Jornalista Fernando Zamith analisa relação entre imprensa e Hollywood
Jornalista Fernando Zamith analisa relação entre imprensa e Hollywood
| Divulgação |
| Fernando Zamith |
Fernando Zamith, jornalista da Rádio Jovem Pan, Jovem Pan Online e repórter que informa sobre filmes, analisa, em entrevista ao Portal IMPRENSA, a relação entre a imprensa e Hollywood. Para ele, o jornalista mais lembrado do cinema é a exceção de nosso trabalho, e não a regra: Charles Tatum, o repórter de "A Montanha dos Sete Abutres".
Segundo ele, o quase vilão é arrogante, e tem como lema algo do tipo "quando não se tem notícia, vou lá fora e mordo um cachorro". Zamith acredita que o roteirista de um filme não quer dar lição de ética: quer contar uma boa história. "Os filmes vivem de conflitos. Sem conflito, não haveria filmes. O próprio jornalismo vive de conflitos", diz.
Mesmo que um pouco atrasado, o cinema segue nossa profissão, e ainda retratará de maneira fiel as mudanças tecnológicas que acontecem no jornalismo. "Hoje, o jornalista é um multimídia. Escreve, fotografa, filma, coloca a matéria na internet e ainda grava um boletim para a TV online. Mas sou otimista quanto ao futuro do nosso ofício. Creio que ainda veremos filmes muito instigantes sobre o nosso trabalho".
Portal IMPRENSA - Você vê alguma mudança recente no paradigma pelo qual Hollywood sempre tratou a imprensa?
Fernando Zamith - Hollywood, enquanto indústria, pouco mudou em relação à imprensa. Qual a profissão de Clark Kent, o Superman, e o Peter Parker, o Homem Aranha? Em todo filme-catástrofe há um repórter por ali. Confiram "Independence Day", "O Dia Depois de Amanhã" e o recente "2012". É natural. Agora, Hollywood, enquanto o diretor dá o tom, sempre foi crítica. Em "O Homem Que Matou O Facínora", John Ford coloca um jornalista como eixo condutor da história. "Cidadão Kane", então, nem se fala. Experimente perguntar a um profissional quem é o personagem mais lembrado. Irão responder não com a regra, mas a exceção do nosso trabalho: é o repórter de "A Montanha dos Sete Abutres", quase um vilão, arrogante, cujo lema de vida é algo assim: "Quando não se tem notícia, vou lá fora e mordo um cachorro".
IMPRENSA - Ninguém escapa dessa história do cachorro, não é?
Zamith - É emblemática. No começo dos anos 80, em Porto Alegre, um bêbado feliz saiu do baile de carnaval e se viu perseguido por cachorro que insistia em cravar os dentes em sua perna. Provocado, o bêbado matou o cachorro a dentadas. Vai dar primeira página, pensei comigo. E deu primeira no Jornal do Brasil, onde eu trabalhava na época. Filme sobre jornalista tem que ser assim. Morder o cachorro. Se o diretor do filme já foi jornalista, então será crítico. Billy Wilder, de "A Montanha dos Sete Abutres", é o melhor exemplo. Ele também fez "A Primeira Página", de 1974, que é sarcástico sobre o jornalista e suas misérias.
IMPRENSA - No filme estrelado por Russel Crowe, "Intrigas de Estado", o jornalista está às voltas com um dilema: noticiar ou não a sua relação de amizade com uma fonte. Como você acha que o cinema trata, desde "A Montanha dos Sete Abutres", passando por Watergate, a questão da ética?
Zamith - Os filmes vivem de conflitos. Sem conflito, não haveria filmes. O próprio jornalismo vive de conflitos. Aliás, também a criação artística. Um romance, uma novela, uma tela. Imagine então um repórter certinho, cheio de nobres procedimentos de conduta. Funcionaria num filme? Certamente não. Até o Peter Parker entra em conflito. Um filme não muda o mundo, mas ajuda a torná-lo mais claro. O roteirista não quer dar lição de ética: quer contar uma boa história.
IMPRENSA - Com que filme você acha que, independentemente da experiência, os jornalistas ainda têm muito a aprender?
Zamith - Há muitos filmes assim. "Ausência de Malícia", de Sidney Pollack, que mostra o FBI manipulando uma jornalista, a quem vaza dossiês. "Sob Fogo Cerrado", de Roger Spottiswoode, sobre a Revolução Sandinista na Nicarágua. Mas, quem faz mesmo sua lição de casa é "O Jornal", do diretor Ron Howard. Está tudo lá. A compulsão pela manchete, o jornalão que se arvora o dono da verdade, o jornal menor movido pela paixão dos seus profissionais, a editora-chefe que faz tudo para subir no Olimpo (mas nem por isso perde a noção do que é notícia), a "Escola Base" criada pela gana de achar o culpado de um crime. Bom, vão dizer que o filme "O Jornal" é coleção de clichês. Para quem é jornalista, clichê tem um significado mais profundo.
IMPRENSA - Como assim? Qual significado?
Zamith - Em meu início como repórter do Diário de S. Paulo e Diário da Noite, na gráfica dos Diários Associados, no centro velho de São Paulo, conheci o clichê. Era um suporte metálico de metal. Ali eram colocados os tipos fundidos em chumbo que formavam o texto, fotos, manchete, enfim compunham a página do jornal. Este é o clichê. Hoje, o sentido do clichê é de algo repetido, repisado. A história do filme "O Jornal" acontece ao longo de 24 horas. E faz um paralelo entre o parto de uma jornalista e o fechamento de uma edição com um grande furo de reportagem. O bebê vai nascer. A edição do dia seguinte também. Quer clichê maior? A última meia-hora é tão frenética quanto um fechamento de edição. Os jornais perderam um pouco dessa emoção. Por conta do enxugamento das redações, da formação dos profissionais...
IMPRENSA - Mas o filme não ficou datado? Não envelheceu?
Zamith - Realmente, quem assistir "O Jornal" deve levar em conta que o filme de 1994 não contempla a revolução das novas mídias de comunicação trazida pela internet. Hoje, o jornalista é um multimídia. Escreve, fotografa, filma, coloca a matéria na internet e ainda grava um boletim para a TV on line. Mas sou otimista quanto ao futuro do nosso ofício. Creio que ainda veremos filmes muito instigantes sobre o nosso trabalho.
IMPRENSA - Você acha que a Academia é sensível, quando se trata dos jornalistas, às mudanças tecnológicas como Twitter e blogs?
Zamith - Em "Intrigas de Estado", a mudança tecnológica é um dos pilares do roteiro. A blogueira, o papel de Rachel McAdams, se torna uma parceira a princípio incômoda do repórter veterano. Bom, mas quem viu o filme sabe que repórter e blogueira irão se completar, embora não sejam afinados em si. O filme dá seu recado: um não exclui o outro. Mesmo quem critica os blogs vai considerar que muita coisa boa que virou notícia surgiu a partir do trabalho de um blogueiro.
IMPRENSA - Sempre houve uma visão romântica do jornalismo latino-americano, sobretudo a partir de Costa Gravas. Você acha que o continente deixou de emitir essa imagem romântica e autóctone?
Zamith - Essa imagem romântica do jornalista latino-americano é leitura equivocada do cinema dos anos 60. Jornalista de esquerda romantizou demais a própria esquerda. Veja, por exemplo, Paulo Martins, o personagem central de "Terra em Transe", de Glauber Rocha. Ele é um jornalista. E idealista. E também poeta. Não necessariamente nessa ordem. Ironia do Glauber? Uma foto do cartaz do filme é emblemática: Paulo Martins (Jardel Filho) tapa a boca de um homem do povo. Na história, o jornalista é uma espécie de consciência da terra em transe. O filme é de 1966 e impressionou muitos jovens diretores lá fora. Talvez Costa Gavras não tenha visto o filme do Glauber naqueles anos, mas, em 1968, quando fez "Z", o clássico filme contra a ditadura dos coronéis gregos e outras ditaduras, deu relevância ao jornalista. Nada é por acaso.






