Jornalista conta como tentou, por quatro anos, escrever sobre o homem mais rico do Brasil

Dos 12 anos que a jornalista Cristiane Correa atuou na revista Exame, um terço foi dedicado paralelamente para convencer o atual homem mais rico do Brasil a dar entrevista para seu livro.

Atualizado em 02/05/2013 às 16:05, por Luiz Gustavo Pacete.

jornalista Cristiane Correa atuou na revista Exame , um terço foi dedicado paralelamente para convencer o atual homem mais rico do Brasil a dar entrevista para seu livro. Jorge Paulo Lemann e seus dois sócios, Marcel Telles e Beto Sucupira, donos da Ab Inbev, Burger King e da Heinz, eram alvo de Cristiane para narrar a história de uma parceria histórica nos negócios brasileiros entre eles.

Cristiane Correa Lemann tomou o noticiário nos últimos meses após ter assumido a lista de homem mais rico do Brasil, desbancando o bilionário Eike Batista. Em particular, a compra da marca de condimentos Heinz, símbolo americano, em parceria com Buffett, foi um dos principais motivos para trazer de volta à imprensa os executivos que não gostam de dar entrevistas e cultivam hábitos discretos.

A ideia surgiu das coberturas que a jornalista vinha fazendo sobre as empresas do trio passando pela compra da Brahma, a fusão com a Antarctica, a criação da Inbev e diversos outros negócios.

Após tentar convencer os sócios por quatro anos a falar e recebendo respostas negativas, porém bem educadas, Cristiane decidiu escrever sobre os empresários utilizando as entrevistas e o material que já tinha coletada até então e, principalmente, falando com pessoas próximas.

Lançado em 2013, o livro “Sonho Grande” vem ocupando a dianteira da categoria de negócios na lista da Veja e já ganhou novas tiragens de 25 e 30 mil somando 85 mil exemplares.

Em entrevista à IMPRENSA, Cristiane fala sobre a experiência de escrever o livro, as inúmeras negativas e o ápice da apuração quando conseguiu entrevistar o maior investidor do mundo, o bilionário Warren Buffett.

IMPRENSA - Como foi elaborado o livro? Desses 12 anos que você esteve na Exame , há quanto tempo já pensava em contar a história do trio? Cristiane Correa – Antes de eu começar na revista Exame , trabalhei nove meses na Istoé e fiz uma matéria sobre a GP Investimentos, era um universo novo para mim, algo que eu conhecia muito pouco, mas que me atraiu. Foi justamente em uma época de grandes fatos na área de negócios como o surgimento da Submarino, por exemplo. Já na Exame , acabei acompanhando momentos importantes como a formação da AmBev, em 1999.

Quando você se aproximou de Jorge Paulo Lemann? Foi em 2007, eu não conhecia o Jorge Paulo. Falava mais com o Marcel, que até 2005 tinha função executiva na AmBev. Quando teve a compra da Antárctica eu o encontrei em uma coletiva e conversei com ele. No fim, não deu entrevista. Mas comecei a pensar que, esse processo de profissionalização dos caras daria um bom livro. Procurei primeiro o Marcel, já que eles resolvem tudo em trio, e ele levou minha solicitação para os dois. Por e-mail disseram que não tinham interesse. Fiquei insistindo para o Jorge Paulo, tentei marcar um café com ele e consegui. Estive com o Lemann, ele foi muito legal, me tratou superbem, mas não se interessou. Disse que eles não faziam nada de interessante.

Quantos anos você ficou tentando? Quatro anos. Um dia fui conversar com um editor e disse que estava com vontade de fazer algo diferente. Disse para ele que queria escrever o livro desses três, mas eles não toparam falar. Não dava para ser uma biografia porque ela precisava de uma autorização. Foi então que ele me incentivou a fazer um livro por fora, uma espécie de grande reportagem. Fiquei com isso na cabeça e os avisei que eu começaria a escrever o livro. Eles disseram que não poderiam impedir, mas que realmente não iam falar.

E a partir de então começou uma apuração no estilo Frank Sinatra? Eu tinha muitas fontes que eram próximas deles e com a ajuda dessas pessoas fui fazendo minha apuração. Em agosto de 2011, fechei um contrato com a Editora Sextante e iniciei o projeto. Fiquei paralelamente na Exame , tentei conciliar, mas era impossível, foi ai que eu saída revista. Em janeiro de 2012 comecei a avançar para valer com o livro.

Você não conseguiu falar com o Lemann, mas entrevistou o quarto homem mais rico do mundo, o Warren Buffett? Como foi? Começou de forma simples. Eu mandei um e-mail para a secretária dele explicando quem eu era e o que estava fazendo. Ele respondeu no mesmo dia e disse que eu poderia ir. Marquei e fui fazer pessoalmente. Em três semanas eu estava lá. Foi mais ou menos fácil. Eles são assim, se querem falar respondem logo se não querem , declinam também. Ele ficou uma hora comigo e foi supersimpático, fez várias perguntas sobre o Brasil. É um homem muito simpático e com o estilo parecido do Lemann, de simplicidade. Era justamente essa características que o atraia no trio.

Estar prestes a lançar o livro em um momento que eles anunciam a sociedade com o Buffet você encara como muita sorte? De que maneira isso ajudou? Muita gente não sabia quem eram esses caras. Os negócios recentes deram uma esquentada. O negócio da Heinz foi fechado em fevereiro. Eu estava no shopping, achando que a vida estava ganha, já tinha mandado o texto para editora e fiquei sabendo da compra. Na mesma hora pedi para pararem as máquinas e voltei correndo para casa. Comecei a apurar, isso atrasou o lançamento do livro.

Warren Buffett Falando sobre essa questão de ser acessível à imprensa, você acha que justamente essa dificuldade imposta por algumas fontes acaba transformando elas em mitos? Tem um pouco disso sim, quando a pessoa fala com muita gente acaba perdendo a áurea de exclusividade. Isso acaba despertando o interesse dos jornalistas.

Você acha que este tipo de personagem [inacessível] pode se tornar uma linha que deverá seguir em seus próximos livros? Eu gosto desse negócio. Já cheguei a ir à casa da fonte e deixar bilhete para que ela falasse comigo. Eu gostaria de continuar escrevendo livros, gostei muito da experiência. E acho que no Brasil livros de negócios são uma raridade. Outro dia eu peguei um táxi e vi o motorista com o livro. Ele disse que a esposa dele trabalhava em um RH e tinha indicado para que ele lesse. É interessante que pessoas não ligadas ao mundo de negócios se interessem.

Que tipo de responsabilidade tem os veículos que cobrem economia e negócios em um mercado em que qualquer informação pode gerar uma queda de bolsas e influenciar mercados? Esse é um assunto muito sério. E mesmo na Exame nós tínhamos a determinação de que jornalista não poderia investir em mercado de capitais. Era algo institucionalizado justamente para não termos problemas. Achei superapropriado para não deixar ninguém com telhado de vidro.