Jornalista que escreveu sobre a maior favela do Haiti analisa a situação do país

Atenta à movimentação de soldados brasileiros enviados ao Haiti - para colaborar na missão de paz a ONU – a jornalista Tahiane Stochero passou a observar tudo que tivesse relação com o país e em 2007, conheceu a nação pela primeira vez, já como repórter do jornal O Estado de S.

Atualizado em 11/01/2012 às 09:01, por Luiz Gustavo Pacete.

brasileiros enviados ao Haiti - para colaborar na missão de paz da ONU – a jornalista Tahiane Stochero passou a observar tudo que tivesse relação com o país e em 2007, conheceu a nação pela primeira vez, já como repórter do jornal O Estado de S. Paulo .

Divulgação Tahiane visita Cité Soleil em 2007 Tahiane, que é pós-graduada em Relações Internacionais e possui especialização em conflitos internacionais, foi a única brasileira a integrar um programa sobre segurança mundial da ONU para jornalistas, em Nova York, onde trabalhou para os jornais Folha de S. Paulo e Agora .
Em janeiro de 2010, ela esteve novamente no Haiti. Desta vez, para ver de perto os estragos causados pelo terremoto que completa dois anos nesta quarta-feira (11). Suas apurações no país deram origem ao livro DOPAZ, que fala sobre a pacificação da favela Cité Soleil, considerada a mais violenta do país. À IMPRENSA, Tahiane falou sobre a atual situação das tropas naquele país e o trabalho da imprensa local. IMPRENSA - Como surgiu a oportunidade de ir para o Haiti? Tahiane Stochero - Sou gaúcha e quando os primeiros contingentes foram enviados para a Missão da ONU para Estabilização do Haiti (Minustah), grande parte da tropa era do Sul do país. Isso despertou minha atenção, assim como a forma como os brasileiros desconheciam o que os próprios conterrâneos faziam no Haiti. A primeira oportunidade de ir para o Haiti surgiu em 2007, no jornal O Estado de São Paulo , quando recebemos na época um convite do Ministério da Defesa e do Exército para integrar uma comitiva que passaria cerca de 10 dias em Porto Príncipe. Foi nesta viagem que teve início o projeto do livro.
Pouco se fala sobre a imprensa daquele país, você conviveu com algum jornalista haitiano? O que observou da atuação deles? Nas vezes em que eu estive no país sempre tive a possibilidade de conversar com jornalistas haitianos nas ruas, na base brasileira, junto à população ou em eventos públicos. O trabalho da imprensa no Haiti é limitado e também, historicamente, sempre foi reprimido pelo governo. Durante o período da ditadura da família Duvalier e também no governo Aristide, quando vários jornalistas foram torturados e assassinados. Atualmente, vejo um crescimento da influência da imprensa haitiana, principalmente a internet, em pautar agências e até para nos manter informados no Brasil.
Diferente do que trata seu livro, as tropas de paz no Haiti sempre foram marcadas por uma espécie de heroísmo. Mas qual é a realidade dessas tropas? Integrar uma missão de paz, para um militar, é um desafio diário. Dificuldades com alimentação, distância da família, locomoção no terreno e também de logística: você fica em um lugar onde a língua não é a do seu país, pode faltar água, luz, possibilidade de tragédias constantes. Para um militar, integrar uma missão, como o Haiti, é a possibilidade de colocar em prática tudo o que aprende na caserna, adquirir experiência e também receber melhor. Só vejo hoje, em minha opinião, que não há mais a necessidade de tantas tropas na Minustah. A missão agora é outra, o Haiti não precisa mais de tantos militares e tantos fuzis nas ruas. Precisa de empregos, educação, investimentos, geração de renda para buscar o desenvolvimento.

Reprodução Livro publicado pela Editora Objetiva Qual o resultado do sucesso brasileiro no Haiti? A Minustah é formada por tropas militares e policiais de cerca de 40 países diferentes e cada tropa tem uma maneira diferente de se relacionar com a população local. Os brasileiros, desde o início, afeiçoaram-se ao povo haitiano, devido ao que chamamos deste nosso “jeitinho brasileiro” de trabalhar. Costuma-se perceber nas ruas que os militares brasileiros são os únicos que cumprimentam, conversam e brincam nas ruas com a população. Isso é da própria característica do povo brasileiro, de ser querido, atencioso, querer fazer o bom. Mas o problema agora é outro: não adianta ter paz se não há avanço na área social e econômica. Este contexto já foge há atuação da Minustah, é bem mais amplo.

Quais principais dificuldades e desafios encontrados na apuração do livro? As principais dificuldades foram quanto ao acesso às informações, tanto às histórias e bastidores das operações quanto aos relatórios secretos que pudessem confirmar que o que eu estava contando é verdade. Lidar com tropas extremamente especializadas como Comandos e Forças Especiais, que são os homens mais bem-treinados, equipados e secretos do Brasil, me deu trabalho, em especial para adquirir a confiança deles.
Pretende dar continuidade a algum outro projeto relacionado ao Haiti? Ou tem interesses em outros países? O DOPAZ já recebeu duas propostas para filme, que eu estou avaliando. E comecei a escrever um segundo livro, que é sobre outra tropa especializada do país. Para falar a verdade, o segundo livro está me dando mais trabalho que deu o primeiro, e por enquanto ainda estou na fase de levantamento de dados e de histórias e na conversa com fontes.

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