Jornalista brasileiro que cobria onda de violência na Cisjordânia relata detenção pelo Exército Israelense

Em depoimento ao jornal O Globo publicado ontem, o jornalista brasileiro Edrien Esteves afirmou que o Exército de Israel invadiu, na madrugada de 3 de julho, o quarto em que ele estava hospedado na cidade palestina de Jenin, terceira maior da Cisjordânia, confiscou seus equipamentos de trabalho e o manteve detido por 20 horas.

Atualizado em 06/07/2023 às 11:07, por Redação Portal IMPRENSA.


Nascido em Santos, Edrien tem 44 anos, é freelancer, mora em Londres desde 2017 e já cobriu diferentes conflitos armados internacionais, incluindo a reconquista de Mossul, no Iraque, a Grande Marcha do Retorno, em Gaza, a crise dos refugiados rohingya, em Bangladesh, e a guerra na Ucrânia. Crédito: Reprodução Reuters/BBC Soldados israelenses realizam operação militar em Jenin, na pior onda de violência na cidade dos últimos 20 anos Ele chegou a Jenin em 19 de junho para cobrir o aumento da violência local e a recente operação militar israelense na Cisjordânia, que deixou 12 mortos.
Celular e senha

Na noite de sua detenção, ele conta que, de dentro do quarto em que estava hospedado, ouviu uma explosão forte. "Quando olhei pela janela, vi blindados israelenses. Pelo fato de o prédio ser um centro cultural, haviam me dito que era o lugar mais seguro do campo e que o Exército não iria ali porque sabia que não encontraria armas. Imediatamente percebi que o Exército ia entrar no Teatro de Liberdade — o nome do lugar. Tomei medidas de segurança: acendi as luzes, escrevi em um papel sulfite “imprensa” e colei na geladeira, a primeira coisa que se vê quando se abre a porta."
Assim que invadiram o quarto, os soldados pediram as credenciais e documentos do jornalista, além de seu celular e a senha, para ver as fotos contidas na memória do aparelho.
"Eles disseram que entendiam que eu era inocente, mas queriam saber se eu já tinha visto alguém armado naquele prédio. Repeti várias vezes que não, que já tinha visto gente armada no campo, mas não no teatro. (...) Eles não me agrediram nem maltrataram, conversamos. Eles me deram água."
Depois de duas horas, os outros soldados o levaram para o andar de cima, onde havia outros militares israelenses. Um deles teria tentado algemá-lo, mas acabou desistindo.
"A interpretação deles era de que eu precisava ir com eles para garantir minha própria segurança, mas eu discordo. Quando começamos a sair do prédio, eles me expuseram a um risco desnecessário. Me escoltaram ao descer as escadas, mas havia combate, muito tiro, e me fizeram carregar minhas coisas, correr num lugar aberto. Chegamos a um veículo blindado para onde levavam palestinos com lacres nos pulsos. Na porta, percebi que disseram que era para eu voltar. Tive de passar pelo mesmo trajeto, correndo risco de novo. Ficamos no apartamento mais algumas horas."
O jornalista afirma que foi levado para outra casa, onde havia moradores locais: cinco homens, três mulheres e uma criança de pouco mais de um ano. Somente às nove da noite o jornalista foi liberado.

Após o episódio ele entrou em contato com o consulado do Brasil em Ramallah e conversou com o embaixador Alessandro Candeas pelo telefone. "Combinei de encontrar com ele em uma vila perto. Fui de táxi, encontrei com o embaixador, que me trouxe de volta para Jerusalém em um carro blindado.
Consultadas pelo jornal O Globo, as Forças de Defesa de Israel afirmaram que não registraram a detenção de um jornalista brasileiro durante a operação em Jenin.