Jornalistas da "geração Y" acreditam que as pessoas se cansarão do “caos” de informação
IMPRENSA perguntou a jornalistas nascidos em diferentes gerações como era o jornalismo quando começaram, como avaliam a profissão hoje e como a imaginam futuramente.
Atualizado em 28/08/2014 às 17:08, por
Jéssica Oliveira.
Os jornalistas ouvidos são ; ; Mauri Konig e Daniel Castro, da "X" (de 1965 a 1978); Bruno Ferrari e Carolina Ercolin, da "Y" (de 1980 a 1990); Bruno Rodrigues e Gustavo Torniero, da "Z" de 1990 a 1999).
Bruno Ferrari: “O jornalismo vai sair desse momento de transição para ter a importância que sempre teve e recuperar os leitores perdidos nesse montante de informações"
Crédito:Arquivo pessoal Ferrari sempre sonhou fazer carreira em redação Com dez anos de carreira recém-completados, Bruno Ferrari lembra que quando começou no jornalismo, em 2004, ainda estava na faculdade e era incentivado a trabalhar na mídia impressa. Na Cásper Líbero, onde se formou, havia até ‘corrida’ para ver quem ia para revista ou jornal.
“Meu sonho era trabalhar na Abril e eu fazia todas as provas de estágio. Invejava meus colegas que já tinham arrumado estágio na Folha , no Estadão ... Quando consegui meu estágio na Info , fiquei superfeliz porque sempre quis fazer carreira em redação, prioritariamente em revista. É o que o que eu gosto de fazer”, diz. E o que faz até hoje. Após passar por publicações de economia e tecnologia, como Info e Exame , Ferrari atualmente é editor da revista Época .
Nesses anos de carreira, Ferrari viu algumas transformações tecnológicas que causaram uma mudança profunda na forma de fazer e consumir jornalismo.
“Quando comecei acho que não tinha nem o Orkut. As pessoas fumavam dentro da redação, era um ambiente mais old school. Também lembro da primeira vez em que escrevi uma nota do smartphone e achei aquilo do c****’”.
Se quando ele começou o Orkut engatinhava no Brasil, hoje, diante de redes sociais como Facebook, Twitter, Instagram e por aí vai, o jornalista pode estar a três cliques de uma informação ou mesmo de um personagem.
“Tem até editorias e repórteres especializados que passam o dia vasculhando as redes sociais, para ver o que fulano falou etc. E antes, se você publicava uma matéria, o máximo que ia receber era um e-mail, uma carta ou ver a matéria discutida na mesa do bar. Hoje você posta, já tem um monte de gente comentando e você pode interagir na hora”.
Mas também nesses mesmos dez anos, o jornalista viu a crise atingir em cheio os meios de comunicação, principalmente a mídia tradicional, e a palavra passaralho (demissão em massa de jornalistas) tornar-se quase comum. “Não que hoje meu grande sonho de vida não seja continuar na redação, mas você tem que começar a olhar para outros cantos, ter um plano B”, diz.
Por enquanto, firme e forte no plano A, ele acredita que o jornalismo ainda passa pela transição causada pelo avanço da tecnologia e que num futuro breve essa "fase ruim" deve acabar. Assim como Mauri König, para ele a qualidade do conteúdo vai fazer diferença e o jornalismo vai submergir desse mar “de tudo que é tipo de informação” que a internet virou.
“As pessoas vão se cansar de tanta besteira, informação desencontrada, desse caos e não vão mais ser obrigadas a ter contato com elas sem um filtro. O jornalismo vai deixar de viver esse momento de transição para ter a importância que sempre teve e recuperar os leitores que estão perdidos nesse montante de informações”.
Carolina Ercolin: “Desejo o equilíbrio da cadeia. Do hardnews ao jornalismo investigativo, literário e documental. Há espaço para todos”
Crédito:Divulgação Carolina começou a carreira aos 20 anos de idade Detalhista e observadora, a repórter e apresentadora na Rádio Bandeirantes Carolina Ercolin descreve com riqueza como era o dia a dia da profissão, as ferramentas à disposição e até a mesa no seu primeiro emprego como repórter na Rádio ABC, na Grande São Paulo, em 2000.
“Eu cursava o segundo ano da faculdade. Ao ser contratada, recebi um caderno para escrever minhas matérias, um bloco de notas, canetas, um gravador e uma fita K7. A mesa, decorada com apenas um porta lápis, seria dividida com outro colega, assim como as gavetas”, diz.
Ela conta que computador e celular da empresa eram artigos de luxo. Para entrar ao vivo da rua, por exemplo, era preciso usar um sistema de rádio instalado no carro, chamado HT. Na redação, os dois e únicos computadores eram apenas para editar as entrevistas que iam ao ar. A internet ainda “era discada e lenta”. O Google era o repórter, que para buscar informações sobre qualquer assunto gastava o dedo no telefone e fazia seu próprio arquivo com recortes de jornal.
Segundo a repórter, a transição para a rotina “cheia de facilidades” de hoje foi rápida e tranquila. A "maior" mudança para ela talvez seja a forma de encarar a profissão, pois no começo da carreira sonhava bastante. “As matérias eram bordadas com poesia. Nariz de cera e ingenuidade para dar e vender. Mas o tempo e a experiência precoce na área trouxeram grandes e importantes lições”, diz.
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Prestes a completar 15 anos de carreira, Carolina avalia que uma parte importante do jornalismo se perdeu na mistura do fluxo de informações com a cobrança da sociedade para opinar sobre tudo. Para ela, o resultado é uma cobertura sem profundidade. “Sinto falta desse “tempo” para investir em notícias frias, matérias elaboradas, exclusivas, cavadas com paciência. Estamos deixando de lado histórias longas – e nem por isso menos valiosas”, diz.
Por tudo isso, se ela pudesse trocar conselhos consigo mesma lá atrás, aos 20 anos, haveria um equilíbrio nos pontos de vista: “Menos romantismo, mais pragmatismo”, mas “Não esqueça do romantismo para não ser pragmática demais”.
Confira amanhã os relatos dos jornalistas Bruno Rodrigues e Gustavo Torniero, da geração "Z", nascida nos anos de 1990 a 1999.
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