Jornalista cubano avalia imprensa internacional no país
Jornalista cubano avalia imprensa internacional no país
Depois de 14 anos de espera, o 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC) começou no sábado (16) e vai até a próxima terça-feira (19). Por força do momento econômico conturbado, explicitado pela demissão gradual de 500 mil funcionários do Estado, esse evento representa um momento histórico.
Na pauta, o processo de demissão e outros assuntos ligados à política, à iniciativa privada e ao fim dos subsídios mensais é discutida por cerca de mil representantes políticos internacionais, e acompanhada pela imprensa internacional.
Reunidos na Praça da Revolução, no centro de Havana, população e membros do partido avaliam a erradicação da "libreta" uma forma de subsidiar itens de primeira necessidade à população cubana.
IMPRENSA esteve na cidade de Havana, em outubro de 2010, quando o corte das 500 mil vagas já estava em andamento e alimentava uma onda de incertezas. À época, a reportagem conversou com José Ramon Vidal, jornalista e diretor de comunicação do Centro Social Martin Luther King, ligado à Igreja Batista de Cuba.
Na entrevista, o periodista cubano falou das incertezas políticas do país, criticou e elogiou o modelo político de Cuba, e fez análise da cobertura provida pela imprensa internacional sobre os assuntos relacionados ao seu país.
Portal IMPRENSA - De que forma avalia a cobertura de imprensa internacional quando o assunto é Cuba?
José Ramon Vidal - Muitos meios da imprensa internacional não sabem interpretar o que acontece em Cuba, e nem querem. Tomam suas posições de forma partidária e falam o que bem entendem. Os jornalistas internacionais quando escrevem ou falam sobre Cuba passam a impressão de que aqui só existem duas vozes: a favor ou contra Fidel e o regime comunista. Mas isso não é verdade, as posições dentro de Cuba são variadas, principalmente no que diz respeito ao momento de mudanças em que vive o país.
Imprensa - Qual sua versão sobre tais mudanças?
Vidal - Elas têm sido freqüentes e o futuro de Cuba depende delas. Mas a forma como uma grande transformação será feita deve ser muito bem estudada e analisada. Obviamente, o anúncio da demissão de 500 mil trabalhadores gera preocupação. Mas é um processo, em que você começa a sair de um sistema "estadocêntrico", uma maneira socializada de poder e passa por uma remodelação econômica. É a migração de um estado paternalista para uma economia independente.
IMPRENSA - Mas a imprensa internacional se equivocou ao questionar a situação de meio milhão de desempregados?
Vidal - A maneira como foi questionada gera outro problema de compreensão. Em um regime socialista, o desempregado vive outras condições. Você não pode dizer que o desempregado daqui é igual ao de um país capitalista. Aqui, ele continua tendo acesso à saúde e educação de qualidade e não perde a casa. Ainda que seja um processo doloroso, o desempregado aqui não fica desamparado. E para falar deste tema os meios de comunicação nunca consideraram isso, passando a impressão de que Cuba estava em colapso.
IMPRENSA - Cuba está renunciando ao socialismo?
Vidal - Muitos dizem que sim, mas não é renúncia, é sim uma forma de salvar o que já foi feito até então. Existem hoje em Cuba uma cultura na forma de fazer algo que precisa ser mudada. Ainda que seja doloroso. Eu não nego tudo o que a revolução trouxe de bom ao país em termos de benefícios humanos, mas este modelo está esgotado.
IMPRENSA - A imprensa reflete corretamente essa realidade?
Vidal - As discussões sobre este assunto sempre são polêmicas. Os veículos conservadores latino-americanos dizem que o socialismo está acabando em Cuba. O mesmo vale para a mídia republicana estadunidense. Uma parte da imprensa de esquerda diz que Cuba está desmantelando o socialismo ao colocar trabalhadores na rua. Mas tais análises são inexatas e merecem ser aprofundadas antes de ganhar os veículos.
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