Jornalismo faz mal à saúde

Jornalismo faz mal à saúde

Atualizado em 16/11/2005 às 15:11, por Denise Moraes e Thais Naldoni.

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O cotidiano das redações – regado a pressa, café, cigarros e uma cervejinha depois do deadline – tem feito jornalistas repensarem sua qualidade de vida. Os dados são assustadores: grande parte dos coleguinhas sequer chega à aposentadoria. Morrem antes, por doenças ligadas ao estresse.

Primeiro, ela sentiu uma dormência no braço. O barulho da televisão, mesmo o mais baixinho, incomodava. Em seguida, sua memória começou a falhar. Ela não conseguia sequer lembrar um número de telefone que acabara de consultar na agenda. Ao tentar falar, não conseguiu emitir nada além de grunhidos. Pensou consigo mesma: “vou escrever”. Nem disso foi capaz. Então, no auge de sua carreira, a temida jornalista Marilene Lopes, na época, diretora de Comunicação e Assuntos Corporativos da Coca-Cola, voltou à infância. A forma que encontrou para pedir ajuda foi uma crise de choro. Esta história é relatada em detalhes no livro Antes que seja tarde, em que Marilene narra o Acidente Vascular Cerebral (AVC) que sofreu na empresa em que trabalhava. Em apenas um dia, todo o estresse acumulado ao longo de uma carreira bem-sucedida se manifestou de maneira intempestiva. Marilene sofreu o AVC em maio de 2001. Desde então, como ela mesma diz, “reaprendeu e reinventou, a cada dia, a sua vida” e deixou de ser jornalista.

Lamentavelmente, a saúde não está na lista de prioridades da maioria dos jornalistas e, cedo ou tarde, há um preço a ser pago por isso. Até mesmo o folclore profissional acaba por glamorizar as subcondições de trabalho. Ao contrário de outros profissionais, os jornalistas se gabam do serão, que leva alguns colegas a trabalhar até mais de 20 horas seguidas. Café, cigarro, bebida, vida sedentária e um eterno adiamento da consulta médica são como troféus para os jornalistas. Quem, dos coleguinhas, não passou ou conhece alguém que tenha passado por problemas de saúde ligados ao estresse? O jornalismo é uma profissão que não só leva ao estresse, mas às doenças ocupacionais. “Durante três anos, dos quatro em que fui editor, virei consumidor de antidepressivos. Em crise de tensão, por conta das pressões do trabalho em equipe, procurei um médico, que receitou Zoloft em doses crescentes. Só fui deixar o remédio, aos poucos, depois de passar à função de colunista”, conta Nelson de Sá, colunista da Folha de S.Paulo.

O debate em torno da saúde nas redações, no entanto, já vem chamando a atenção das entidades de classe e de pesquisadores – que tentam mapear as conseqüências do agitado e desregrado ritmo de vida imposto pela profissão. Pesquisas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), junto a sindicatos de jornalistas, demonstram um dado nada animador: "devido às doenças de difícil diagnóstico precoce, parte significativa dos jornalistas não alcança sequer a aposentadoria”, explica o Prof. Dr. Roberto Heloani, psicólogo e professor da FGV, Unicamp e Unimarco, que pesquisou o assunto como tese de pós-doutorado. Em seu trabalho, Mudanças no mundo do trabalho e impactos na qualidade de vida do jornalista, Heloani teve a oportunidade de definir, por amostragem, as conseqüências da rotina diária do jornalista. “Além de a maioria deles trabalhar muito mais do que está fixado na legislação, muitos reclamam de pouco tempo para dedicar à sua vida pessoal, das más condições de trabalho e da grande incidência de assédio moral”, comenta. O jornalista Gilberto Nascimento, da revista IstoÉ, acredita que os jornais diários sejam um dos principais ambientes de pressão, devido à carga horária e à obsessão pela notícia quente. “É estressante repetir diariamente jornadas que começam pela manhã e se estendem pela madrugada. Ainda há a angústia provocada pela dificuldade em obter determinadas informações e o risco de demissão ao ser, eventualmente, furado pela concorrência”, garante Nascimento. A estafante vida e a pressão sofrida enquanto atuava em jornais diários, segundo ele, teve suas conseqüências. “Em redações anteriores, já cheguei a parar no hospital duas ou três vezes. Tinha esofagite e, quando sentia dores, o estresse só piorava os efeitos”, finaliza.

Leia entrevista completa na edição 207 de IMPRENSA (novembro de 2005)