Jornalistas acreditam em exagero na cobertura do "Caso Isabella"
Jornalistas acreditam em exagero na cobertura do "Caso Isabella"
Há mais de um mês, todos os dias, sem descanso, a mídia toca no nome de Isabella Nardoni, morta poucos dias antes de completar seis anos de idade, ao ser jogada do 6º andar de um prédio, em São Paulo (SP), após ter sido espancada. Segundo a investigação policial, os principais suspeitos - e agora réus - são seu pai e sua madrasta.
Embora seja, de fato, um caso chocante, o que aconteceu com Isabella não foi propriamente uma novidade no Brasil. Estimativas baseadas na experiência americana dão conta de que cerca de 400 mil a meio milhão de crianças menores de quatro anos são espancadas por ano no país. Destas, 40 mil ficam em estado grave e quatro mil morrem, segundo informações da ANDI, repassadas pelo médico Wilmes Roberto Teixeira, que trouxe para o Brasil o conceito de Síndrome do Bebê Espancado (Sibe).
De acordo com o levantamento do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), entre os anos de 1999 e 2007, 159.754 crianças de até 14 anos de idade sofreram agressões domésticas. Violência física responde por 49.482 casos. Ressalta-se que estes números se referem apenas às agressões denunciadas. A maior parte delas sequer chega a ser registrada.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) completa os dados, apontando que, em 70% dos casos de violência infantil, os agressores são os pais biológicos. Ainda segundo a entidade, uma criança morre por hora, em todo o mundo, vítima de episódios de tortura, em que os algozes são os próprios pais.
Analisando os dados acima, algumas perguntas são inevitáveis: por que o crime cometido contra Isabella Nardoni despertou tanto interesse da mídia? Afinal: o interesse público motivou o trabalho da imprensa na cobertura do assassinato de Isabella? Ou foi a cobertura da imprensa que desencadeou o interesse da população?
O fato é que, independentemente de quem veio primeiro, ovo ou galinha, o caso é um forte chamariz de audiência. Na noite do último domingo (11/05), a exibição de uma entrevista exclusiva feita com Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella, levou o programa "Fantástico", da TV Globo, a alcançar a maior audiência do ano: foram 33 pontos de média, com 43 de pico registrados no momento da entrevista. A média anual registrada no ano passado pelo programa foi de 28,2 pontos.
Jornalistas de vários veículos foram ouvidos pelo Portal IMPRENSA e analisaram as críticas de que a imprensa estaria exagerando na quantidade e ênfase dadas à cobertura, com menos qualidade do que o desejado.
Houve exagero?
O interesse do público nos desdobramentos da história é a principal justificativa da mídia para a cobertura enfática do tema. "Na medida em que um caso desse vai tomando a proporção que tomou, a necessidade de deixá-lo sempre em destaque pode gerar exagero, tanto no tamanho da cobertura quanto nos detalhes dela", disse Daniel Torres, editor de "Brasil" do IG.
Márion Strecker, Diretora de Conteúdo do UOL, também acredita que tenha havido exageros e critica o sensacionalismo das emissoras de TV em horários pouco recomendados. "Creio que o caso Isabella foi coberto com exagero e com sensacionalismo por boa parte da imprensa e das emissoras de televisão, inclusive em horário de programação infantil".
Affonso Nunes, sub-editor de "País" do Jornal do Brasil , crê que crimes em que os envolvidos são da classe média despertam mais interesse. "Obviamente, o crime foi bárbaro, mas temos muitos outros assim. Crimes de classe média sempre chamam mais atenção". Para ele, embora haja uma curiosidade natural da população, a televisão acabou transformando o caso em um show. "Aquele plantão todo na casa das famílias, isso cria uma comoção, essa exaustão de depoimentos de pessoas que começam a chorar mobiliza a população. E inevitável. As pessoas querem ter as perguntas respondidas".
O jornalista Boris Casoy, apresentador do "Jornal da Noite", na Band, analisou o caso após a exibição de matéria que mostrava outro crime tão brutal quanto, mas no qual os envolvidos eram de origem mais humilde. "Tragédias como essa, quando acontecem nas camadas menos favorecidas da população, quando chegam à imprensa merecem apenas um pequeno registro da imprensa. Na verdade, há muitos casos 'Isabella' pelo Brasil afora, mas o que mais sensibiliza a imprensa é quando o caso atinge alguém da classe média, como uma identificação, já que a maior parte dos jornalistas pertence à classe média".
Novela na vida real
Na televisão, o acompanhamento do "Caso Isabella" ganha contornos de novela. Capítulo a capítulo, personagem a personagem, todos são acompanhados por dezenas de repórteres, que se apertam nas portas de delegacias, em frente à casa da família Nardoni, da família Jatobá e buscando, a todo custo, flagrar uma lágrima e ouvir uma declaração mais ácida que parta da mãe da menina. Fernando Mitre, diretor nacional de Jornalismo da Band, atenta à diferença do que é interesse público e o que é de interesse "do" público. "A cobertura deve ser feita dentro de critérios que considerem mais o interesse público e não propriamente o interesse do público. Atender apenas a curiosidade popular visando obstinadamente a subir a audiência não é o caminho adequado".
Alexandre Carvalho, chefe de Redação do Telejornalismo do SBT, diz que o crime contra Isabella é de interesse público, mas analisa a origem da comoção. "Me pergunto se não é a própria cobertura exagerada da mídia que gera a demanda por notícias. Aqui no SBT, por várias vezes nos reunimos para discutir os encaminhamentos das reportagens, para mantermos a conduta ética, sem em momento algum atribuirmos juízo de valor sobre os possíveis culpados".
A TV Globo também tem dado grande destaque ao caso. De acordo com a Central Globo de Comunicação, as características do crime suscitaram o interesse da população e a atenção da mídia. "A atenção da imprensa é proporcional ao interesse que o caso despertou na população. Os desdobramentos do episódio despertaram a curiosidade sobre a investigação policial, sobre a reação das famílias da menina morta e o acompanhamento dos principais personagens da história tornou-se obrigatório por parte da imprensa", disse em comunicado enviado à IMPRENSA.
O interesse público e o interesse das autoridades policiais são destacados pelo advogado Cláudio José Langroiva Pereira, professor de Direito Processual Penal e de Legislação em Jornalismo da PUC-SP. Segundo ele, a mídia, com dados vazados em mãos, fazia seu trabalho de divulgar informações. "Além do interesse público, as autoridades policiais vazaram dados que deveriam ser mantidos em sigilo", disse. "Com a informação disponível, a imprensa fez seu papel de veicular", ponderou.
Tomando cuidados para que não condene pessoas de antemão, como aconteceu no histórico caso da "Escola Base", a imprensa busca não especular, mas se basear única e exclusivamente no que é divulgado pela polícia, ainda que exista a eterna briga pela informação exclusiva.
Como balanço positivo, no entanto, a ampla cobertura serviu como estopim para que pipocassem matérias sobre violência infantil em diversos veículos de comunicação brasileiros. Ainda que ainda não passem de notinhas, que não chegam nem a uma pequena parte da luz dada a Isabella Nardoni, o fato pode representar ao menos uma lâmpada no escuro túnel que abriga tantos casos semelhantes, que acontecem sem que haja qualquer investigação ou mesmo uma denúncia.
Colaboração de Ana Ignácio e Karina Padial/Redação Revista IMPRENSA






