schröder – Acho que se exige um cuidado redobrado. Os jornalistas devem pensar sobre suas fontes. As espionagens viram fontes, mas toda fonte tem interesses. E a regra número um do jornalista é não se deixar ser usado por suas fontes. A espionagem eletrônica, aparentemente, é boa para o jornalismo investigativo, mas isso exige um cuidado para não fazer na verdade um jornalismo de dossiê. Ou seja, em vez de se fazer uma investigação, apresenta-se aquela que lhe foi mostrada, legal ou ilegal (espionagem), legitimando-as e dando-lhes dimensão pública. Mas é preciso ter atenção ao fato de que podem ter interesses privados.
A função do repórter então é não endossar automaticamente esses materiais, como fonte primária, sem ingenuidade. Nas últimas denúncias que o país tem atravessado, é preciso ter essa preocupação. Tal dossiê atende a que partido ou facção?
Um clássico internacional foi o Wikileaks, saudado aqui como um símbolo ímpar da liberdade de expressão. Foi tratado como fonte, não como parceiro. Entretanto, dos jornais que publicaram seu conteúdo, ninguém se perguntou: "a quem ele serve? Quem ganha e quem perde com suas revelações? Seria o grupo Tea Party, da ultra-direita norte-americana?"
Hoje, há uma grande quantidade de dados na mão da imprensa. E de dados legais até. Há jornalistas se especializando nisso. Com isso, vem seu papel fiscalizador - que não pode ter objetivo só de culpar governo. E também podem vir dados de outras fontes mais delicadas, mas concluir-se que algumas informações sejam de interesse público. Vai do jornalista decidir isso, segundo sua análise. Nesse caso, o sigilo de fonte deve ser ainda uma prerrogativa do profissional.
O que muda nesta espionagem contemporânea? Afinal, espionagem existe há séculos, desde o Império Romano, por exemplo. Esses procedimentos seriam algo simplesmente funcionais e naturais em relações internacionais?
Sem dúvidas. Se compararmos com a época da Guerra Fria, nos anos 1960, quando era determinante para as forças da época, a espionagem diminuiu se comparamos com hoje. Tanto que ficamos com James Bond como herói desse tempo. A ideia era: “preciso saber coisas sobre os outros senão serei destruído.” Agora isso parece fazer menos sentido. É claro que os interesses dos Estados continuam e se nossa presidente é espionada, temos que dizer não.
É claro que uma diferença importante é o uso das tecnologias de hoje. Um dos últimos filmes de James Bond ilustra de modo soberbo uma situação curiosa da modernidade. Ele enfrenta um tipo novo de vilão, um hacker, que faz uso intensivo das novas tecnologias. Mas o herói vence de forma tradicional, com uma faca.
Há riscos para o jornalista que precisa ter mais cuidados neste cenário? O que pode fazer?
Nosso período é mais perigoso para o jornalismo. Há tantos dados, sigilosos ou não, e precisamos tratá-los, mediar sua relação com o público. O que protege os dados hoje? São tantos que se tornam até cifrados. Somos então os mediadores.Há um perigo na velocidade atual de transmissão de dados. Ela pode seduzir os profissionais de imprensa que acabam por tentar apenas reproduzi-los, tentam reproduzir a velocidade dos dados das redes sociais. Mas não temos essa capacidade. O jornalista está perdido se for tentar fazer isso. O ideal é a interpretação e o olhar desconfiado. E lembrar que a espionagem pode ter sempre interesses privados por trás.
Os Estados Unidos demonstram maiores violações em relação a outros governos? Ou isso seria apenas proporcional em relação ao seu poder tecnológico e econômico?
Os Estados Unidos têm condições de estabelecer suas espionagens sobre todo o mundo, um campo todo que é de seu interesse, ao contrário do Brasil, que teria uma esfera mais limitada. E os EUA usam seu aparato tecnológico para isso. Mas é certo o Brasil reagir a isso quando aparece alguma demonstração de que isso ocorreu. Existe, mas é desleal. É preciso rechaçar a atitude, defendendo a ideia de país e nação se algo nos atinge.
No entanto, quando nos aparecem denúncias sobre as ações norte-americanas, também é preciso pensar a quem elas interessam. Ainda que não se possa atribuir ao presidente Barack Obama um caráter de redentor e socialista, que nem conseguiu instalar um sistema de saúde, há também interesses conservadores e reacionários contra ele.
De todo modo, serviço de inteligência qualquer país tem que ter, inclusive o Brasil. Faz parte de um jogo internacional de diferentes pesos. Lembrar que a tecnologia foi criada nos Estados Unidos inclusive para isso mesmo.
Uma das principais conclusões de hoje é que se quebrou a ingenuidade de que o mundo digital, utilizado amplamente para busca de dados por governos, seria “de esquerda”. Não. É simplesmente uma Ágora [ espaço público e símbolo da democracia grega] digital.
O que a Fenaj tem feito nesta situação?
Temos feito vários movimentos para lidar com essa complexidade. Não são bandeiras ideológicas que vão resolver. Mandamos rechaço à espionagem americana sobre o Brasil, pois a identificamos como colonialismo antigo e superado.
Temos trabalhado essa questão de que as tecnologias seriam redentoras, momento de liberdade para a informação. Isso seria ingenuidade. Há entropia [desordem, imprevisibilidade] nessa grande emissão de informações, o que também é uma forma de manter segredos. Buscamos enfatizar que a ferramenta não é o mundo, mas apenas uma construção técnica.
Além disso, temos acompanhado as agressões a jornalistas. Esses ataques são algo constrangedor. Até via Federação internacional de Jornalistas, da qual também faço parte, temos insistido na segurança a eles, que são até garantia da sociedade de uma melhor relação público-privado.





