Jornalista afastado três vezes da TV argentina fala sobre relação com o governo

O jornalista argentino Jorge Lanata é um dos mais emblemáticos nome da mídia argentina. No Brasil não existe nenhum profissional que possa ser comparado a ele.

Atualizado em 08/01/2013 às 17:01, por Luiz Gustavo Pacete.

Agora virou estrela de TV, mas também atua no rádio e escreve para o Clarín . Sua relação com os argentinos é de amor e ódio.

Jorge Lanata Lanata já esteve entre as três personalidades mais influentes do país, atrás apenas de Nestor Kirchner e Diego Maradona. Fundador do jornal Página 12 , o jornalista apresenta nas noites de domingo o “Periodismo Para Todos”, programa que mistura jornalismo investigativo e humor.
Criticado por ter se associado ao Grupo Clarín é considerado o maior inimigo do governo de Cristina Kirchner. Em entrevista concedida à IMPRENSA no fatídico 7 de dezembro, ele conta que já foi tirado três vezes da televisão por se opor ao poder.
IMPRENSA – Você aceita o título de principal opositor do governo? Jorge Lanata – Nosso programa é muito assistido e bastante popular. Há 30 anos não existia um programa tão popular que falasse sobre política. Geralmente, um programa que trata deste tema chega a dar 3 pontos, o nosso fica entre 20 e 30. Mais que a novela, chegamos a ganhar até mesmo do futebol. Por outro lado, não existe oposição, logo, o governo faz muita pressão para me partidarizar. Eles me rotulam como um político. E eu não sou um político, sou jornalista. Não digo coisas por interesse, mas simplesmente para informar.
E quais são as represálias que você sofre por isso? Eu sempre briguei com os governos e por isso já fui tirado da televisão três vezes, todas por motivos políticos. A última vez quem me tirou foi Nestor Kirchner. Eu fiquei oito anos fora da televisão. Ele assumiu em dezembro de 2003 e no mesmo mês eu publiquei uma matéria que denunciava a corrupção no ministério de aposentados, foi quando sai do canal América TV. O fato de eu estar na TV acabou virando um termômetro para a liberdade de imprensa no país.
Existe liberdade de expressão na Argentina? Primeiro é preciso definir o que é liberdade de expressão. Estamos em um país de terceiro mundo em que 1/3 da população está abaixo da linha da pobreza. Essas pessoas não têm liberdade de expressão a partir do momento em que não possuem liberdade para comer. Em todos os governos democráticos da Argentina tentaram limitar a liberdade de expressão de distintas maneiras, uns mais brutais, outros menos. Talvez, Raúl Alfonsin tenha sido o que mais respeitou, mas mesmo ele teve problemas com a imprensa.

Algum outro governo teve o comportamento do kirchnerismo? É insólito o que está acontecendo hoje. Não acontecia algo parecido desde o primeiro governo de Perón. Eles estatizaram meios de comunicação e a empresa que fabricava papel, exatamente como hoje. Entregaram concessões nas mãos de empresários amigos e é exatamente o que acontece.
A entrevista é interrompida pelo toque do telefone. Lanata atende...
Prorrogaram a cautelar isso significa que não existe 7D. É um desastre para o governo… (diz o jornalista à pessoa que está do outro lado da linha, neste dia vencia o prazo para que o Grupo Clarín apresentasse um plano de desinvestimento de suas concessões de TV. Porém, o mesmo foi prorrogado). Como eu estava falando, o que acontece hoje é insano. Além de entregar meios nas mãos de amigos temos outros problemas. Processos contra jornalistas, a autocensura, pior do que a censura do governo. Jornalistas não dizem as coisas por medo de serem escarnecidos publicamente pelo governo e serem vítimas do aparato de propaganda. Além disso, jornalistas, empresários e qualquer pessoa que saia a criticar o governo podem ter sua vida devassada pela Receita Federal.
A imprensa é isenta de qualquer culpa ou erro na história da Argentina? O debate me parece muito bom. É saudável que se coloque em dúvida a palavra dos meios. É inteligente duvidar. Ainda mais em um país que sofreu com tanta incerteza e muita morte. Mas o que não me parece bem é que o governo queira ter somente uma opinião e manipule a todos.