Jornalistas abordam dificuldade de conscientizar leitores e a si próprios sobre pautas ambientais

Jornalistas abordam dificuldade de conscientizar leitores e a si próprios sobre pautas ambientais

Atualizado em 17/03/2008 às 16:03, por Thaís Naldoni/Redação Portal IMPRENSA.

Por

A dificuldade em colocar na mídia matérias que conscientizem a população com relação ao meio-ambiente e, com elas, conscientizar os próprios jornalistas da importância de se tratar tal assunto é o tema do painel "Água na pauta: entre o descaso e o algarismo", que contou com a participação dos jornalistas Neide Duarte (TV Globo), Marcelo Leite ( Folha de S.Paulo ) e Ricardo Carvalho (Mercado Ético), com mediação de Maura Campanilli (Ofício Projetos Especiais).

Neide Duarte salienta que os jornalistas pecam por raramente convocar as pessoas à reflexão. "A mídia nunca convoca para o pensamento, sempre circula os mesmos valores. É importante que se mostre que a questão da água é fundamental, não só no mundo, mas, sobretudo, na cidade de São Paulo. Se perdermos a represa de Guarapiranga, por exemplo, teremos que pegar água no Vale do Ribeira, e esse processo é muito caro", pondera.

A jornalista alerta que para tratar de água é preciso que se faça campanhas, que se crie adeptos. "Estamos vivendo uma situação gravíssima e a gente não fala disso. Normalmente, a água só se torna notícia quando falta ou quando há enchentes". Neide lembra que a autonomia do jornalista é quase nenhuma, mas dá sua receita. Eu trabalho por frestas. Quando enxergo, não consigo deixar para trás. Assim, trabalho, apuro e cavo o espaço".

Fora do radar

Já Marcelo Leite, da Folha , alerta que a água não está no radar da imprensa. "A gente mora em uma cidade em que a água sumiu da paisagem", disse. Leite lembra que a água era um fator fundamental na composição da cidade. "Os rios eram os vetores na paisagem em São Paulo e o cidadão perdeu essa referência. Cabe ao jornalismo recuperar essa dimensão simbólica das águas".

Para Leite, é impossível que um jornalista cubra bem o meio-ambiente sem "esposar" a causa de alguma forma. No entanto, ele deve ter informações e manter o distanciamento necessário para que faça uma cobertura isenta, que mostre os dois lados e que sirva de base, efetivamente, para formação e conscientização do leitor".

Água também é boa notícia

O hábito que tem a imprensa de priorizar a publicação de matérias com viés negativo, porque teoricamente vendem mais jornais, é criticado pelo jornalista Ricardo Carvalho do Mercado Ético. Segundo ele, a pauta água só será tratada devidamente pelos jornalistas quando eles próprios se conscientizarem dos problemas ambientais. "A descrença do cidadão, e nisso incluímos os jornalistas, é muito grande. A maior parte das pessoas não acredita na dimensão do impacto que os problemas ambientais podem causar e nem que estamos em uma situação limite".

Para Carvalho, o caminho para a mudança deste cenário é que os jornalistas estudem e se interessem mais pelo tema. "A história é muito mais do que economia de água. Se o jornalista não estudar, não se conscientizar, obviamente, ele não saberá informar a população e fazer com que as pessoas se conscientizem".

O 5º fórum "Água em Pauta" acontece nos dias 17 e 18 de março. É realizado pela revista IMPRENSA, com patrocínio da Sabesp, Secretaria de Saneamento e Energia e do Governo do Estado de São Paulo, nas dependências do Hotel Jaraguá, no centro da capital paulista.