Jornalistas conseguem contrapartidas maiores em acordos coletivos

Na linha de frente para levar informações sobre a pandemia de coronavírus, jornalistas de diferentes veículos têm enfrentando redução salarial de até 70%, com base na medida provisória 936 que permite que as empresas façam cortes de salário e jornada por até três meses.

Atualizado em 18/05/2020 às 19:05, por Redação Portal IMPRENSA.



Em entrevista ao Portal Imprensa, Paulo Zocchi, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), faz um balanço das propostas feitas até o momento e conta que os acordos coletivos conseguiram contrapartidas maiores para a categoria.
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Qual é o balanço que o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo faz dos acordos de redução de salário e jornada até o momento? É uma situação muito difícil para a categoria porque a MP 936 permite o acordo individual, que é perversa. O RH da empresa manda um acordo para o trabalhador e ele tem a opção de assinar ou não. Não tem negociação nenhuma. Resultado: a única empresa que efetivamente fez um acordo coletivo de redução de 25% foi o Estadão, que teve uma mobilização intensa e conseguiu contrapartidas maiores, como uma indenização maior em caso de demissão, plano de saúde até o final do ano, o pagamento de gastos extras no home office e o controle do ponto, que é uma coisa que os profissionais exigiam, ainda mais com redução de jornada.

Qual é a opinião do sindicato para esses acordos? Jornalismo na pandemia é atividade essencial e os jornalistas, mesmo em home office, estão trabalhando mais e alguns têm que sair do isolamento social e ir para a redação ou reportagem, correndo risco de contágio. Somos muito críticos à redução de salário porque as empresas, de maneira oportunista, sem explicar nada, sem mostrar nada, simplesmente reduzem sua folha de trabalho, dividindo com os empregados o custo da travessia do deserto da pandemia. Eventualmente, empresas têm como financiar questões desse tipo. Já o assalariado, em geral, não tem. Ele se endivida, tem que ir ao banco, deixa de pagar a escola do filho, atrasa o aluguel... A gente acha que essa medida conspira contra o jornalismo porque o profissional, que está num momento de trabalho extremo, se vê atingido pela redução de salário que desestabiliza a vida e, logo, o trabalho dele. Justamente nesse momento que a importância do jornalismo está ressurgindo, depois de um certo período de império das fake news. A sociedade está vindo para o jornalismo se informar e os meios de comunicação estão tendo aumento de audiência, de procura por site.
E como está a situação da Folha de S.Paulo? A empresa Folha da Manhã mandou para o sindicato uma proposta de redução de 25% do salário dos jornalistas da Folha, ou seja, da redação da Folha, do Agora e de suas sucursais, com base na minuta do acordo feito com o Estado de São Paulo. A princípio, o sindicato se opõe à redução de salário, mas a primeira discussão que qualquer assembleia de jornalista faz é a seguinte: negociamos ou nos opomos de maneira cabal à redução de salário. Se a gente se opõe, a discussão é “temos força para todo mundo junto boicotar a adesão individual”? Ou vamos negociar uma proposta de redução? Os jornalistas da Folha, tal como os do Estadão, decidiram que não têm condições de resistir a pressão do acordo individual. Então, entramos numa negociação, com a mesma proposta do Estadão. A partir daí, o sindicato abre para propostas e debates. Os profissionais da Folha foram discutindo contrapartidas que eles achavam justas e desenvolveu-se, então, um documento com 22 contrapartidas, que estão em processo de negociação. A Folha propõe que a redução se dê a partir de 1 de junho. Temos uma janela de negociação para poder reunir. A assembleia que fizemos foi virtual, de mais ou menos uma hora e meia, e contou com a participação de 200 jornalistas.