Jornalista Daniela Arbex lança a sua primeira biografia
“Os Dois Mundos de Isabel” (Intrínseca) relata a história da médium Isabel Salomão de Campos
Atualizado em 22/09/2020 às 10:09, por
Kassia Nobre.
Autora do premiado livro-reportagem “Holocausto brasileiro”, a jornalista Daniela Arbex lança a sua primeira biografia.
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“Já conhecia o trabalho de Dona Isabel e, naquele momento, percebi que era urgente continuar a construir a memória coletiva do Brasil através do jornalismo que faço. Senti necessidade de falar sobre a trajetória de uma brasileira quase centenária cuja coragem e empoderamento feminino quebraram inúmeros tabus”, afirma Daniela.
A jornalista conversou com o Portal Imprensa sobre o lançamento da obra e compartilhou dicas para jornalistas que desejam contar histórias em livros-reportagem e biografias.
Daniela escreveu também “Cova 312”, a longa jornada de uma repórter para descobrir o destino de um guerrilheiro, derrubar uma farsa e mudar um capítulo da história do Brasil. “Todo Dia a Mesma Noite”, a história não contada da boate Kiss.
A jornalista foi vencedora na categoria Repórter Investigativa no Troféu Mulher Imprensa 2020.
Crédito:Editora Intrínseca
Portal Imprensa - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação da biografia “Os Dois Mundos de Isabel”. Como foi a escolha do tema? Daniela Arbex - Nem sempre é o jornalista quem escolhe a história. Muitas vezes ele é escolhido pela narrativa. Me sinto assim nos quatro livros que publiquei. Cada um nasceu em um momento da minha vida. O livro “Os dois mundos de Isabel” começou a ser concebido logo após o lançamento de Todo dia a mesma noite, a história não contada da boate Kiss. Após ficar dois anos no Rio Grande do Sul, eu estava em frangalhos e disposta a descansar da maratona física e emocional que foi mergulhar em uma obra tão densa como aquela.
Quando voltei a Minas Gerais, em janeiro de 2018, porém, todo meu planejamento de dar uma pausa foi por água abaixo (risos). Já conhecia o trabalho de Dona Isabel e, naquele momento, percebi que era urgente continuar a construir a memória coletiva do Brasil através do jornalismo que faço. Senti necessidade de falar sobre a trajetória de uma brasileira quase centenária cuja coragem e empoderamento feminino quebraram inúmeros tabus. Como ela estava com 94 anos, pensei: é agora ou nunca. E lá fui eu começar tudo de novo!
Portal Imprensa - O livro narra "a história da brasileira centenária que ergueu a voz para ajudar milhares de pessoas". Gostaria que você contasse um pouco sobre a importância da história de Isabel Salomão de Campos. Daniela Arbex - Ela tem uma trajetória singular. Aos 9 anos, benzia adultos sem acesso a remédio no sertão mineiro, onde morava com seus pais imigrantes libaneses que encontraram no Brasil uma nova pátria. Aos 14, fundou uma escola para os filhos de lavradores sem acesso ao ensino formal e foi nomeada professora municipal. Aos 22, tornou-se uma das primeiras mulheres a divulgar publicamente o espiritismo no país, religião que só foi incluída no censo brasileiro como opção de resposta em 1940. Naquela época, toda a história da Doutrina Espírita no Brasil vinha sendo protagonizada por homens.
Ao longo de sua vida, ela retirou mais de 500 meninos das ruas, fundou outras escolas e criou uma extensa rede de solidariedade que atua até hoje em um Brasil profundo, onde o poder público não consegue chegar com efetividade. Um dos trabalhos dela, o Médicos do Bem, que consiste em levar atendimento médico gratuito a áreas em situação de vulnerabilidade, através de profissionais voluntários, acaba de ser escolhido entre os 11 melhores do país pelo prêmio Euro 2020 na categoria inovação.
Atualmente com 96 anos, ela não para. Continua com uma coragem surpreendente de fazer o bem em um país mergulhado em intolerância e ódio.
Portal Imprensa - O livro é a sua primeira biografia. Você poderia citar os principais desafios ao escrevê-lo e as diferenças e semelhanças na escrita de um livro-reportagem? Daniela Arbex - Um dos grandes desafios para mim foi encontrar o caminho da imparcialidade, já que conheço a personagem. Outro foi mergulhar no universo de uma mulher de quase cem anos, com tantos feitos. Só com Dona Isabel o processo de entrevistas durou um ano. Por causa das limitações naturais da idade, ela me deu entrevistas – todas as noites -, usando máscara de oxigênio, um suporte respiratório.
A partir das memórias afetivas dela, fui em busca dos personagens que a protagonista citava, hoje muitos octogenários, nonagenários e centenários que estão espalhados Brasil afora. Encontrá-los – para reconstruir os cenários da infância, adolescência e vida adulta dela -, exigiu que eu gastasse muita sola de sapato como manda o jornalismo de qualidade. Entrevistei mais de 150 pessoas, cem delas estão no livro.
Como nos livros anteriores, o processo de pesquisa foi muito extenso. Em Os dois mundos de Isabel, a história do Brasil também é pano de fundo da obra. O livro começa na Era Vargas, passa pelo Estado Novo, Segunda Guerra Mundial, Ditadura, constituição de 88 até chegar aos dias atuais.
No prefácio de “Os dois mundos de Isabel”, Caco Barcellos ressalta a novidade da mudança de gênero literário, mas aponta a permanência do meu estilo.
Portal Imprensa - Gostaria que você desse algumas dicas para os estudantes e jornalistas que tenham interesse na escrita do livro-reportagem e da biografia. Daniela Arbex - Jornalismo de qualidade exige tempo e dedicação. Em média, gasto dois anos e meio para publicar cada obra. Para passar tanto tempo dedicado a um único projeto é preciso ter um objetivo. No meu caso, estou sempre buscando temas invisíveis, marginalizados ou esquecidos. Lançar luz sobre eles, me fascina. Então, para se envolver em projetos tão densos e, muitas vezes solitários, é preciso ter um bocado de paixão pela escrita, compreensão do nosso papel social e uma vontade incontrolável de fazer a diferença. Contar histórias é um ato revolucionário. O jornalismo tem um papel fundamental na construção da memória coletiva do Brasil.
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“Já conhecia o trabalho de Dona Isabel e, naquele momento, percebi que era urgente continuar a construir a memória coletiva do Brasil através do jornalismo que faço. Senti necessidade de falar sobre a trajetória de uma brasileira quase centenária cuja coragem e empoderamento feminino quebraram inúmeros tabus”, afirma Daniela.
A jornalista conversou com o Portal Imprensa sobre o lançamento da obra e compartilhou dicas para jornalistas que desejam contar histórias em livros-reportagem e biografias.
Daniela escreveu também “Cova 312”, a longa jornada de uma repórter para descobrir o destino de um guerrilheiro, derrubar uma farsa e mudar um capítulo da história do Brasil. “Todo Dia a Mesma Noite”, a história não contada da boate Kiss.
A jornalista foi vencedora na categoria Repórter Investigativa no Troféu Mulher Imprensa 2020.
Crédito:Editora Intrínseca
Portal Imprensa - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação da biografia “Os Dois Mundos de Isabel”. Como foi a escolha do tema? Daniela Arbex - Nem sempre é o jornalista quem escolhe a história. Muitas vezes ele é escolhido pela narrativa. Me sinto assim nos quatro livros que publiquei. Cada um nasceu em um momento da minha vida. O livro “Os dois mundos de Isabel” começou a ser concebido logo após o lançamento de Todo dia a mesma noite, a história não contada da boate Kiss. Após ficar dois anos no Rio Grande do Sul, eu estava em frangalhos e disposta a descansar da maratona física e emocional que foi mergulhar em uma obra tão densa como aquela.
Quando voltei a Minas Gerais, em janeiro de 2018, porém, todo meu planejamento de dar uma pausa foi por água abaixo (risos). Já conhecia o trabalho de Dona Isabel e, naquele momento, percebi que era urgente continuar a construir a memória coletiva do Brasil através do jornalismo que faço. Senti necessidade de falar sobre a trajetória de uma brasileira quase centenária cuja coragem e empoderamento feminino quebraram inúmeros tabus. Como ela estava com 94 anos, pensei: é agora ou nunca. E lá fui eu começar tudo de novo!
Portal Imprensa - O livro narra "a história da brasileira centenária que ergueu a voz para ajudar milhares de pessoas". Gostaria que você contasse um pouco sobre a importância da história de Isabel Salomão de Campos. Daniela Arbex - Ela tem uma trajetória singular. Aos 9 anos, benzia adultos sem acesso a remédio no sertão mineiro, onde morava com seus pais imigrantes libaneses que encontraram no Brasil uma nova pátria. Aos 14, fundou uma escola para os filhos de lavradores sem acesso ao ensino formal e foi nomeada professora municipal. Aos 22, tornou-se uma das primeiras mulheres a divulgar publicamente o espiritismo no país, religião que só foi incluída no censo brasileiro como opção de resposta em 1940. Naquela época, toda a história da Doutrina Espírita no Brasil vinha sendo protagonizada por homens.
Ao longo de sua vida, ela retirou mais de 500 meninos das ruas, fundou outras escolas e criou uma extensa rede de solidariedade que atua até hoje em um Brasil profundo, onde o poder público não consegue chegar com efetividade. Um dos trabalhos dela, o Médicos do Bem, que consiste em levar atendimento médico gratuito a áreas em situação de vulnerabilidade, através de profissionais voluntários, acaba de ser escolhido entre os 11 melhores do país pelo prêmio Euro 2020 na categoria inovação.
Atualmente com 96 anos, ela não para. Continua com uma coragem surpreendente de fazer o bem em um país mergulhado em intolerância e ódio.
Portal Imprensa - O livro é a sua primeira biografia. Você poderia citar os principais desafios ao escrevê-lo e as diferenças e semelhanças na escrita de um livro-reportagem? Daniela Arbex - Um dos grandes desafios para mim foi encontrar o caminho da imparcialidade, já que conheço a personagem. Outro foi mergulhar no universo de uma mulher de quase cem anos, com tantos feitos. Só com Dona Isabel o processo de entrevistas durou um ano. Por causa das limitações naturais da idade, ela me deu entrevistas – todas as noites -, usando máscara de oxigênio, um suporte respiratório.
A partir das memórias afetivas dela, fui em busca dos personagens que a protagonista citava, hoje muitos octogenários, nonagenários e centenários que estão espalhados Brasil afora. Encontrá-los – para reconstruir os cenários da infância, adolescência e vida adulta dela -, exigiu que eu gastasse muita sola de sapato como manda o jornalismo de qualidade. Entrevistei mais de 150 pessoas, cem delas estão no livro.
Como nos livros anteriores, o processo de pesquisa foi muito extenso. Em Os dois mundos de Isabel, a história do Brasil também é pano de fundo da obra. O livro começa na Era Vargas, passa pelo Estado Novo, Segunda Guerra Mundial, Ditadura, constituição de 88 até chegar aos dias atuais.
No prefácio de “Os dois mundos de Isabel”, Caco Barcellos ressalta a novidade da mudança de gênero literário, mas aponta a permanência do meu estilo.
Portal Imprensa - Gostaria que você desse algumas dicas para os estudantes e jornalistas que tenham interesse na escrita do livro-reportagem e da biografia. Daniela Arbex - Jornalismo de qualidade exige tempo e dedicação. Em média, gasto dois anos e meio para publicar cada obra. Para passar tanto tempo dedicado a um único projeto é preciso ter um objetivo. No meu caso, estou sempre buscando temas invisíveis, marginalizados ou esquecidos. Lançar luz sobre eles, me fascina. Então, para se envolver em projetos tão densos e, muitas vezes solitários, é preciso ter um bocado de paixão pela escrita, compreensão do nosso papel social e uma vontade incontrolável de fazer a diferença. Contar histórias é um ato revolucionário. O jornalismo tem um papel fundamental na construção da memória coletiva do Brasil.





