"Jornalismo investigativo requer qualificação dos repórteres", diz Frederico Vasconcelos

"Jornalismo investigativo requer qualificação dos repórteres", diz Frederico Vasconcelos

Atualizado em 29/04/2009 às 18:04, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

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O jornalista Frederico Vasconcelos, repórter especial da Folha de S.Paulo, tem mais de quarenta anos de carreria, dos quais, de forma majoritária, dedicados ao jornalismo investigativo.

Tamanha experiência forneceu subsídios suficientes para que o jornalista colocasse em três livros recomendações sobre como produzir reportagens investigativas. Seu mais novo trabalho, "Anatomia da Reportagem", trata especificamente dos procedimentos simples do cotidiano profissional que podem atrapalhar a realização de reportagens e dá dicas sobre como evitar transtornos.

Partindo do tema abordado pelo livro, Portal IMPRENSA entrevistou Vasconcelos para a seção "Entrevista com o Autor" desta semana. O jornalista fala do papel da reportagem investigativa no Brasil; comenta a relação promíscua entre jornalistas e autoridades (exposta através do caso do delegado federal Protógenes Queiróz) e, por fim, faz um alerta aos jovens focas que pensam em enveredar pelos caminhos do jornalismo investigativo.

Portal IMPRENSA - Na sua opinião, o jornalismo investigativo no Brasil aborda todos os temas que deveria ou serve, na maioria das vezes, a interesses de um pequeno grupo dominante?

Frederico Vasconcelos - Acho que o jornalismo investigativo é praticado principalmente em relação ao Executivo e ao Legislativo. É muito recente o interesse da imprensa sobre as irregularidades do Judiciário. A imprensa não desenvolveu técnicas, por exemplo, para investigar empresas. Nessa área, não se antecipa muita coisa. Depende-se muito de informações do Ministério Público ou do Judiciário. Ou seja, raramente as reportagens são resultado de apuração própria dos jornalistas. Considera-se, também, como jornalismo investigativo, muitas reportagens feitas a reboque de investigações policiais. Há muita apuração bem feita, mas há, também, muitas reportagens que são apenas fruto de vazamentos ou "dossiês" pré-fabricados. Não acho que o jornalismo investigativo serve a interesses de um pequeno grupo dominante.

IMPRENSA - Qual o papel do jornalismo investigativo na construção da democracia do País?

Vasconcelos - O jornalismo investigativo bem feito é um serviço de relevante interesse público. Sem dúvida, contribui para o aperfeiçoamento democrático. Basta citar o avanço, nos últimos anos, no aspecto da abertura de caixas-pretas. Ao lado da sociedade organizada, entendo que a imprensa contribui muito para o acesso público à informação. Ainda há muito sigilo inadmissível nos três poderes.

IMPRENSA - Em nosso País, muitas vezes o jornalismo investigativo descamba para as vias da "perseguição". Na sua opinião, a que se deve esta perda de "foco"? Como uma reportagem deve ser construída para que não dê a impressão de ser uma perseguição?

Vasconcelos - Digo em meu segundo livro, "Juízes no Banco dos Réus", (também publicado pela Publifolha) que repórter não é policial, redator não é promotor e editor não é juiz. a melhor forma de evitar a impressão de que o jornalista é movido por sentimento persecutório é ampliar o chamado "outro lado". É procurar a parte acusada com tempo suficiente para que ela possa responder. É buscar documentos que melhor exponham os argumentos da parte atingida, com o mesmo empenho com que se vai atrás de fatos que comprovem as suspeitas. A imprensa tem muito a aprender com o próprio judiciário, na busca de várias versões para o mesmo fato e no respeito ao contraditório. Não gosto de colocar gravador na boca de pessoas acusadas. Elas não são as melhores "fontes" para apresentar sua própria defesa. Em geral, estão com baixa estima. Prefiro a consulta aos autos, a documentos ou aos advogados. É no processo, acredito, que está a melhor defesa, a mais objetiva.

IMPRENSA - O jornalismo investigativo, conforme você expôs em seu livro, demanda muita concentração, além de dedicação quase integral à pauta. Você acredita que em um contexto imediatista em que o jornalista da "nova geração" não tem paciência para se dedicar a uma matéria, o jornalismo investigativo terá espaço?

Vasconcelos - A questão do tempo é crucial. Tanto para a realização da reportagem quanto para a experiência que o jornalista deve acumular. Não recomendo a jovens jornalistas partir para essa área, tão fascinante para os iniciantes, sem maturidade ou sem uma "retaguarda": boas fontes, consulta a especialistas, muita checagem. A tentativa individual de grandes "furos", sob pressão do tempo, pode levar a experiências frustrantes. Fazer jornalismo investigativo requer qualificação dos repórteres, experiência e, principalmente, disposição dos veículos para enfrentar processos e pressões. Isso custa caro. É preciso investir em apurações demoradas, que têm custos elevados. O repórter deve ter uma retaguarda jurídica, para trabalhar com segurança e tranquilidade. No meu caso, isso sempre foi assegurado pela Folha de S.Paulo . Entendo que o jornalismo investigativo não é uma atividade individual. Há sempre um trabalho de equipe. Não dou um passo sem conhecimento e aprovação do jornal.

IMPRENSA - O caso do delegado Protógenes Queiróz evidenciou uma relação promíscua entre autoridades e jornalistas. Até que ponto o profissional de jornalismo pode se beneficiar de informações privilegiadas para construir sua matéria?

Vasconcelos - Não conheço o delegado, nem tenho maiores informações sobre o caso específico. A promiscuidade deve ser evitada com fontes de qualquer área. Os jornalistas trabalham com informações. Até mesmo fontes insuspeitas e bem conhecidas dos repórteres, em casos de interesse público e legítimos, têm interesses. O ideal é sempre consultar especialistas que possam opinar, de forma distanciada. Há vazamentos no ministério público, há vazamentos por advogados e há vazamentos no judiciário. O vazamento, em si, é uma distorção. Muitas vezes ocorre porque há a certeza de que, sem a publicidade dos fatos, muitos processos serão engavetados. O melhor remédio para evitar essas distorções é a publicidade. O sigilo deve ser exceção. O ideal é a maior abertura aos autos do processo, aos documentos. Um bom exemplo foi a abertura à imprensa no caso do mensalão, com a quebra de sigilo do processo. As peças que exigem sigilo (dados bancários, por exemplo) permanecem preservadas pela Justiça.

IMPRENSA - Comumente vemos o uso de escutas e câmeras escondidas na captação de flagrantes e provas. Você é a favor do uso destes mecanismos?

Vasconcelos - Muitas reportagens importantes foram feitas com esses equipamentos. Particularmente, não uso. Costumo me identificar sempre como jornalista, não escondo meu nome e nem a minha atividade.

IMPRENSA - Você acredita que a prática do jornalismo investigativo no País peca em algum detalhe?

Vasconcelos - O principal pecado, a meu ver, é o desequilíbrio entre a acusação e a defesa. É a falta de destaque quando uma denúncia publicada lá atrás não se confirma depois. Há outros "pecadilhos", como a falta de memória. Como há uma sucessão de escândalos e denúncias, o leitor fica sem saber dos desdobramentos de casos relevantes.

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