Jornalista que criticou Bolsonaro relata ameaças sofridas: "Ditadura disfarçada de democracia"

O jornalista Roberto Carlos Dias relatou os momentos de terror que têm vivido há pouco mais de um mês, depois de fazer um comentário no Facebook que desagradou simpatizantes do candidato à Presidência Jair Bolsonaro.

Atualizado em 27/04/2018 às 11:04, por Fernando Arbex.

Morador de Caxias do Sul, o comunicador de 49 anos escreveu em 21 de março: “Não adianta lamentar a morte de uma criança estuprada e defender o Bolsonaro, réu em dois processos por apologia ao estupro”. Crédito:Assembleia Legislativa do RS Caso tem acompanhamento da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do RS

Após a publicação, uma série de comentários raivosos e intimidadores foram feitos no próprio post, mas o jornalista passou a se preocupar mais dois dias depois, quando um taxista o abordou em um restaurante e pediu que Dias voltasse repetisse o que havia dito na rede social enquanto seria gravado. “Eu disse que era a minha análise e que não ia discutir em uma mesa de bar. Falei que parasse de gravar, porque aquela tentativa de intimidação era crime””, relatou.


A situação piorou no dia seguinte, quando foi adicionado a um grupo de WhatsApp, no qual muitos integrantes fizeram ameaças à integridade de Dias. De posse dos prints dessas conversas, o jornalista fez Boletim de Ocorrência e o caso passou a ser tratado nas comissões de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Caxias de Sul e da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.


A repercussão do caso, porém, também causou transtornos a Dias. O volume de ameaças não diminuiu, mas incentivou novos ataques contra o jornalista, que viveu com medo nas últimas semanas. “Eles alcançam o objetivo deles. Eu não saio mais à noite, vivo um exílio dentro de casa. Tenho uma filha de 13 anos, tudo isso me tira o sono”, afirmou.


Diretor do Sindicado dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio Grande do Sul, Dias narra que trabalhou mais de 20 anos na cobertura de política de veículos tradicionais de mídia e lamenta o momento de intolerância vivido no Brasil.


“Vivemos em uma ditadura disfarçada de democracia. Impressiona o grau de ódio e intolerância da extrema direita, vide a violência com que foi recebida a caravana do ex-presidente Lula aqui no Estado, que já tem uma fama conservadora. Já o Bolsonaro foi recebido em Caxias do Sul com um boneco do pixuleco, que ele chutou, e um relho, ferramenta usada no campo para controlar animais. É apologia a violência”, desabafou.


Além do inquérito criminal, Dias pretende processar os envolvidos na esfera cível: “A gente não pode se calar. Tenho um advogado que está trabalhando no caso. Essas pessoas não podem ficar impunes. Eu estou vivendo sob medo”.


No dia 7 de maio, o deputado Pedro Ruas (PSOL) irá a Caxias do Sul para conversar com o titular da Delegacia de Polícia onde o B.O. foi registrado. Os deputados deverão procurar também o Ministério Público Estadual para que o órgão acompanhe as investigações.


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