Jornalistas denunciam hostilidade policial durante ato contra a Copa em SP

"Existe alguma coisa muito errada em uma sociedade quando a imprensa é impedida de fazer o seu trabalho". A frase é da jornalista

Atualizado em 25/02/2014 às 14:02, por Alana Rodrigues*.

"Existe alguma coisa muito errada em uma sociedade quando a imprensa é impedida de fazer o seu trabalho". A frase é da jornalista Amanda Previdelli, do Brasil Post, que acompanhou o protesto contra a Copa do Mundo no último sábado (22/2), no centro de São Paulo. Ela foi um dos alvos dos Policiais Militares, que prenderam e agrediram pelo menos 14 profissionais de imprensa, segundo dados da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Crédito:Amanda Previdelli Jornalistas contam como foram agredidos pela PM durante cobertura de manifestação
Em publicado no Brasil Post, onde atua como editora de "País", a repórter relatou, em detalhes, o que presenciou. "Eu vi jornalista apanhando muito depois de ter se identificado como jornalista. Vi fotógrafo cuja única arma era uma câmera de lentes longas".

À IMPRENSA, ela disse que levou uma escudada na nuca, o que considera como uma ação mais branda, pois viu seus colegas apanharem, além de serem detidos. Amanda acredita que a agressão foi intencional porque os policias sabiam que ela era jornalista.
A repórter também contestou a explicação do coronel da PM, Celso Luiz Pinheiro, que alegou ser difícil separar manifestantes de jornalistas em virtude do grande número de pessoas e de equipamentos de segurança. Segundo ela, era possível diferenciar claramente os profissionais de imprensa.

Para Amanda, a impunidade desses casos é um dos motivos pelos quais jornalistas ainda são agredidos nos protestos. “A gente precisa ter apuração, investigação e punição desses policiais. Inclusive de casos do ano passado”, pondera.

Barreiras do relato

Em sua página no , o jornalista Sérgio Roxo, do jornal O Globo , relatou como foi a agressão sofrida por ele. No texto, aponta que apesar de ter se identificado como repórter, um PM o agrediu para tirar o celular de suas mãos.

"Eu estava filmando com o celular a revista de policias da tropa ninja a um manifestante, quando um PM começou a gritar dizendo que não podia registrar aquela cena. Com crachá d' o Globo no pescoço, rebati afirmando que estava apenas fazendo o meu trabalho. Em seguida, um outro policial se aproximou e deu um tapa no meu braço pro celular cair no chão. O vidro rachou. Ainda consegui abaixar pra pegar o aparelho. Quando me levantei, um PM da tropa ninja me imobilizou pelo pescoço e me puxou por cerca de 20 metros", conta.

“Sou jornalista, estou de crachá”, defendeu. “Foda-se”, rebateu o PM. Sérgio afirmou que começou a gritar e disse que iria denunciá-lo na corregedoria. O policial então o levou para onde estavam sendo mantidos os manifestantes detidos.

Em seguida, um oficial se aproximou do jornalista e pediu para que ele se acalmasse. Roxo relatou o ocorrido e obteve a resposta de que, no momento, não dava para saber se ele realmente era repórter. O oficial se desculpou e disse que eles eram "parceiros e amigos" porque estavam tentando impedir depredações de patrimônio público.

“O oficial me acompanhou até a parte externa do cordão de isolamento formado pela Tropa de Choque e pude continuar o meu trabalho. Não sofri ferimentos, só o pescoço e o ombro direito doem um pouco”, destacou.

O repórter fotográfico, Bruno Silva, do Terra, também foi outra vítima. Ele sofreu uma torção no pé e teve de ser levado ao hospital. Em nota, o portal informou que, segundo relato do profissional, durante um momento truculento de confronto entre polícia e manifestantes na rua Coronel Xavier de Toledo, no centro da cidade, um manifestante caiu em cima dele e o derrubou, ocasionando a lesão.

Momentos depois, um policial militar deferiu golpes de cassetete em sua mochila que acabaram danificando seu equipamento de trabalho. "O Terra informa que está tomando as devidas providências em relação ao incidente, bem como prestando toda a assistência ao fotógrafo. O Bruno passa bem e esta se recuperando em casa", acrescentou.

Cenário de Guerra

IMPRENSA apurou ainda que um dos repórteres da Folha de S.Paulo , Reynaldo Turollo, sofreu agressões por parte de PMs justamente por cobrir o ato. O profissional estava junto ao grupo de movimentos sociais, que tradicionalmente não promovem vandalismo. No momento em que ocorreu o cerco, antes mesmo de qualquer ato dos manifestantes, os policiais mandaram que eles se sentassem, mas não havia espaço, uma vez que foi tomado pela operação, que envolveu uma grande quantidade de pessoas.

Apesar da alegação de ter sido confundido com black bloc, o jornalista portava crachá, um bloquinho e uma caneta na mão. A surpresa veio quando os policiais começaram a selecionar participantes para a revista, feita de forma arbitrária. Eram escolhidas pessoas de estilos considerados 'diferentes' ou do sexo feminino.

Além disso, todos tomavam uma gravata assim que levantavam. O repórter tentou registrar a ação, mas foi repreendido por um policial, que o agrediu, arrastando para fora do cerco e o jogando-o na calçada. A hostilidade apenas cessou quando outros policiais foram ao encontro ao profissional e fizeram com que o colega parasse. O policial se desculpou e liberou o jornalista, que ficou impedido de trabalhar por 50 minutos.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.