Jornalista mostra a realidade de mulheres nas prisões brasileiras

Quinze dias depois da nova rotina de empacotar sacolas de compras em um supermercado, Safira chegou em casa cansada, abriu o armário e percebeu que não tinha mais leite para o bebê.

Atualizado em 08/09/2015 às 14:09, por Alana Rodrigues.

Nervosa, pensou em tomar um copo de água com açúcar. Mas isso ela também não tinha. Pediu uma arma ao vizinho e foi assaltar. Crédito:divulgação

A história dela e de outras seis mulheres são contadas no livro “Presos que Menstruam”, da jornalista Nana Queiroz, que se debruçou sobre a condição dos presídios femininos ao longo de cinco anos, quatro deles dedicados à apuração. A vontade de quebrar o silêncio e jogar luz sobre o tema foi o combustível para dar vida ao trabalho.


Em 2010, ela conheceu Rosária Naves, uma ex funcionária do sistema carcerário, que trabalhou quase toda a vida em presídios femininos. Daí em diante, começou a pesquisar dados sobre as cerca de 36 mil mulheres encarceradas no país.


“Ela me contou histórias incríveis e, ao mesmo tempo, de partir o coração. Era interessante e, principalmente, muito inusitado. Enquanto ‘Estação Carandiru’ [livro publicado por Dráuzio Varella em 1999 sobre a antiga penitenciária masculina de São Paulo] era um best-seller, havia um silêncio sobre as presidiárias”, conta a autora.


Em meio a pesquisas e outros trabalhos, a jornalista passou a visitar presídios femininos e mistos nas horas vagas para conversar com as detentas. Foram dez presídios em todas as regiões do país e mais de cem entrevistas. Para conseguir entrar nos locais, Nana precisou de criatividade e paciência. Ela só conseguiu autorização judicial oficial na Penitenciária Feminina Madre Pelletier, em Porto Alegre (RS). Nas outras, ofereceu trabalho voluntário, fez amizade com a família das detentas para entrar na lista de visitas e com médicos que trabalhavam nos presídios.


“A Secretaria de Segurança Pública não quer deixar jornalista entrar nos presídios porque eles sabem que estão pulando todos os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. A estratégia é que ele [jornalista] se canse e desista”, relata.


Nunca foi permitida a entrada com câmeras ou gravadores. A jornalista teve que investir em sua memória. Muitas vezes, deixava o presídio repetindo frases para não esquecer exatamente como foram ditas ou fazia anotações nas mãos e em pequenos pedaços de papel que carregava nos bolsos. Nana também optou por conversar com as presas antes de ler os processos, para não criar pré-julgamentos.


Superlotação, violência de agentes penitenciários e falta de produtos de higiene pessoal chamaram a atenção. A autora afirma que as presas recebem tratamento semelhante em brutalidade ao dado aos homens nas prisões. Em um dos relatos mais surpreendentes, Nana revela que detentas usam miolo de pão como absorvente íntimo, já que recebem somente um ou dois pacotes por mês. Algumas precisam dormir com seus bebês recém-nascidos no chão por falta de colchonetes.


Com os pontos da cesariana ainda abertos, pegam infecções. As crianças que vivem com as mães nos presídios também são impactadas. A lei brasileira determina que as presidiárias permaneçam com seus filhos durante seis meses para amamentação, mas não há nenhuma regra estabelecida pelo Estado que assegure a instalação de creches ou locais específicos nas instituições.


A autora destaca que apenas 10% das presidiárias cometeram crimes contra pessoa. A grande maioria foi presa por tráfico, furto, roubo. Para ela, existe um preconceito maior da sociedade porque a maioria dos crimes noticiados é de crimes contra a vida, como o de Suzane Richftoffen, acusada de ter encomendado a morte dos pais. “Se todo mundo conhecesse essas mulheres, veria que são muito pobres, com uma escolaridade baixíssima, mães solteiras e abandonadas pelas famílias. O que não quer dizer vitimizar ou inocentar. Apenas ver a realidade e analisá-la de uma maneira inteligente e crítica.”


Poder transformador


Sensibilizados com as condições desumanas a que essas mulheres são expostas, internautas se mobilizaram e criaram campanhas no Facebook para arrecadar absorventes para as detentas. “Fiquei muito emocionada. Foi uma mobilização completamente voluntária”, diz. “Presos que Menstruam” também vai virar filme.


O objetivo da jornalista, que começa a gravar em 2016, é arrecadar fundos pelas leis de incentivo à cultura para virar um piloto de série. Segundo Nana, a produção será muito diferente de “Orange is the New Black”, famoso seriado que retrata uma prisão feminina nos EUA. “Vai ter um tom mais de drama. É uma realidade bem mais pesada.”


Para a autora, o trabalho foi transformador. “Quando você mergulha tão profundamente para fazer uma reportagem, esse mergulho muda você. É o que faz valer a pena ser jornalista. Acho que virei um pouco ativista da causa das mulheres presas".