Terça-feira, 13 de outubro de 2026 ■ MPJ · Mais Pelo Jornalismo

Jornalista russo que ganhou Nobel da Paz vai doar medalha a ucranianos

Ganhador do Nobel da Paz do ano passado junto com a colega filipina Maria Ressa, o jornalista russo Dmitry A. Muratov, cujo jornal Novaya Gazeta suspendeu as atividades após o início da guerra na Ucrânia e a adoção de leis de imprensa draconianas pela Rússia, anunciou que vai doar a medalha de ouro de 23 quilates recebida dos organizadores do prêmio.


A medalha será vendida em 20 de junho, em Nova York, pela tradicional empresa de leilões Heritage Auctions. Muratov anunciou que o dinheiro arrecadado será destinado à UNICEF, para ajudar crianças refugiadas da Ucrânia. Crédito: Reprodução Jornalista russo que ganhou Nobel da Paz vai doar medalha a ucranianos Dmitry Muratov: quando invadiram a Finlândia, soviéticos usaram mesma desculpa do Kremlin para atacar a Ucrânia Ele justificou o ato de solidariedade citando os 14 milhões de ucranianos deslocados até o momento pela invasão russa, que ele chamou de "tragédia''. "Se olharmos para o número de refugiados, temos basicamente a Terceira Guerra Mundial, não um conflito local. A guerra foi um erro e precisamos acabar com ela”, disse o jornalista, que já havia doado para causas de caridade os cerca de US$ 500.000 em dinheiro que ganhou pelo Nobel da Paz.
A casa de leilões não receberá comissão e já vendeu várias medalhas de ganhadores do Nobel. A do co-descobridor do DNA Francis Crick arrecadou o valor recorde de US$ 2,3 milhões em 2013. A expectativa é que o leilão da medalha de Muratov supere essa marca.
Finlândia
Muratov também se inspirou no dinamarquês e ganhador do Nobel de física Niels Bohr, que vendeu sua medalha para ajudar a Finlândia após a invasão soviética em 1939. Muratov faz questão de lembrar que naquela guerra os soviéticos lançaram mão de subterfúgio semelhante ao usado hoje pelo Kremlin para justificar a invasão da Ucrânia. “Eles anunciaram que atacariam a Finlândia para que a Finlândia não os atacasse.”
Fundado em 1993 com financiamento do político soviético Mikhail S. Gorbachev, que também recebeu um Nobel da Paz, o jornal Novaya Gazeta é considerado um símbolo do jornalismo livre na Rússia, tendo produzido ao longo dos anos reconhecidas reportagens investigativas e em zonas de conflito.
Mas a vida nunca foi fácil para os colaboradores e funcionários do veículo. Nada menos do que seis jornalistas da casa foram assassinados desde 2000. Um deles foi a repórter Anna Politkovskaya, que produzia matérias com viés crítico à guerra da Rússia na Chechênia. Ela foi baleada no elevador de seu prédio em Moscou, em 2006. Seus retratos estão pendurados até hoje na redação do Novaya Gazeta.

Leia também