Jornalismo sem pai e mãe
Jornalismo sem pai e mãe
Há um erro recorrente nos livros de história da imprensa quanto às origens do jornalismo e o mais grave é que a internet se encarrega de multiplicá-lo através de milhares de blogs e sites, consolidando equívocos a esta altura irreversíveis diante do impacto da comunicação massificada que não admite as versões, ou seja, o contraditório. Refiro-me a idéia da existência de um jornalismo milenar difundido pelos chineses ou pelos romanos, ou de um jornalismo mediterrâneo na Europa medieval. Concepções equivocadas por conta da interpretação simplista e conveniente aos historiadores de que todas as formas de comunicação escrita, excetuando os livros, eram jornalismo. Não eram, do mesmo jeito que Johannes Gutenberg não é o pai da imprensa. Mas quem se atreve a dizer isso? Brigar com o "conhecimento" oficial já institucionalizado não tem o menor sentido.
Apenas propaganda
Comecemos pelas "Ata Diurna Populi Romani" do último século da era antiga, atribuídas a Julio César, mas difundidas por Augusto no século da morte de Cristo, que nada mais eram do que tabuas de pedra afixadas em locais públicos contendo supostas noticias do interesse dos romanos. Todas as evidências apontam em torno de um conteúdo que não era noticia, no sentido de variedade e exposição dos fatos com as suas nuances, e sim propaganda dos Cesares, detalhando as suas vitórias e conquistas nos campos de batalha, afirmando a superioridade do Império, anunciando a instituição e cobrança de tributos, dentre outros assuntos. As Atas Diurnas nada mais eram do que no Brasil colonial se convencionou chamar de "Bandos".Ou seja, os papeis afixados num prédio público, com instruções, previamente anunciados por um soldado que convocava o povo para a leitura.
Mais tarde, século nono de nossa era, os chineses editaram o King-Pao que alguns preferem chamar de Gazeta da China e outros de Pequim. Informava apenas os decretos e outros atos do governo, sempre assuntos relacionados com a administração, inclusive a resenha das audiências e dos conselhos. Como as Atas Diurnas a sua função e objetivo era propaganda e não jornalismo. Também eram propaganda, neste caso com viés comercial explícito, os "Avvisis" venezianos que circulavam entre os portos de Europa desde a Idade Média. O seu DNA propagandístico pode ser aferido através de sua distribuição dirigida, que contemplava apenas comerciantes, investidores, nobres e reis. Os célebres comunicados comerciais que os historiadores insistem em contextualizá-los como antecedentes ou precursores do jornalismo, prosperaram com outro nome e outro formato, também na Inglaterra (New Papers) e na Alemanha; ali difundiram-se os "Zeitungen".
Era Gutenberg
Johannes Gutenberg morreu sem ter conhecido a imprensa que de fato surgia mais de um século após o seu falecimento. O ferreiro tinha inventado os tipos móveis, viabilizando a copia em série de livros que a diáspora dos impressores germânicos espalhou por toda a Europa ao longo dos séculos XV e XVI. Num equívoco condescendente é considerado o pai da imprensa, apenas por que viabilizou o prelo. E com isso tornamo-nos órfãos de fato, já que o jornalismo não tem pai nem mãe; a imprensa sequer tem referências de sua origem, como se vê, propositalmente emaranhada aos conteúdos propagandísticos.Com isso minimizamos o impacto e a importância dos verdadeiros precursores como o Aviso-Relation oder Zewitung ou a Gazette de France e com eles os seus artífices.
O fato é que ao assumirmos clichês ( nenhuma intenção de trocadilho) desprezamos conhecimentos que tal vez hoje não mais tenhamos disponível. Quase nada sabemos dos primeiros jornalistas (com exceção da imprensa americana que, nesse particular, resgatou os precursores), das motivações que de fato originaram o jornalismo, da distribuição dos veículos, da evolução das tecnologias de impressão e do suporte, da transição das oficinas gráficas em empresas de noticias, da formação da opinião pública (fenômeno apenas estudado em relação à século XX, através das Escolas de Chicago e de Frankfurt, escolas francesas e estudos latino-americanos, estes mais recentes), dentre outras questões.
A história da imprensa com seus fundamentos foi escrita sem a participação e o olhar crítico e apurado dos profissionais de mídia. Deu no que deu: Confundimos prensa com imprensa e jornalismo com propaganda.






