Jornalismo independente fortalece o processo de regionalização e diversidade no Sul

A região Sul do país sempre foi referência em jornalismo regional. Em reportagem para a edição do Troféu Mulher IMPRENSA, conversamos com jo

Atualizado em 21/05/2023 às 08:05, por Marcus Ribeiro.

Troféu Mulher IMPRENSA


rnalistas que fazem hoje parte de iniciativas voltadas para as questões sociais e culturais bem sucedidas em suas cidades.


“Temos grupos regionais fortes, com foco na cobertura de temas locais. Eu sou de Santa Maria (RS), e a cidade é uma referência na região. Antes do fenômeno da digitalização da comunicação, tínhamos muitas tevê e jornais locais, e a característica segue a de empresas familiares que vinham de outros segmentos de negócio. Com um forte componente político e de poder, claro”, aponta Patrícia Comunello, editora assistente do Jornal do Commercio (RS), que cuida do canal digital e da coluna Minuto Varejo. Patrícia é graduada em Ciências Sociais pela UFRGS, com pós em Jornalismo Digital pela PUC (RS) e MBA em informações econômico-financeiras pela FIA (SP).


Ela enfatiza que no Rio Grande do Sul existem diferentes sotaques de acordo com as microrregiões do estado. “O processo de digitalização é paradoxal porque afetou os maiores grupos, mas fortaleceu o processo de regionalização. O Grupo RBS, por exemplo, vendeu os seus negócios em Santa Catarina. O problema é que os jornais de papel, mesmo em uma cidade importante como Joinville, fecharam. O lado interessante é que o digital trouxe mais atores e maior diversidade”, argumenta Patrícia.


O desafio dos veículos, grandes ou não, da região segue sendo o financiamento. No Paraná, que sofre muita influência do mercado e da mídia de São Paulo, o Jornal Plural Curitiba foi criado a partir de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse em janeiro de 2019. No comando do Plural está a jornalista Rosiane Correia de Freitas. O veículo jornalístico independente é voltado para questões de direitos humanos e justiça social, e se autointitula “criado por e para seus leitores”.


Com característica bem próxima, outro projeto interessante é o Matinal, criado como uma newsletter para a cobertura de Porto Alegre (RS), e que virou um grupo, ao agregar o blog cultural de Roger Lerina e criar a revista Parêntese. “Começamos a criar conteúdo próprio com foco em POA. Temos 15 pessoas na equipe, entre jornalistas, marketing e atendimento. Nos sustentamos com assinaturas por meio de conteúdo fechado, especialmente a revista”, explica Marcela Donini, editora-chefe do Grupo Matinal Jornalismo, jornalista formada na UFRGS e com especialização e mestrado em jornalismo e comunicação pela PUC-RS.


O foco do Matinal é em matérias de maior fôlego em justiça social, política local, mobilidade, planejamento urbano e questões de gênero, raça e direitos humanos. “Nossas matérias são de contexto e impacto. No Sul é muito forte o problema do racismo e da xenofobia, especialmente contra os nordestinos, temos uma população negra que é minoria e sofre muito preconceito. Existe o componente do machismo, claro, que é presente nas questões cotidianas, mas não sei se é maior ou igual que em outros lugares”, pontua Marcela.


Crédito:Geovana Benites/Matinal e Arquivo Pessoal Marcela Donini e Patrícia Comunello

Sobre a presença feminina no mercado de comunicação regional, ela explica que as mulheres são maioria no Matinal, inclusive em cargos de chefia. “No geral, vejo um equilíbrio, temos muitas mulheres em cargos importantes, até mesmo no Grupo RBS. Acho que não é uma questão relevante”, conclui.


Patrícia do Jornal do Commercio, no entanto, não tem a mesma impressão. “Somos maioria em comunicação e jornalismo, sempre fomos, porém não vemos tantas mulheres chefes, existem poucas regionalmente. Existe um espaço crescente, porém ainda estamos muito relegadas ao ‘chão de fábrica’”, diz.


No entanto, as duas concordam que não existem tantas reclamações de assédio, embora ainda ocorram muitas ocasiões de mansplanning, a explicação do homem sobre determinado assunto. “Claro que existe um machismo estrutural e o fato de não termos tantas mulheres em cargos importantes é algo que é do Brasil, infelizmente, e não exclusivo da nossa região ou do jornalismo”, alerta Patrícia.


No geral, existem mais mulheres empreendedoras na região que homens, especialmente em assessorias de imprensa. “Eu acredito que existe espaço para crescimento de projetos regionais, temos uma demanda represada por informação de qualidade. O que precisamos é de uma melhora na economia para fomentar esses empreendedores e mais foco em conteúdo de comunidades”, conclui Patrícia, que cita como exemplo a grande diferença entre o Norte e o Sul de Porto Alegre, que poderiam abrigar projetos distintos e voltados para essas comunidades.