Jornalista Fernando Zamith analisa relação entre imprensa e Hollywood

Jornalista Fernando Zamith analisa relação entre imprensa e Hollywood

Atualizado em 23/12/2009 às 12:12, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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Fernando Zamith
O jornalismo sempre teve lugar de destaque em Hollywood, que retratou em muitos de seus filmes os repórteres quase como heróis. Em 2009, não seria diferente. Basta lembrar de "Intrigas de Estado", em que Russel Crowe interpreta um jornalista s voltas com um dilema: noticiar ou não a sua relação de amizade com uma fonte.

Fernando Zamith, jornalista da Rádio Jovem Pan, Jovem Pan Online e repórter que informa sobre filmes, analisa, em entrevista ao Portal IMPRENSA, a relação entre a imprensa e Hollywood. Para ele, o jornalista mais lembrado do cinema é a exceção de nosso trabalho, e não a regra: Charles Tatum, o repórter de "A Montanha dos Sete Abutres".

Segundo ele, o quase vilão é arrogante, e tem como lema algo do tipo "quando não se tem notícia, vou lá fora e mordo um cachorro". Zamith acredita que o roteirista de um filme não quer dar lição de ética: quer contar uma boa história. "Os filmes vivem de conflitos. Sem conflito, não haveria filmes. O próprio jornalismo vive de conflitos", diz.

Mesmo que um pouco atrasado, o cinema segue nossa profissão, e ainda retratará de maneira fiel as mudanças tecnológicas que acontecem no jornalismo. "Hoje, o jornalista é um multimídia. Escreve, fotografa, filma, coloca a matéria na internet e ainda grava um boletim para a TV online. Mas sou otimista quanto ao futuro do nosso ofício. Creio que ainda veremos filmes muito instigantes sobre o nosso trabalho".

Portal IMPRENSA - Você vê alguma mudança recente no paradigma pelo qual Hollywood sempre tratou a imprensa?
Fernando Zamith -
Hollywood, enquanto indústria, pouco mudou em relação à imprensa. Qual a profissão de Clark Kent, o Superman, e o Peter Parker, o Homem Aranha? Em todo filme-catástrofe há um repórter por ali. Confiram "Independence Day", "O Dia Depois de Amanhã" e o recente "2012". É natural. Agora, Hollywood, enquanto o diretor dá o tom, sempre foi crítica. Em "O Homem Que Matou O Facínora", John Ford coloca um jornalista como eixo condutor da história. "Cidadão Kane", então, nem se fala. Experimente perguntar a um profissional quem é o personagem mais lembrado. Irão responder não com a regra, mas a exceção do nosso trabalho: é o repórter de "A Montanha dos Sete Abutres", quase um vilão, arrogante, cujo lema de vida é algo assim: "Quando não se tem notícia, vou lá fora e mordo um cachorro".

IMPRENSA - Ninguém escapa dessa história do cachorro, não é?
Zamith
- É emblemática. No começo dos anos 80, em Porto Alegre, um bêbado feliz saiu do baile de carnaval e se viu perseguido por cachorro que insistia em cravar os dentes em sua perna. Provocado, o bêbado matou o cachorro a dentadas. Vai dar primeira página, pensei comigo. E deu primeira no Jornal do Brasil, onde eu trabalhava na época. Filme sobre jornalista tem que ser assim. Morder o cachorro. Se o diretor do filme já foi jornalista, então será crítico. Billy Wilder, de "A Montanha dos Sete Abutres", é o melhor exemplo. Ele também fez "A Primeira Página", de 1974, que é sarcástico sobre o jornalista e suas misérias.

IMPRENSA - No filme estrelado por Russel Crowe, "Intrigas de Estado", o jornalista está às voltas com um dilema: noticiar ou não a sua relação de amizade com uma fonte. Como você acha que o cinema trata, desde "A Montanha dos Sete Abutres", passando por Watergate, a questão da ética?
Zamith
- Os filmes vivem de conflitos. Sem conflito, não haveria filmes. O próprio jornalismo vive de conflitos. Aliás, também a criação artística. Um romance, uma novela, uma tela. Imagine então um repórter certinho, cheio de nobres procedimentos de conduta. Funcionaria num filme? Certamente não. Até o Peter Parker entra em conflito. Um filme não muda o mundo, mas ajuda a torná-lo mais claro. O roteirista não quer dar lição de ética: quer contar uma boa história.

IMPRENSA - Com que filme você acha que, independentemente da experiência, os jornalistas ainda têm muito a aprender?
Zamith
- Há muitos filmes assim. "Ausência de Malícia", de Sidney Pollack, que mostra o FBI manipulando uma jornalista, a quem vaza dossiês. "Sob Fogo Cerrado", de Roger Spottiswoode, sobre a Revolução Sandinista na Nicarágua. Mas, quem faz mesmo sua lição de casa é "O Jornal", do diretor Ron Howard. Está tudo lá. A compulsão pela manchete, o jornalão que se arvora o dono da verdade, o jornal menor movido pela paixão dos seus profissionais, a editora-chefe que faz tudo para subir no Olimpo (mas nem por isso perde a noção do que é notícia), a "Escola Base" criada pela gana de achar o culpado de um crime. Bom, vão dizer que o filme "O Jornal" é coleção de clichês. Para quem é jornalista, clichê tem um significado mais profundo.

IMPRENSA - Como assim? Qual significado?
Zamith
- Em meu início como repórter do Diário de S. Paulo e Diário da Noite, na gráfica dos Diários Associados, no centro velho de São Paulo, conheci o clichê. Era um suporte metálico de metal. Ali eram colocados os tipos fundidos em chumbo que formavam o texto, fotos, manchete, enfim compunham a página do jornal. Este é o clichê. Hoje, o sentido do clichê é de algo repetido, repisado. A história do filme "O Jornal" acontece ao longo de 24 horas. E faz um paralelo entre o parto de uma jornalista e o fechamento de uma edição com um grande furo de reportagem. O bebê vai nascer. A edição do dia seguinte também. Quer clichê maior? A última meia-hora é tão frenética quanto um fechamento de edição. Os jornais perderam um pouco dessa emoção. Por conta do enxugamento das redações, da formação dos profissionais...

IMPRENSA - Mas o filme não ficou datado? Não envelheceu?
Zamith
- Realmente, quem assistir "O Jornal" deve levar em conta que o filme de 1994 não contempla a revolução das novas mídias de comunicação trazida pela internet. Hoje, o jornalista é um multimídia. Escreve, fotografa, filma, coloca a matéria na internet e ainda grava um boletim para a TV on line. Mas sou otimista quanto ao futuro do nosso ofício. Creio que ainda veremos filmes muito instigantes sobre o nosso trabalho.

IMPRENSA - Você acha que a Academia é sensível, quando se trata dos jornalistas, às mudanças tecnológicas como Twitter e blogs?
Zamith
- Em "Intrigas de Estado", a mudança tecnológica é um dos pilares do roteiro. A blogueira, o papel de Rachel McAdams, se torna uma parceira a princípio incômoda do repórter veterano. Bom, mas quem viu o filme sabe que repórter e blogueira irão se completar, embora não sejam afinados em si. O filme dá seu recado: um não exclui o outro. Mesmo quem critica os blogs vai considerar que muita coisa boa que virou notícia surgiu a partir do trabalho de um blogueiro.

IMPRENSA - Sempre houve uma visão romântica do jornalismo latino-americano, sobretudo a partir de Costa Gravas. Você acha que o continente deixou de emitir essa imagem romântica e autóctone?
Zamith
- Essa imagem romântica do jornalista latino-americano é leitura equivocada do cinema dos anos 60. Jornalista de esquerda romantizou demais a própria esquerda. Veja, por exemplo, Paulo Martins, o personagem central de "Terra em Transe", de Glauber Rocha. Ele é um jornalista. E idealista. E também poeta. Não necessariamente nessa ordem. Ironia do Glauber? Uma foto do cartaz do filme é emblemática: Paulo Martins (Jardel Filho) tapa a boca de um homem do povo. Na história, o jornalista é uma espécie de consciência da terra em transe. O filme é de 1966 e impressionou muitos jovens diretores lá fora. Talvez Costa Gavras não tenha visto o filme do Glauber naqueles anos, mas, em 1968, quando fez "Z", o clássico filme contra a ditadura dos coronéis gregos e outras ditaduras, deu relevância ao jornalista. Nada é por acaso.