Jornalista que gravou agressão de GCMs em SP é obrigado a sair de casa após ameaças
Jornalista e vídeorrepórter freelancer com trabalhos publicados em veículos de imprensa como BBC Brasil, The Intercept Brasil, Agência Pública e Ponte Jornalismo, Caio Castor, que também é cofundador da Agência Pavio, teve que deixar o apartamento onde vive com a família no bairro Campos Elíseos, região central da capital paulista, devido a ameaças de moradores da região.
Atualizado em 31/05/2022 às 15:05, por
Leandro Haberli.
Os vizinhos do jornalista não gostaram de um vídeo que ele gravou da janela de sua casa, no sábado (28), que mostra uma mulher dependente química em situação de rua sendo agredida por guardas civis metropolitanos. Postado nas redes sociais do jornalista, o vídeo foi compartilhado pelo padre Júlio Lancellotti e acabou exibido em diferentes telejornais e portais de notícias. Crédito: Caio Castor Guardas civis metropolitanos cometem abusos em abordagem a dependente química em situação de rua
As reações negativas começaram em grupos de WhatsApp de moradores do bairro, dos quais o jornalista faz parte. Alguns participantes começaram a reclamar que, devido ao vídeo, o policiamento seria suspenso na região, para onde a cracolândia migrou nas últimas semanas, deixando os moradores mais vulneráveis a ataques de usuários de drogas e traficantes. Obviamente, tais reclamações não têm fundamento, já que o jornalista nada mais fez do que denunciar abusos dos agentes de segurança.
Problema sério
Em um dos prints enviados pelo jornalista ao Portal IMPRENSA, uma pessoa diz: "Estou muito triste por saber que um dos moradores do prédio está fazendo essas imagens que só vai (SIC) prejudicar a nós mesmos". Outro responde: "Precisamos saber qual morador fez isso".
Um terceiro participante torceu para que Caio fosse esfaqueado ("Gostaria muito que quem fez isso fosse agredido. Esfaqueado na rua por esses 'nóias'), enquanto outro escreveu que "se a GCM sair daqui esse morador vai ter problema sério".
Após a identidade e o endereço do jornalista terem sido compartilhados nos grupos de moradores, por volta das 18h30 de sábado, cerca de 15 pessoas foram à portaria do prédio.
"Eu e minha família ficamos com muito medo, de luzes apagadas. Um cara interfonou e disse: 'A gente está subindo e vai invadir seu apartamento'", conta o jornalista, que pediu socorro a amigos que moram na região e também chamou a polícia.
Quando os policiais e os amigos chegaram, o grupo já havia se dispersado. No dia seguinte, porém, o jornalista foi monitorar os grupos de trocas de mensagens e deu cara com novas ameaças. "Uma mulher disse que eu merecia uma surra."
Desde então, Castor e família não estão vivendo no apartamento, para onde se mudaram há poucos meses. "O apartamento é bom, gastamos muito dinheiro com a mudança, mas acho que não vai dar para continuar morando lá. (...) Tenho medo de ser esfaqueado na rua. Alguns membros dos grupos se mostraram bastante agressivos", lamenta o jornalista, que registrou um boletim de ocorrência eletrônico de ameaça. O caso será investigado pelo 77º DP (Santa Cecília).





