Jornalista diz que, de certa forma, o plano da ditadura militar foi bem sucedido

Jornalista diz que, de certa forma, o plano da ditadura militar foi bem sucedido

Atualizado em 28/12/2007 às 13:12, por Eduardo Neco/Portal IMPRENSA.

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O Portal IMPRENSA esteve no segundo dia do 1º Congresso Estadual dos Ex-presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, no último dia 14 de dezembro. O evento tratou de questões relacionadas ao período de ditadura militar como liberdade de expressão, prisões, cultura da época, entre outros.

O evento ocorreu no anfiteatro Fernando Azevedo, da Secretaria de Estado e Educação, localizado no centro de São Paulo. O local das palestras estava decorado com posteres de pensadores e líderes revolucionários como Karl Marx, Che Guevara e Lenin. Em algumas paredes via-se faixas com os dizeres "ditadura nunca mais". Das caixas de som saiam canções de grande importância para a época, entre elas, "Para não dizer que não falei das flores", de autoria de Geraldo Vandré, um dos compositores mais perseguidos no período.

Antes do início das palestras, Portal IMPRENSA entrevistou Maurice Politi um dos organizadores do encontro. Politi participou diretamente das lutas armadas da esquerda contra o regime militar, por este motivo ficou preso por quatro anos e chegou a ser expulso do país.

Politi, que é jornalista, relatou ao Portal como foi o período em que esteve preso. "Eu fui o único que ficou preso em todas as cadeias do estado. Eu não parava em lugar algum", disse. Contou, também, que não se passava um dia sem que fosse torturado.

Para ele, a maior perda resultante deste período negro, foi pessoal."Claro, todo mundo que se envolveu perdeu alguma coisa, mas o que mais doeu foi perder colegas de luta".

Ao ser indagado sobre o trabalho do movimento de esquerda, Maurice declarou que muitas frentes tinham o mesmo objetivo: derrubar a ditadura. No entanto, buscavam caminhos diferentes, e essa falta de união prejudicou as intenções do movimento."Unidos, não teríamos derrubado a ditadura [...] mas seria mais difícil para eles [os ditadores] manterem o regime". Ainda sobre a esquerda, Politi declarou que houve conversas para tentar a união, mas, quando percebeu-se a necessidade de integração, já era tarde demais.

Quanto às heranças do período para o jornalismo atual, Politi ressalta a criatividade, que tornou-se marca da imprensa brasileira."Naquela época era tão duro que, para você ser um bom jornalista, você tinha que inventar uma forma de evitar que a ditadura te pegasse."

O jornalista comentou sobre a atual falta de interesse da sociedade brasileira em assuntos ligados a políica. Politi relata que, durante uma conversa com o torturador capitão Gaeta, o mesmo confessou-lhe algo capaz de explicar o descaso e a alienação do povo: "Vocês estão perdidos, mas a próxima geração é nossa".

Para Maurice Politi, de certa forma, o plano da ditadura foi bem sucedido. "Eu acho eles conseguiram colocar na cabeça que não adiantou nada se organizar".

Segundo ele, a ditadura implantou um modo de pensar que desacredita qualquer tipo de movimento revolucionário. Porém, a própria evolução natural da sociedade contribuiu para a descrença nas lutas.